Conheci o professor por volta de 1970. Já então se dedicava ao magistério. Militou no Colégio Estadual Deraldo campos – atualmente Colégio Estadual Professor Mileno Ferreira da Silva – e no Ginásio Santana, que patrocinava o curso ginasial e abrigava a Escola de Comércio São Tomás de Aquino.
Nos três estabelecimentos pontificava o professor Conrado na cadeira de História. Não cheguei a ser aluno, mas nossa vida se aproximou quando, por volta de 1973, fui chamado a compor o corpo docente do Ginásio Santana e da Escola de Comércio. Eu era professor diletante, sem curso especializado e sem capacitação profissional. Era assim naqueles tempos heróicos. A necessidade e a grande carência de professores com formação acadêmica obrigavam as escolas a aproveitar “a prata da casa”, pessoas estudiosas, lidas ou apenas curiosas que se dispunham a ensinar o que nem sempre sabiam. Dessa massa vi surgirem excelentes professores, o que não foi o meu caso.
José Conrado não se enquadrava nessa categoria. Enfrentando enormes desafios, alfabetizou-se em Pão de Açúcar (AL) nas escolas de primeiras letras , estudando à luz de candeeiro e rabiscando no caderno “Avante””. Esse era o comum em seu meio: quando muito aprender a assinar o nome. Mas Conrado não é pessoa comum. Num esforço só compreendido pelos que têm a ventura de conhecer sua força de vontade, sua têmpera, seu caráter e sua inteligência, estudou contabilidade, fez o curso de magistério, cursou Estudos Sociais em Garanhuns (PE) e depois fez Licenciatura Curta e em seguida, Plena, em História, na cidade de Arcoverde (PE), deslocando-se de Santana do Ipanema (AL) nos finais de semana e, muitas vezes, à noite.
Se a vida de professor já tomava o melhor de seu tempo e dedicação, após a licenciatura o magistério passou a ser um sacerdócio para José Conrado. Recebendo pouco e atrasado e, às vezes, nem recebendo, o professor lecionou em quase todos os colégios das cidades circunvizinhas. A juventude de Ouro Branco, Dois Riachos, Olivença, dentre outras comunidades, teve no professor Conrado um paradigma de honradez, um exemplo de dedicação, um alicerce confiável na sua formação escolar, social e religiosa.
Aposentado e sexagenário, não se adaptou ao ócio. Enfrentou exames vestibulares aos 67 anos com a pujança e a garra de um adolescente, cursou Teologia e, em 1995, foi ordenado Pastor da Igreja Batista, em cujo seio formou sua vida espiritual e a cujo trabalho dedicou tanto esforço quanto ao magistério laico.
Não obstante, sua intensa atividade educacional, religiosa e familiar, - criou exemplarmente, ao lado da virtuosa Virgínia, numerosa prole – o professor Conrado ainda encontra tempo para atividades sociais em clubes de serviço, associações de moradores ou na Maçonaria, onde recebeu títulos honoríficos e atingiu os mais altos graus de hierarquia.
Sua vida de trabalho e probidade o tornou merecedor do título de cidadão honorário de Santana do Ipanema, terra que foi, por décadas, fecundada pelo seu labor, pela sua dedicação e pela semente generosa do sangue africano que corre em suas veias.
Por tudo o que aqui se escreve e por outras virtudes que ornam o espírito de José Conrado de Lima é que vejo nele uma pessoa admirável que, na sua simplicidade e com a humildade de que se reveste sua alma, será presença útil e benfazeja à Humanidade enquanto Deus o mantiver entre nós.
P.S.. O professor Conrado faleceu em 22 de fevereiro de 2007 e foi sepultado em Santana do Ipanema, como era seu desejo.
Maceió(AL), 20.11.05
Matéria publicada em 19/03/2007
CONRADO
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