FARMÁCIA VERA CRUZ
Início de noite de 27 de janeiro de 2018. Havia acabado de jantar na casa de minha mãe, em Santana do Ipanema. Já retornando para Major Izidoro, passando pela Praça Manoel Rodrigues da Rocha, não pude deixar de, mesmo dirigindo, olhar para a “Farmácia Vera Cruz”! Mas, que farmácia? Senti uma “pontada” no coração! O prédio, fisicamente, estava lá, no lugar de sempre, mas descaracterizado, com suas portas fechadas... sem o ícone, que lhe dava “vida”, motivação de seu existir: “seu Alberto”, como carinhosamente era chamado! Porém, constatei que na minha memória, tudo permanecia como antigamente...
Durante toda viagem de volta, sem perder a atenção no volante e na estrada, retornei ao passado longínquo...
Vi-me pequenino, na década de sessenta, tinha entre seis e sete anos, com lesões por todo corpo, consequente, talvez de uma micose ou algo do gênero, levado pelo meu pai para que “seu Alberto” “receitasse” algum remédio... Eu estava extremamente envergonhado pelo fato de ter que tirar a camisa para ele ver as lesões... essa “consulta” foi concluída com a aplicação de uma injeção de penicilina e a entrega de uma pomada... Na hora de injeção chorei pelas duas coisas: a vergonha e o medo da agulha...
Vi-me, também, na sala de aula do Ginásio Santana, hoje Colégio Cenesista, início da década de setenta, assistindo aula de geografia, onde o professor, muito rígido por sinal (do jeito que gosto), era o “seu Alberto”...
Vi-me, ainda, de criança à vida adulta, nas inúmeras vezes que fui comprar remédios naquele tradicional recinto, onde, independentemente de vê-lo ou não, sentia segurança no ambiente e nos atendentes que lá trabalhavam... Não deixei de “ouvir” ainda na pauta da memória e na cadência do tempo, embora que passado, sua voz: “cadê seu Alonso” (meu pai)... Ele nunca deixou de perguntar...
Vi-me, já sacerdote, passando lá para convidá-lo a participar de algum evento de minha paróquia, ou mesmo para um bate-papo entre amigos...
Vi-me estacionando, várias vezes, o carro da paróquia à frente da farmácia, pois sabia que ali, pelo respeito que seu proprietário tinha diante de todos, o automóvel estaria mais protegido...
Vi a fachada do prédio, e suas mudanças no tempo, sem perder sua essência...
Vi, vivi, fiz desses e de tantos outros momentos que vivenciei, capítulos da história de minha vida...
Pena que hoje, tudo isso exista somente na memória daqueles que amam Santana e interagiram com “seu Alberto” e com a “Farmácia Vera Cruz”!!! Saudades... sentimento que tempera a alma...
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