PORTO DA ÁRVORE AMARELA

Djalma Carvalho

Faz poucos dias, vi na televisão reportagem sobre o problema do desmatamento no Brasil, a partir da floresta amazônica até a mata atlântica brasileira, ao longo do seu litoral.
Os técnicos, no particular, tratavam desse crescente desastre ecológico, às vezes até criminoso, outras vezes por ignorância de causa, o desmatamento, que prejudica rios, riachos, quedas d’água, nascentes e até lençóis freáticos. Sério alerta. Com efeito, o fato, em futuro não muito longe, será capaz de causar sérios danos ao meio ambiente. Se nada for feito que possa impedir essa corrida desenfreada, fatalmente haverá falta d’água em capitais, em grandes centros populacionais e em regiões do país afora, sobretudo nas comunidades do interior nordestino.
Essa observação técnica, a meu ver, é válida, porque rios, riachos e antigas fontes perenes estão desaparecendo, morrendo, secando, como acontece, por exemplo, com o rio Ipanema, o riacho Gravatá e o minadouro do pé da serra do Gugy, no município de Santana do Ipanema, sertão de Alagoas. Estão sendo desmatadas reservas de matas virgens, que eu ali conheci quando menino. Parece-me que, no meio rural, existe uma ânsia desesperada de ampliação de áreas para formação de novos roçados, de novas lavouras.
Faz pouco tempo que li o livro Camaragibe, sua História e sua Gente, editado em 2010, de autoria de Márcio Fernando Bomfim. Nele se observam, com toda razão, o entusiasmo do autor em contar a história de sua cidade natal e a exaltação que faz dos seus ilustres conterrâneos do passado, a começar por Aurélio Buarque de Holanda Ferreira e José Fernandes de Barros Lima, o dicionarista e o ex-governador.
A cidade teve sua origem, como povoação, em fins do século XVI e início do século seguinte. Em 1608, Cristóvão Lins, de origem alemã e casado com uma portuguesa, na condição de Alcaide-Mor e Partidor de terras de Porto Calvo, fez doação ao sobrinho Rodrigo de Barros Pimentel, de terras da região onde hoje se situa Passo de Camaragibe, no litoral norte alagoano. Ambos, portanto, figuram na história do lugar como seus primeiros povoadores.
De origem tupi, o lugar se chamaria Porto da Árvore Amarela (“cama” – árvore, e “juba” ou “iby” – amarelo).
Passo de Camaragibe despontou no século XIX e início do século XX como cidade de muita prosperidade, com seus ricos engenhos de açúcar. Pelo rio Camaragibe, então, a produção de açúcar era exportada, a partir do porto da cidade, para outros portos brasileiros e, daí, para o comércio exterior. Rio navegável pelo qual barcaças possantes carregavam até 4.000 sacos de açúcar de sessenta quilos.
Pelo rio, a bordo do vapor Paraíba, por exemplo, o presidente da província de Alagoas Dr. José Bento da Cunha Figueiredo Júnior e sua numerosa comitiva viajaram, de Maceió a Passo de Camaragibe, em 31 de março de 1869. Destinavam-se a uma festa na casa-grande do Engenho Buenos Ayres, de propriedade de destacado líder político da região.
No porto, a comitiva foi recebida, festivamente, por lídimos representantes da Vila do Passo de Camaragibe, recepção assim descrita pelo cronista oficial: “Às 9 horas da noite ouvia-se o estrugir de foguetes na vila, que anunciavam a aproximação do escaler, que tomou porto no meio de grandes ovações dos habitantes, aos sons de uma banda marcial, aos clarões de diversos archotes e ao atroar de muito fogo no ar.”
Hoje, afinal, com o desmatamento crescente da mata atlântica da região, o rio Camaragibe não é mais navegável. Talvez, uma ou duas pequenas canoas consigam navegar, aqui e acolá, em períodos chuvosos ou de eventual enchente.

Maceió, maio de 2020.

Comentários