"O caldeirão da falibilidade: uma crítica à indiferença"

Adriano Nunes

Este ensaio é dividido em 3 partes: I - Os liberais (ou quase); II - O lulismo; III - O conservadorismo tupiniquim. Agora, disponibilizo a prima e a segunda partes. Esta é uma tentativa despretensiosa de compreender a realidade fatual contemporânea. E, claro, está aberta à crítica.

I - OS LIBERAIS (OU QUASE)

Por que muitos liberais não adotaram o slogan antifascista contra um governo que, não só simbolicamente se manifesta como fascista, mas legitima o fascismo, de algum modo, através de discursos, atos, práticas? Primeiro, ninguém é obrigado a adotar coisa alguma, defender nenhuma bandeira, tomar partido. Isto é um princípio mor liberal. O problema desse princípio é que ele se fragiliza em situações de injustiças. A manutenção dele nessas situações implica em indiferença. E, como se sabe, a indiferença não é uma virtude política, muito menos moral. Mesmo frente a tais situações de injustiças graves, alguém pode alegar o seu direito de ser livre para fazer o que bem quiser. Corretíssimo! Porém, feito isso, não pode alegar que contribui para o processo civilizatório. Pôr a liberdade em ação em defesa da justiça é uma das mais elevadas categorias do agir livre, da autonomia, é a liberdade que corresponde à civilização, aquela que Immanuel Kant diz ser motor da razão e capaz de reconhecer em cada ser humano a sua humanidade, isto é, é ver e tomar cada pessoa como um fim em si mesmo.

Segundo, como muitos alegam e, em certo sentido, com razão, tanto o termo fascismo quanto o termo antifascismo (aqui, um adendo: recomendo a leitura do meu artigo "Fascismo e Barbárie", publicado na revista de letras da UFRRJ, bem como a leitura do verbete "antifascismo" do "Dicionário de Política", de Norberto Bobbio) vêm sendo utilizados de forma arbitrária e de acordo com interesses ideológicos.

Sim, essas duas argumentações liberais são fortes, mas não suficientes, pois elas parecem, sob certas medida e perspectiva, desprezar a realidade do mundo fenomênico político e ocultar tal realidade, instrumentalizando o olvido histórico. Pois bem, independentemente de vontades e ideologias, as verdades fatuais existem. A realidade fatual é o que é. Aceitemo-la ou não. Só os tiranos tentam modificá-la, distorcê-la ou destruí-la a bel-prazer. Quem vive em nichos com redomas ideológicas possivelmente irá enfrentar todas as questões sociais, políticas e sociológicas do mesmo modo, com os mesmos argumentos, para tentar justificar o injustificável, para satisfazer a simples vontade de não contradizer aquilo em que cegamente acredita. Nesta investida ideológica, sempre há um lado do “bem” e um lado do “mal”, por isso ambas ideologias, de direita e de esquerda, parecem antípodas complementares. Ambas se contradizem com frequência, inclusive naquilo que peremptoriamente defendem.

Há um ponto importante que criticamente preciso dar início e um certo aprofundamento: por que a humana conditio parece favorecer a crença e a fé em ideias, com vasto fervor, levando as pessoas a negarem ou a se recusarem a encarar a realidade fatual como ela é, justamente por ela ser, muitas vezes, dura e cruel e não atender aos anseios e desejos daqueles que a querem como querem, numa utopia astuta e traiçoeira? Por que a crença absoluta em partidos políticos, em entes religiosos e políticos sempre tende a se manifestar na prática social como perigosa e mesmo nefasta? Por que certos assuntos, pessoas, grupos, instituições e ideias querem o abrigo da redoma da intocabilidade, a fim de esquivarem-se da crítica? O que, a todo custo, tenta se desvencilhar da crítica deve ser tomado como suspeito e até mesmo como perigoso. Como Hannah Arendt bem sinalizou: "a persuasão e a violência podem destruir a verdade, mas não substituí-la".

Talvez, não seja preciso repetir a verdade fatual histórica de que os liberais tiveram a sua parcela de contribuição e culpa (não pequena) na ascensão do fascismo de Mussolini e na ascensão do nazismo de Hitler. Dizer isso não é querer afastar outras inúmeras causas ou, por exemplo, pôr em evidência uma única causa. Entretanto, esta verdade fatual precisa ser posta na mesa da crítica para que, se for possível, luzes sejam lançadas à compressão da investida fascista no Brasil atual. Pouco? Nem tanto! Essa parcela implica também dizer que, além da culpa por ineficácia e inércia política, há a culpa moral por apoio e legitimação. Muitos liberais italianos e alemães patrocinaram (tanto teoricamente quanto financeiramente) a escalada do horror fascista e nazista.

Acalmem-se, estimados liberais, sei dos horrores cometidos por Stálin & cia e irei tratá-los na segunda parte deste ensaio! Grandes empresários e industriais alemães (uns liberais, outros conservadores) doaram vasta quantia em dinheiro para financiar a campanha política e as empreitadas do NSDAP que, até 1933, era um partido medíocre, extremista e antissemita desde a sua origem pós-Primeira Guerra. Quando deram tal apoio a Hitler, não foram ingênuos quanto às bandeiras defendidas pelo NSDAP. Pouco? Muitos liberais fizeram coro, a partir dos anos 20, junto com os nazistas, contra os comunistas. Era tudo que Hitler sempre quis. Assim, sem rodeios, após chegar ao poder, não demorou para pôr o Partido Comunista Alemão na ilegalidade e, através da lei, logo depois, abolir os demais partidos. O sonho totalitário não seria possível sem essa boa ajuda.

O que boa parte dos liberais nunca quis encarar e, de algum modo, reconhecer, é o fato de que justamente foi no seio do Partido Comunista Alemão que surgiu o Antifa. O termo ANTIFA é tomado da palavra alemã Antifa, originalmente uma abreviação de Antifaschistische Aktion, uma ala do Partido Comunista da Alemanha, fundada em 1932. Todavia, o antifascismo não pode ser confundido com uma sigla ou meramente como movimento comunista. O termo não pode ser tomado como uma vertente comunista do combate ao fascismo. Os antifa surgiram na Itália. Compreendem a priori os cidadãos e as cidadãs (não necessariamente comunistas) que, desde o fim da década de 1910 e década de 1920, não compactuavam com a ideologia que surgia na Itália. A capacidade de discordar dessa ideologia mostra que, ainda que a maioria se estabelecesse cega, emotiva e acrítica, flertando com o horror que ia se instalando, havia pessoas dispostas a lutar, se preciso, para manter as suas vidas e as liberdades.

No Brasil, a ascensão do Bolsonarismo contou com esse mesmo slogan: anticomunismo (ou suas vertentes mais palpáveis para quem assim pensava: antipetismo, antiesquerda, antiLula). Não à toa, as diversas, complexas e heterogêneas manifestações (não só as de ruas, mas engendradas também em mídias e redes sociais) que, entre distintas bandeiras, clamavam contra a corrupção, foram encabeçadas por novos grupos políticos que se denominavam liberais (maior parte) e conservadores.

Parece que, se não fosse um mito, o éternel retour daria mostras da nossa falibilidade inconteste, da nossa falta de aprendizagem histórica. Em 2018, diversos meios jornalísticos noticiaram que "empresários que somam 32% do PIB nacional" apoiaram Bolsonaro. Em seu perfil no Facebook, aliás, Bolsonaro publicou (à época) uma foto com tais empresários e industriais. Semelhanças? Não sabiam tais empresários (liberais e conservadores) que Bolsonaro tinha um histórico político extremista? Que fazia declarações racistas e homofóbicas? Que era a favor da violência, da tortura, do totalitarismo? Fizeram coro contra "os comunistas". Pouco importara, para eles, se a democracia viesse estar sob ameaças. Os mais de 30.000 mortos por covid-19 dizem muito daquela fala de Bolsonaro em 1999. Irei reproduzi-la na íntegra para rememorar aos liberais o fato:

"Através do voto você não vai mudar nada nesse país, nada, absolutamente nada! Só vai mudar, infelizmente, se um dia nós partirmos para uma guerra civil aqui dentro, e fazendo o trabalho que o regime militar não fez: matando uns 30 mil, começando com o FHC, não deixar para fora não, matando! Se vai morrer alguns inocentes, tudo bem, tudo quanto é guerra morre inocente”

Em 20 de fevereiro de 1933, Hitler encontrou-se, à socapa, com os 24 maiores industriais alemães que, comprando o discurso anticomunista e antissemita, fizeram doações vultosas ao partido nazista, além de apoio irrestrito a Hitler. Muitos, a seguir, filiaram-se ao NSDAP e alguns deles nunca se arrependeram disso. Continuam milionários e, claro, liberais como nunca! Que tipo de liberdade defenderam ou defendem? Vocês poderão aprofundar este detalhe lendo, entre várias obras, "L'ordre du jour", de Éric Vuillard.

O antifascismo não se confunde e não se deve confundir com um elogio ao comunismo. Antifascista refere-se, lato sensu, a toda e qualquer manifestação de repúdio à política fascista, seja tal manifestação individual ou grupal, organizada ou não. Outro fator importante é que não se deve jamais confundir antifascismo com violência ou apoio à violência. Também é preciso salientar que o antifascismo não é um movimento pacifista a priori. Pois, em dadas circunstâncias, a violência foi o meio necessário e, talvez único, capaz de evitar, afastar ou coibir a violência letal fascista. O fascismo, sim, é um movimento a priori violento, pois cultua a violência e o homem violento.

Portanto, a justificativa ética de que não se apoia o antifascismo por causa da "violência" é um argumento retórico insustentável tanto do ponto de vista ético quanto político. Tal argumento é uma falácia, pois tenta transformar a indiferença em virtude política. Ser indiferente ao antifascismo é dar legitimidade à violência real fascista. Adotar racionalmente a posição antifascista é compreender que a ação política antifascista abomina as violências fascistas e tudo que delas decorre. Aquele que pode gritar contra injustiças (ainda que sozinho!) contribui mais para o processo civilizatório e para a manutenção da democracia e das liberdades do que aqueles que se escondem e tentam se proteger atrás da indiferença, sustentada por argumentações sub-reptícias, sem se pronunciarem contra o horror abertamente na esfera pública das ideias e das ações, por questões e interesses ideológicos, por covardia e desumanidade.


II - O LULISMO


Existem as esquerdas, o PT e o Lulismo. Todavia, há muito tempo, o PT vem se confundindo com a imagem e a personalidade (não só política) de Lula, o que, com a legitimidade de boa parte da esquerda, convencionou-se criticamente denominar "lulismo". O lulismo, bem como todas as ideologias populistas e que, de algum modo, flertam com algum líder carismático e com ideias de permanência no poder, autoritárias ou totalitárias, assume ontologicamente a perspectiva de uma religião política.

Ao dizer "eu não sou um ser humano, sou uma ideia", Lula não só atestou a sua pretensão de indestrutibilidade mas também evidenciou ter consciência de que é adorado por um séquito de militantes e partidários. Lula, assim, lançava na esfera pública das ideias e das ações a sua vontade de poder, de permanência, de influência e, claro, de vingar acima do bem e do mal e de toda a crítica. Pois como não é possível destruir uma ideia (ainda que ela seja boa ou funesta), Lula, o não-corrupto (aos olhos dos militantes e partidários) e o corrupto (de acordo com as 3 instâncias judiciárias) exemplifica o não querer mesmo pouco. A sua Wille zur Macht não se resume a ser visto ou tido como um estadista populista, com clamor de mártir.

Lula é um articulista, um dos maiores do século XXI. Ele transformou o partidarismo pró-PT em um partidarismo supraesquerda, isto é, o lulismo passou a vingar como a religião política entre as esquerdas. Lula é posto como divindade intocável. Quem se sujeita a criticá-lo pode ser acusado de diversas coisas, como, por exemplo, de ser de direita, reacionário e até mesmo de fascista.

Em tempos bolsonaristas, em que as esquerdas encontram-se fragmentadas e, de certo modo, fragilizadas, uma crítica a Lula e ao lulismo é tida como a gota d'água da tolerância social, como se Lula fosse o grande salvador da pátria ameaçado e injustiçado, perseguido, como se somente ele fosse capaz de livrar-nos do horror que nos acomete agora e que já dura mais de 500 anos. Quem assim age e ataca a crítica, quer um mundo homogêneo e de pensamento único. A não aceitabilidade da crítica apresenta-se como uma cegueira política porque, incapaz de fazer reflexões reflexivas sérias acerca dos erros do PT e de Lula, tais agentes políticos posicionam-se como o modelo irretocável de ações e práticas políticas.

Como todo populista, Lula também traz em si o uso pragmático da indiferença. Recentemente, em entrevista, Lula disse que

"ainda bem que a natureza, contra a vontade da humanidade, criou esse monstro chamado coronavírus porque esse monstro está permitindo que os cegos enxerguem, que os cegos comecem a enxergar que apenas o Estado é capaz de dar solução a determinadas crises".

A indiferença às tantas mortes e aos familiares das vítimas soou desumano e covarde. As pressões foram muitas, e ele se desculpou. Foi sincero? Tentaram, por causa disso, igualá-lo a Bolsonaro, o que foi também lamentável. Bolsonaro não é o antípoda complementar de Lula. De imediato, a preocupação sobre tal dito foi ética e moral, isto é, Lula não se preocupara com as vítimas. Mas ela evidenciava um traço da personalidade lulista: a crença inafastável de que só o Estado é capaz de dar soluções a certas crises. O desprezo e a indiferença a indivíduos e grupos relampejaram ali, de alguma maneira. E mais: a sua Wille zur Macht. Uma vontade estatal.

Em 2003, Lula e o diretório do PT expulsaram quatro partidários petistas influentes, considerados por eles como um "quarteto radical", acusados de desobediência a orientações partidárias e de criticar ostensivamente o governo federal. Entre os expulsos, estava a então senadora Heloísa Helena. Ora, então, como visto, o PT não admitia críticas! Nem mesmo internas! Lula não comparecera à votação. Sua palavra no PT tem força de lei. Ainda que nos bastidores. Ainda que por outras vias. Mesmo quando se encontrava preso, em Curitiba, ditou as regras do jogo petista na eleição de 2018. Ou não foram as ordens lulistas que, de algum modo, retardaram e, talvez, tenham até contribuído para a derrota de Haddad? A indignação de Heloísa Helena, à época, tem reflexos até o momento atual: "hoje me expulsa enquanto acarinha delinquentes da política brasileira". Daí, surgirá o PSOL. Eduardo Suplicy estava com a razão quando, naquela crise petista, defendeu Heloísa.

Em 1992, o PT já havia expulsado quem tecia críticas à sua atuação partidária. Tal expulsão terminou por gerar o PSTU. As críticas feitas por Marta Suplicy, em 2015, também não agradaram a lulistas/petistas. E ela foi logo vista como reacionária, inimiga e traidora do petismo/lulismo. Naquele ano, Marta vaticinou: "ou o PT muda ou acaba". A partir daí, quase acabou. Se não estruturalmente, mas moralmente. Escândalos e mais escândalos encontraram abrigo no cerne e na cúpula petistas. Justamente, pasmem, entre aqueles que clamaram contra Heloísa e Marta! Com os escândalos envolvendo Lula, processos em 3 instâncias e prisão, por que o PT nunca afastou Lula do seu quadro? Por que, inclusive, ainda fez, também, defesa aberta de outros petistas presos? Qual peso moral é maior: a crítica ao PT ou crimes cometidos? O PT nunca respondeu bem a esse questionamento, e os expulsos sempre foram muito mais mal vistos. Se essa reflexão ética não foi possível aos petistas, foi porque o lulismo é uma religião política. E as divindades, ainda que humanamente falíveis, continuam sendo divindades.

Lula livre. Defendi a sua liberdade. Penso que o processo estava politicamente maculado. Hoje, sabemos melhor disso ante as crises institucionais e políticas. Defender um novo processo não é o mesmo que constatar a inocência inconteste. Todo ser humano merece um processo digno, juridicamente impessoal e justo, sem estar maculado por quaisquer tipos de interesses subjetivos. O que se viu durante todo o processo de Lula foi um espetáculo midiático e jurídico, desde a tentativa de Dilma tornar Lula um ministro. Alguns juízes e desembargadores digladiavam, uns contra outros, por paixões partidárias. A justiça foi deixada de lado ante o fervor lulista e antilulista. De sentenças velozes a sentenças copiadas, de embates jurídicos (até de magistrados!) em redes sociais, tudo isso, para mim, muito me pareceu maculado politicamente.

O lulismo pensa ser ainda a solução de tudo para o Brasil. O antipetismo e o antilulismo são fortes ainda. Não percebo, no momento, como seria possível enfrentar democraticamente o bolsonarismo lato sensu sem uma frente ampla de coligações partidárias. E esta frente não deve a priori ter a supremacia de um partido sobre os demais. Isto parece ser um sonho impossível aos olhos de vasta parte de petistas/lulistas. Porque o PT não quer mesmo ceder espaço político. Quer, de algum modo, ser o condutor daquela vitória do "bem" contra o "mal", porque isso, historicamente, implicaria a sua reabilitação moral. Incapaz de reconhecer os tropeços políticos, põe-se como o partido-guia para a catarse e a redenção. Em 1° de junho, Lula criticou os manifestos suprapartidários e disse que não tinha mais idade para ser "maria vai com as outras". As divindades apenas almejam que as outras, os outros, as marias e tudo o mais façam um grande séquito obediente e sigam-nas. Isso não é novo. Em 15 de novembro de 2019, Lula afirmou que o "PT não nasceu para ser partido de apoio". Como disse Virgílio: "sed fugit interea, fugit irreparabile tempus!"


Adriano Nunes


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