MÁRIO BALANCINHO

Djalma Carvalho

Na introdução do livro As Cem Melhores Crônicas Brasileiras (Editora Objetiva, 1ª edição, p. 15, 2007, Rio de Janeiro), o jornalista, escritor e organizador da antologia Joaquim Ferreira dos Santos disse: “A crônica brasileira tem uma cara própria, leve, bem-humorada, amorosa, com o pé na rua.”
Com esse “pé na rua”, certamente o especialista em crônica quis referir-se a fato do cotidiano, a episódio passageiro, a recortes do tempo, costumes sociais, matéria-prima com que trabalha, afinal, o cronista. Acrescente-se que o cronista é também memorialista, apegado a reminiscências, a relembranças.
Pois bem. Houve tempo em que o Banco do Brasil localizava os novos funcionários, aprovados em concurso público, em agência espalhadas pelo Brasil afora. Política salutar que fazia com que esses novos servidores conhecessem culturas, costumes e economias diferentes das de suas localidades de origem. Poderiam, desse modo, assimilar novos conhecimentos e experiências, deixando-os aptos para o exercício de funções de maior relevo no Banco, especialmente as de comando de agências em qualquer quadrante do território nacional, ou mesmo no exterior.
Bem assim eram direcionados, com os mesmos propósitos, os participantes de cursos intensivos promovidos pelo Departamento de Formação e Seleção do Pessoal do Banco. De repente estavam eles reunidos com funcionários procedentes de diversos estados da Federação, com sotaque e costumes diversos, trocando idéias em salas de aula.
Acontecia também com o pessoal de portaria, nomeado sem participar de certames públicos. Apenas submetido a provas internas, uma vez recrutado em suas comunidades ou indicado por influentes personalidades da vida política nacional.
A agência do BB em Santana do Ipanema foi inaugurada em 08/02/1953. Após aprovado em concurso, tomei posse nessa agência em 1961, onde exerci cargos em comissão, incluindo o de subgerente. No ano de 1975, fui transferido para Maceió para exercer novo cargo comissionado. Em 1990, retornei à minha agência de origem para exercer o cargo de gerente-geral, onde me aposentei em 1991.
Convivi, pois, por mais de 30 anos com essas criaturas de vários lugares do Brasil. Uma vez integradas aos serviços de rotina do Banco, faziam dos colegas de trabalho grandes amigos, de estreita amizade, formando, por fim, uma grande família. Em forma de sadias brincadeiras, de gracejos, daí iam naturalmente surgindo apelidos engraçados e criativos, que não se referiam a defeitos físicos, à honra, à família, a conceito pessoal, a valores individuais, etc. Apelidos que não interferiam na disciplina nem na execução de tarefas diárias. Sem maldade, de nenhum modo o apelido incomodava o colega. A divertida brincadeira estendia-se ao âmbito da AABB, por ocasião de noitadas de homéricas farras ou de alegres fins de semana.
Em meados da década de 1960, por aí, tomou posse na agência de Santana do Ipanema, procedente da cidade de Parnaíba, Piauí, o contínuo Mário, jovem muito educado, trabalhador, de cor morena, cabelos curtos, bigode, boa altura e feições de mexicano ou de boliviano. Ao conversar com colegas e chefes, em pé, punha as mãos para trás e, ritmado, balançava-se à maneira de pêndulo de relógio. Pessoa boníssima.
Pronto. Acabou recebendo o apelido de “Mário Balancinho”.
Depois de retornar, finalmente, a sua cidade natal, transferido anos mais tarde, nunca mais tivemos notícia dele. Deve estar, hoje, gozando a boa vida de aposentado, ao lado da família.

Maceió, novembro de 2018.

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