Não se deve comemorar a ditadura!
Por que a extrema direita insiste em comemorar o 31 de março como uma data que se comemoraria, numa tese sub-reptícia, a luta do Estado contra uma hipotética ameaça comunista? Por que insiste em distorcer uma verdade fatual para satisfazer uma "der Wille zur Macht" (vontade de poder)? Por que precisa tanto, como uma questão de honra, adotar o dito nitzscheano, relativista e perigoso, que diz que "nein, gerade Tatsachen gibt es nicht, nur Interpretationen" (não, não há fatos, apenas interpretações)? Por que insiste em comemorar o ataque estatal às liberdades, aos direitos fundamentais, à democracia, como se os fatos estivessem distorcidos, como se pudesse, agora, reescrever uma nova História? Por que faz-se questão de comemorar escancaradamente a tortura, o assassinato, a repressão, a censura? O que faz com que as pessoas percam a noção de realidade, a vergonha, os receios morais e éticos, para defender abertamente racismos, preconceitos, violências e horrores?
Quando se comemora a ditadura, de algum modo, parece que as verdades fatuais pouco ou nada importam porque essas podem não corresponder àquilo esperado ou almejado por quem vê no horror um motivo justo e legítimo de celebração. Comemorar algo torpe como ditaduras é uma forma de recusar a humanidade de e em cada pessoa!
Hannah Arendt já havia alertado para esse tipo de distorção de verdades fatuais e até mesmo da sua destruição, típicas ações de Estados totalitários e tirânicos. Quando as verdades dos fatos não importam mais, realidade, História e ciência parecem perder legitimidade, credibilidade e confiança técnica. Cada um crê no que quer crer. O Estado vira uma miríade de crenças. Neste sentido, apenas a ideologia que controla o poder estatal parece ditar o que é verdade ou mentira. Quando isto acontece, estamos indo para o precipício do obscurantismo e das tiranias.
Somente tiranos têm interesse em desacreditar a História, as ciências e as verdades fatuais. Em seu livro "Entre o passado e o futuro", Hannah Arendt diz que "vista do ponto de vista da política, a verdade tem um caráter despótico. Ela é, portanto, odiada por tiranos, que temem com razão a competição de uma força coercitiva que não podem monopolizar, e desfruta de um estado um tanto precário aos olhos de governos que se assentam sobre o consentimento e abominam a coerção." Sim, os déspotas têm ódio às verdades porque as verdades têm relação íntima com a realidade e com a ciência. Como não toleram tais verdades, os que aplaudem e comemoram a ditadura procuram, de alguma maneira, substituir as verdades por crenças, principalmente as religiosas e as políticas (justamente as que sempre se esquivam da crítica!), pois pensam ser possível conduzir um séquito de ingênuos e ignorantes ao paraíso ou a um Estado redentor. Um paraíso forjado em ideias e quimeras sub-reptícias e perigosas.
Sim, os déspotas se apresentam costumeiramente como possíveis salvadores da pátria. É Hannah quem nos alerta ainda sobre o que pode acontecer tragicamente com as verdades fatuais, ao afirmar que "as possibilidades de que a verdade fatual sobreviva ao assédio do poder são de fato por demais escassas; aquela está sempre sob o perigo de ser ardilosamente eliminada do mundo, não por um período apenas mas, potencialmente, para sempre." A imposição de crenças e ideologias nefastas anda de mãos dadas com diversos tipos de horrores.
Verdades fatuais não se confundem com opiniões. Precisamos estar atentos! Quando se comemora abertamente a ditadura, está-se tentando firmar um tipo de verdade cruel que não precisa mais manifestar-se e agir à socapa, para ter efetividade social, está-se tentando impor hipocritamente aquela protoverdade que nos diz descaradamente que a banalidade da perseguição, da tortura e da morte pode ser não só aplaudida, comemorada, mas tida como exemplo moral, como pretensão de verdade a ser firmada na esfera social, à custa arbitrária de uma massa de tolos, ignorantes e cegos.
Adriano Nunes
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