Blogs: O silêncio das horas

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Por João Neto Félix Mendes - www.apensocomgrifo.com

Na pequena cidade de Santa Ana, não era o relógio de pulso nem os despertadores que regiam o dia: era o sino do relógio da torre da igreja, alto e pontual, que dobrava as horas como quem conta histórias ao vento.
Às seis, ele chamava os padeiros. Às oito, acordava os estudantes. Às doze, lembrava aos fazendeiros que era hora da marmita. E, às dezoito, seu som profundo avisava que o dia podia sossegar. Era um compasso invisível, como um maestro de bronze que regia o tempo com seu timbre atemporal. Mas numa manhã de céu emburrado, o sino não tocou.

Sino do Relógio
Primeiro, pensaram ser atraso. Depois, falha técnica. Mas o silêncio perdurou. E com ele, as rotinas começaram a se embaralhar. O padeiro assou os pães tarde demais, os alunos chegaram à escola com olheiras e confusão, e até o tempo pareceu andar em círculos, meio perdido sem seu guia.

Com os dias, a cidade pareceu murchar. O mercado abriu sem vontade. A missa das sete teve bancos vazios. E Dona Maria, que sempre sabia a hora só de ouvir o sino, passou a olhar o céu como quem procura uma resposta.

Dizem que o sacristão subiu à torre e encontrou tudo como sempre; o sino, ali, inteiro, sereno. Apenas calado.

Desde então, Santa Ana vive entre a pausa e a esperança. Os moradores baixam os olhos ao passar pela igreja, como quem espera que, a qualquer momento, aquele som antigo volte a rasgar o ar. Até lá, vivem na espera, como quem prende o fôlego antes da próxima nota porque sabem, no fundo, que o sino não marcava só o tempo. Ele marcava a vida. Entretanto, o tempo foi passando e a cidade foi ignorando e se acostumando com o silêncio das horas.

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