Literatura: RÉQUIEM DE TRISTÍSSIMOS BEMÓIS

Cultura

Por Carlos Méro

como um réquiem profundo
de tristíssimos bemóis...

DOS ANJOS, Augusto: Barcarola


Deu-se que chegou o dia em que Neilda recolheu seu sorriso, arrumou as trouxas impregnadas de versos brancos e rimados, botou no saco a viola que afinava na garganta de cantadora de risos e de prantos líricos, pegou o rumo e foi esconder-se em alguma estrela. Na certa que não foi porque quis, mas porque não teve como não ir. Mas é mais do que sem dúvida de que se apressou e foi cedo demais.

Enquanto isso, cá ficamos nós, não sei se chorando por ela ou pelo mais certo por nós mesmos. Afinal de contas, somos nós que teremos de amargar essa sua ausência que nos deixa ocos por dentro.

Além do mais, agora montada na fulguração do astro em que foi morar, já não a maltratam os alvoroços desse mundo sem porteiras. Na verdade, libertou-se. Mesmo que talvez ainda nem se dê conta disso. Mas o fato é que, afinal exilada dos olhares nem sempre hipócritas mas nem sempre leais, nem sempre infestados de ódio mas nem sempre fervilhantes de amor, pode declamar os poemas que quiser, de quem quer que sejam, na hora em que bem entender, com a entoação e o com o gestual que achar melhor. Acabaram-se os freios, Neilda. Ruíram as barreiras.

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