O BEIJA-FLOR E OS FIOS DA DISCÓRDIA

Crônicas

Alberto Rostand Lanverly Presidente da Academia Alagoana de Letras

Recentemente, ao chegar à Fazenda MuSilva, às margens do Rio São Francisco e com vista para as dunas do Peba, encontrei a paisagem vestida de beleza: os coqueirais ofereciam suas palhas ao sopro do Atlântico, como se o vento as acariciasse.

Depois da visita de praxe, acomodei-me na varanda da casa onde residem Damião e Dona Ana, funcionários que administram a propriedade. Tratamos dos assuntos necessários e, então, apontando para um beija-flor que rondava o ambiente, contou-me que, dias antes, encontrara aquele pequeno pássaro preso nos fios de uma teia de aranha. O corpo minúsculo se debatia, mas não conseguia escapar.

Damião trouxe uma escada e, com todo o cuidado, libertou-o com as mãos. Retirou um a um os fios que o prendiam. Ainda assim, o beija-flor estava fraco demais para voar. Com um conta-gotas, ofereceu-lhe água no bico e o deitou sobre a mesa, até que recuperasse vigor, conseguindo alçar voo.

Mas o beija-flor não foi embora de vez. Voltava, como se retornasse para agradecer o cuidado recebido. Talvez não soubesse dizer obrigado; fazia isso à sua maneira, com o breve bater das asas e a presença delicada de quem reconhece uma mão estendida.

Enquanto o ouvia, pensei nos dias do último pleito eleitoral brasileiro. De todos os quadrantes do país, homens e mulheres de tantas cores e crenças foram às urnas levando consigo esperanças, convicções e escolhas. Mas, em muitos lugares, a diferença de opinião deixou de ser diálogo e virou insulto, ameaça e agressão. Como se a palavra do outro fosse uma teia a ser rompida pela força.

A democracia, que deveria abrigar vozes diversas, teve suas asas feridas pela intolerância. E, no calor das disputas, muitos se esqueceram de que o voto termina, mas a convivência permanece; de que nenhum resultado deveria apagar o vínculo entre pessoas que compartilham a mesma terra.

Talvez cada um de nós também se deixe prender, por vezes, nos fios da raiva e da certeza absoluta. Para escapar deles, não é preciso vencer o outro: é preciso recuperar a escuta, oferecer respeito e permitir que a razão volte a voar.

Damião salvou o beija-flor com mãos zelosas. Que nós saibamos cuidar, com palavras e gestos, da democracia que nos pertence a todos. Sobre a mesa ficou o conta-gotas; no céu, o pássaro. E entre ambos, a lembrança de que até uma vida ferida pode recuperar o voo quando encontra cuidado.

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