ATO DE COMÉRCIO

Crônicas

Marcello Ricardo Almeida

As rimas no poema menos ajudavam e mais atrapalhavam.
Viu aquele imóvel fechado?
Era uma padaria – e vendia sonhos baratos.
Depois foi uma verdureira, que cedeu a uma locadora; fechada, passou a vender pregos.
Voltou a ser uma farmácia, com um neon que iluminava toda a calçada.
Foi uma lotérica, uma tabacaria, uma banca de jornais, uma loja de ferragens...
Uma danceteria que não permitia sossego na rua.
Um bar com mesas e cadeiras na porta.
Uma lanchonete verde que exalava o cheiro acre de óleo saturado.
Um cinema de bairro, que só exibia os clássicos.
Uma sapataria, cujas paredes combatiam rimas com graxa.
Um consultório com uma placa gigante sobre as vantagens do clareamento dental.
Uma casa de apostas, bem barulhenta e cheia de vento como um pastel,
Uma imobiliária que distribuía panfletos aos passantes,
Uma barbearia com uma porta giratória e, dentro, ar-condicionado.
Ficou sem ninguém para alugar desde outubro do ano passado. 

Reabriu:
Foi salão de beleza,
salão de festas infantis,
minimercado,
agência de passagens,
igreja,
Loja Tudo Dez,
Tudo Cinco,
Tudo Três,
Tudo Dois...

Na rua onde morava, a poesia disse que não se engessaria em métrica nunca mais.

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