Estou na Serra da Capivara sob a lente da tarde.
No banco não cabia apenas a brisa,
Que, a essa hora do dia nessa mata,
Transmutava as mudanças climáticas.
“As cores ao seu redor eram camas elásticas”, dizia Anáfora.
Havia um metálico silêncio de cemitério
Que, ultimamente, preenchia a vaga
Entre as ondas que anunciavam a morte do dia.
“As cores ao seu redor tinham cheiro de plástico”, repetia Anáfora.
Esse banco foi feito com retalhos,
Pedaços deixados nas calçadas,
Nas ruas em longos dias de sábado.
“As cores ao seu redor guardavam o mormaço”, mostrava Anáfora.
Vi as folhas desenharem esse banco de madeira
Com seus dedos delgados,
E abraçarem-no como se abraçassem um sapo.
“As cores ao seu redor exalavam um odor ácido”, sentia Anáfora.
As latas de tinta, em rápido bate-papo – “Coaxo!”, fazia o sapo –
Coloriram o dia, não com as cores primárias,
Mas com todas as cores rupestres represadas em áridos riachos.
Peguei a mão de Anáfora.
Enquanto íamos explorando os paredões da serra,
Vi no verde do olhar dela:
– Não desejo móveis,
– Não desejo casas,
– Não desejo verbos e nenhuma classe de palavras,
– Apenas seu abraço.
O BANCO
PoesiasMarcello Ricardo Almeida 25/10/2026 - 11h 39min
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