DONA NORMA-PADRÃO

Crônicas

Marcello Ricardo Almeida

Catafórica, de exímia beleza, tomava sol na Rua do Sol.
Na rede, a Crônica passava o olho nas folhas do jornal. Via que o mundo nunca perdia a gordura. Passou a Norma.
Profe Norma! Professora Norma!
Norma não, parou o passo e logo a corrigiu, Dona Norma-Padrão. Faça-me o favor! E você, o que faz aqui, Crônica, que não deixa nunca essa rede?
Soube? Que fez aquela mãe, na semana passada! Simplesmente, Dona, ela correu e trancou-se com a filha na sala. Lá fora, todos lhe pediram clemência. Entretanto, a professora Clemência não saía da cozinha; não quis sacrificar seu café, né. Compreensível, né. Soube, né.
A Dona Norma-Padrão não deu um passo para dentro da conversa.
A escola desmontou a sala, papelão por papelão, cepilho por cepilho, pra evitar um mal maior. Não soube disso? E pelo barulho que vinha da sala trancada por dentro e sem acesso por fora, moviam-se as placas tectônicas formando um novo continente.
Como a gordura no fígado foca no cotidiano com linguagem tão simples e passageira. Aprende-se e apreende-se com Efêmero que qualquer vida é curta, por mais longa que demonstre ser ao ser.
Subjetivo, com seu olhar arguto, espiava o outro lado da rua. Era como se estivesse interessado na conversa que vinha da parte de lá.
No outro lado da rua, Enfim conversava com Afinal, que ouvia o assunto de Por Fim durante seu bate-papo com Finalmente, que não largava a mão de Em Suma. Todos riam. Festejavam a maior vitória do mês, a grande vitória deste ano, a vitória da década.
– Vitória do século! disse Vitória à mesa com Do, Did e outros da turma.
– Tome assento! sugeriu Tão Só.
– Show, don't tell, teacher! disse Boquirroto, que puxava por uma cordinha um vira-lata.
– Ele perdeu o afeto, completamente, pela humanidade!
– Que houve com esse nosso prestimoso amigo Boquirroto? comentavam seus amigos Falastrão, Indiscreta, Boca-Roto e Fofoqueira, moradores no andar de Cordélia e seu pai, Lear.
Subjetivo expressava sua opinião ao Fato.
Adiante, Do só conversava com o Presente, Did vivia com o Passado. Will não tirava um pé do futuro. Would, na porta do bar, decidiria se iria rir ou não.
– O condomínio custava a cada mês um órgão, – ouviu Subjetivo –, uma parte do corpo, enquanto o mato crescia na calçada.
Fofoqueira não saía mais do apê. Soube, Dona Norma-Padrão? Trocou a vida social por um gato.
– Enterraram o afeto de vez!
– Substantivo foi sequestrado por Definição?
Tautologia passou desejando boa tarde. Crônica não lhe respondeu. Dona Norma-Padrão confessou à Crônica não compreender por que Ninguém não era mais afetado com saudade de Ítaca.
– É o fim do contato humano, Dona Norma-Padrão? disse. Preferia contar seus segredos inconfessáveis a um peixinho de aquário? Passou a ser seu xodó, Dona, no dizer da vizinha Catafórica.
Quando ela entrou na conversa, Dona Norma-Padrão calou-se. Contudo, Crônica insistiu. Dona Norma-Padrão não admitia a referência banal à Catafórica por palavra nenhuma.

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