ESPELHO DE CLASSE

Crônicas

Marcello Ricardo Almeida

“Essa classe era a luta diária” – mergulhava Semântica antes de outro dia de trabalho.
– Qual era?
– Quel era o quê, Semântica?
– O papel da Crônica nessa classe.
A porta abriu-se. Tabuada e Caligrafia chegaram de mãos dadas. A turma arredia. Nem Tabuada era bem-vinda, tampouco o Caderno de Caligrafia.
Semântica via seu reflexo no espelho de classe, que mudava a cada dia. O sol de mesa em mesa, de cadeira a cadeira, de rosto a rosto, de gesto a gesto, e jeitos desatentos à Semântica.
As Frases conversavam, alheias à classe. Sentido Figurado, com as mãos cheias de tazos, jogava bafo-bafo apostando. Sentido Literal cochilava, cansado da noite em claro jogando conversa fora.
A Sintaxe havia alertado por demais a Semântica. Esta sabia que aquela tentava, muitas vezes em vão, organizar as Palavras. Mesmo que a classe a reconhecesse como regra, ordem e função. Ela jurou organizar termos, a Frase a impediu.
– Mantenho em rédea curta Sujeito, Verbo e Objeto! declarou Sintaxe ao encontrar-se com Semântica fora da classe.
Na classe, Pragmática ria. Estourava em gargalhadas.
– Polissemia, não sabia onde sentar-se?
Ela mudava de mesa e cadeira a toda hora.
– Desça dessa mesa, Sinonímia! explodiu.
Sinonímia obedeceu.
– Pare de se balançar na cadeira, Sinonímia! disse Semântica, que agora se aproximava de Sinonímia. Quer cair e machucar-se, chorar e inundar a classe de lágrimas, gritos, lamentos, acusações e palavrões?
Antonímia era do lado contrário. Fã dos opostos: era noite durante o dia e dia durante a noite.
Uns corriam, outros gritavam. A classe noutro conflito? Mas isso era diário.
– Quê, quê, quê... Homonímia quer enganar quem? perguntou Semântica. Com o mesmo som, com a mesma grafia, mas o significado sempre diferente.
O arrastar de mesas e cadeiras, o cair de lápis, caderno, livro, borracha.
– Saia daí, Ambiguidade! disse Semântica. Mas Ambiguidade não largava o duplo sentido, sempre pendurada na dubiedade.
Sentido contava piada ao Significado. Autoajuda transformando a classe em sonoras gargalhadas.
Homonímia mudava de lugar a bel-prazer. Antonímia consultava o celular a cada segundo.
– Seu lugar não é aí, Homonímia.
Ela não se importava.
Sincrônica desenhava, Diacrônica sugeria.
– Voltasse ao seu lugar, Homonímia.
Polissemia lia tirinhas. Sinonímia fazia palavras cruzadas.
Semântica andava. Sentava-se, levantava-se. Voltava a andar:
“Digo Jaguadarte ou Jabberwocky?”
Semântica geria. E via através da janela o horizonte, que cochilava. Faça, faça! Semântica não parava de repetir:
– Não havia solução que por hora interrompesse tão acesa bateria? disse, quase sem voz.
A dinâmica da dança das cadeiras agredia o chão com ranhuras. O ruído dos trovões tomava proporções que extrapolavam o rito e os limites da classe.
Semântica perdeu a voz? Ela voltou. A paixão de antigas eras já lhe dava sinais de cansaço. O sorriso perdeu-se no rosto contorcido, quando murmurou:

Na viluz classe, Semântica craquelavoz
Frenéticas Ensinências e Aprendências
Bradivivam comáximax da escoelástica
Na quebrada destranho mundo de Oz.

Cuide, Contumaz, em Ensinências d+!
Alertava o sismógrafo na perfídia atroz
Traída pela gritabalbúrdia. Acaba hora.
Abracadabra. O teto cedia socobrilhos.

Ela tomou na mão seu canetão Farfal.
O canetão em riste lembrava Lepanto.
O sumério Sujeito verborragia o tempo
Com olhos, gestos e jeito dissonantes.

Ali, Semântica já entregava os pontos.
Resistia arfantesmal. Já clamandoava
Próxima ao Rubicão, quase aos prantos,
Abria o tempero do tempo, que gotejava.

Por não correr? Classe pode anoitever.
Nem rito nem limite. Só canto, algazarras.
Por ser método. Por que tantos porquês?
Sábia Semântica não sabia o que fazer.

Na luta do vai e volta, heroica Semântica
Consultandava entre os vales e sombras.
Perdia a maçaranduba do tempo aos gritos.
Insalubre caixa fabril. Febris argumentos.

Semântica sufocando-se nesse seu mundo,
Enfrentou dentes, palavrões de ferasgarras.
Cai, não cai. Forças findas. Urros gigantes.
E ela viu fraquejar suas amarras nesse cais.

Semântica deixou a classe. Enquanto gritava, puxava o cabelo. Pulava, enquanto o cabelo puxava. Gritava. Cabia à classe talvez este haicai:

Velho poço d’água
Mergulha um balde vazio
Enche a lembrança.

Na classe, o espelho era d’água; portanto, o espelho de classe era líquido. A comunicação nem sempre interpretava o contexto. A classe mudava de acordo com a variação da temperatura.
Mal-Entendido pediu a palavra. Semântica negou. Ambiguidade protestou com Veemência. O espelho de classe dissolveu-se. E a Crônica fez seu papel.

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