SOB O GUARDA-CHUVA DO DOMÍNIO DE SALA

Crônicas

Marcello Ricardo Almeida

A semana é um horizonte de incertezas. Os eventos climáticos derretem geleiras. Esses comportamentos sem limite e sem nenhum rito, ela intuiu, usarei em temas transversais. Está chovendo bolinhas de gelo. Elas caem como água do chuveiro? São nuvens pondo ovos. Acumulando pedras, pedras enormes do céu. Recomeça a pipoqueira de granizo metralhando os telhados, os carros, os transeuntes atingidos pelas bolinhas de água em estado sólido.

Chega à aula a Sintaxe; fecha a sombrinha, ergue sobrancelhas no aquecimento da desatenta sala. E ainda é segunda-feira.

Alguém me fale o que a turma pretende com essa temperatura. Portas e janelas fechadas nesse efeito estufa. Causas naturais não intimidam essa turma e com nada se espanta. Isso só provoca eventos extremos.

Sintaxe deparou-se com os porquês. Por que falava alto? Porque mais alto ainda. Gritava Por quê? Um Porquê tinha o comportamento de torcedor na hora do gol. 

Porventura dormia. Fez dos braços secos travesseiro e a cabeça tombou sobre ele. Pela boca aberta lhe escorria uma baba transparente e tranquila que modificava suas anotações em caneta esferográfica de tinta azul nas folhas do amarrotado caderno. Porventura não sabia escrever em letra cursiva. Porventura precisava de um caderno de caligrafia. Ninguém entendia a letra de Porventura.

– Sintaxe, toda noite Porventura jogava no celular; ele raramente dormia.
– Ouvi falar! disse Sintaxe. Deixasse Porventura dormir.

Ensinências num jogo de dama com Aprendências. Ouviam-se gritos na vitória e palavrões na derrota. Ninguém parecia importar-se com atitudes assim de pouca monta.

Sintaxe olhou através da janela o céu plúmbeo, como se dizia na cadeira de Latim durante a faculdade. Trovões ameaçadores. Relâmpagos anunciavam a visita inesperada do acrônimo óvni na sala de aula pra interromper de vez a indiferença. No entanto, óvni era tão só um substantivo a mais entre tantos, uma paroxítona governada pelo acento agudo.

Ali estava ele. Ali – um advérbio de lugar por demais abusado. Durante as aulas, ele dava ênfase à posição. Adiante, o Verbo Haver cheio de pompa, pois costumava apresentar-se no sentido de acontecer ou existir como impessoal.

Ele era assim também em casa, respondeu sua mãe ao bilhete da semana passada, dava risadas que estremeciam a estrutura do prédio, deixava a gente surda, era de enlouquecer, um tipo João Urso.

Assim, a aula não acontecia! reclamava Sintaxe; em vão, pedia silêncio. Aponia falava pelos cotovelos. Ataraxia matraqueava durante toda a aula.

A dinâmica das mesas não obedecia a dança das cadeiras. Adversativas perturbavam a mais não poder. Mas discutia com Porém, que envolvia Contudo e ameaçava bater em Todavia. Entretanto e Nãobstante trocavam insultos com Noentanto.
As vírgulas, no fundão da sala, berravam:

– Dá licença, pessoal! As adversativas precedem a Vírgula.
Uma das adversativas protestou:
– Exceto Mas!
Sintaxe procurava uma brecha pra iniciar a aula:
– Sujeito?
Sujeito calado.
– Predicado?
Na balbúrdia, a voz de Sintaxe se perdia.
– Objeto Direto?
Nada.
– Preposição veio hoje?
A sala em festa.
– Objeto Indireto?
Porque quando Objeto Indireto vinha à aula, Preposição também vinha.
– Complemento Nominal?
Ouviam-se só as vozes agressivas do Substantivo, Adjetivo e Advérbio.
– Vá sentar-se, Agente da Passiva!
Ninguém atendia essa petição da Sintaxe.
– Predicativo!
Indiferença total. Sintaxe acompanhava Predicativo desde seu período na creche. O passatempo dele era trolar os colegas. E sua mãe levava-o da creche aos empurrões, beliscões e gritos. Sintaxe associou as características do sujeito a anamneses do objeto.
– Adjunto Adnominal?
Adjunto Adnominal não lhe respondia, mesmo diante da Sintaxe. Ele não largava o pé do Substantivo.
– Adjunto Adverbial?
Também não lhe dava ouvidos. Sempre de bate-papo com Verbo, Adjetivo e Advérbio.
– Aposto, tire o lápis da boca.
– O lápis é meu ou é seu?
– Vocativo, mude de lugar. Respeite o espelho de classe.
– Também sou humano, pô!
Sintaxe foi à raiz do cabelo. Reconheceu que cativar uma segunda-feira chuvosa tinha origem em captivare. Agarrada ao cabelo no particípio de capere. Passou a mão na cabeça movida por captus e captivus.

Como cativar essa turma? disse Sintaxe perdida entre papéis. Encantá-la como?

Era mais um palito numa caixa de fósforos. O barco agitado pela tormenta. Cativar ainda era “tornar-se eternamente responsável por aquilo que cativa”? Era fácil desde que fosse paciente feito a aprendizagem que se concretizava lenta e gradual com a pedagogia do bem-estar.

A turma, disse Sintaxe, perdeu o ritus, a ordem cósmica, a artýs. E aonde foi o limitis? Aula é fluida, se humana, maleável – convenceu-se Sintaxe. E há de haver maturação, e há de haver olhar, e há de haver dissonância, e há de experimentar formas.

No aquecimento global, quem não tivesse culpa atiraria a primeira pedra? Olhou Sintaxe o céu plúmbeo, dito no início da sua crônica diária, porque temia mais granizo na terça-feira.
Realmente, nunca gostei do domingo, que latia, que mostrava os dentes, que esperneava. Abria sua bocarra com terríveis ameaças ao dia seguinte. Uma domingueira sempre metamorfoseia um amanhã de aperreios.

Alguém batia à porta? disse Sintaxe. Era outra segunda-feira com bolas e bolinhas de gelo jogadas do céu?

Por que não atendi às palavras que diziam “O escritor é um desenhista de palavras que colore o mundo com sol sustenido”? Preferia o lá bemol.

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