ANTES DA CHUVA

Contos

Marcello Ricardo Almeida

Antes da chuva, Solphia n parava de se agitar no colchão d’água sob o largo e roto mosquiteiro cor-de-rosa. Gemia lenta e às vezes demoradamente.
Q aconteceu a ela?
As expressões faciais mudando de maneira acelerada, era cada vez mais, cada vez mais, cadamais, maismaismaiscadadacamais...
Naqle dia, intuiu Caluda q a colega Solphia se enforcou em casa com uma perna de calça. Mas logo a viu apressada nos corredores da firma; apresentava sem sucesso as írises aos acessos dos grandes elevadores panorâmicos; em seguida, ela disparou escadas abaixo como se fugisse de um incêndio.
Q houve, Sol?
Dps te falo! sumiu Solphia nas sombras das escadas com seus verbos de enunciação. Caluda gritou outro verbo de enunciação, sussurrou, perguntou e a colega Solphia n lhe respondeu. Caluda olhou e suas mãos tremiam, tremiam as pernas pelo modo como Solphia falou. Caluda n a entendeu.
Q intenção era a dela? disse Caluda. Foi antropomorficamente alterada. Minha certeza me falou q ela vai conseguir se automatizar com naturalidade por essa nova geração de teliarassós. Dps só existia, Sol, o q teliarassós quisessem q existisse. Acaso seria o vampiro q a deixava excitada? Ó, falasse alguma coisa, Sol, dentro desse ouvido.
...
Após Os... – corpus de muitos tentáculos – ter entrado na bocarra aberta de Caseína, q n os conseguiu engolir, seu destino foi traçado pela ampliação de luzes radioativas. E nunca mais se ouviu falar em Os... Sua luta p combater o vampiro foi apagada, e o Movimento Os... abolido.
O q predominava em Caseína, comentava-se à boca miúda na salinha do café, era a frieza das relações.
A cidade nos forçava a abandonar as regras do mundo real.
Somos, disse Medeia, ensurdecidas com a sonoridade em Caseína.
Ela, concluiu Ino, nos remete a teias, emaranhados. Há spre fios invisíveis a nos espreitar. Qdo eu saio daqui, chego em casa sem unhas; roo até o sabugo e tremo, e n consigo dormir, exceto qdo busco ajuda nas farmácias clandestinas.
Homunussuum acabou com a gente! disse tossindo ao engasgar-se com o café feio, fraco, frio e fedorento na boca de Fedra.
Fé, atalhou Medeia, há qto tempo a gente vivia assim...?
Quis dizer assim: desprovidas de passado, sem coletividade e nenhuma subjetividade? inqueriu Fedra ao recuperar-se da tosse provocada pelo café. N existe nenhum absurdo ao nosso redor, gente? Gente, gente, gente...
N sei se souberam! pigarreou Caluda. Eu só sei q nada soube; exceto se negar obediência cega a qqr uma das menores teliarassós, a medida da régua era o banimento e o desprezo eternos.
...
O trampo na firma, como se dizia no milênio passado, iniciava-se cedo e n se concluía, mesmo saindo tarde.
Escreveu?
Escrevi.
Revisou? exigiu Subjetividade cheia de especulação e absurdismo.
...
E selecionava, e decidia, e aprovava, ou desaprovava. O totem era o único q n se cansava entre as portas giratórias na entrada da firma.
Anthrops e o Sr. Morphe começaram hj na firma? N acredito! Isso parecia um sonho de padaria.
Sol me falou q sonhava com vampiro.
Vampiros n existiam, Sol.
EXISTIAM! repetia Sol a plenos pulmões; era assim q ela me persuadia a concordar haver essas coisas abraçando Caseína.
Tem certeza, Sol?
Agora vai me dizer q a Era Mesozoica n existiu.
É o q dizem.
É melhor sonhar com vampiro do q sonhar com pterossauro.
Sol dormindo naqle colchão d’água. Sol sem o devido cuidado. E resolvi lhe dar um mosquiteiro. Escolhi a cor. Queria lhe dar um cor-de-rosa. Ela aceitou. Como Sol ficou feliz debaixo do mosquiteiro cor-de-rosa. Era mais confortável. E livrei Sol de tantos males.
Existiu ou n existiu?
Q, Sol?
PTEROSSAURO! disse assim, pq n sabia falar de outro jeito p convencer.
É o q dizem.
E paquicefalossauro?
E o q?
PAQUICEFALOSSAURO!
N precisa gritar tão alto, Sol?
E anquilossauro?
A gente n saía da salinha do café; lá, a gente chamava Solphia de Mima; e n sabia de onde veio isso.
Alguma coisa acontecia com as emoções da Mima, gente.
Aconteceu.
Q houve Solphia?
Sol n morava longe da firma. Vinha a pé. E, muitas vezes, ela me falou q, enqto caminhava, via passar anquilossauros, archaeopteryx, iberomesornis, mas queria mesmo era ver vampiro. Se usasse busão, Sol, viria o q queria ver. E ela misturava o trab com ichthyornis e rhamphorhynchus.
...
A cidade só queria ouvir shhh... trommm... chuá... essa alegria do barulho q afastasse o Torpor q controlava Caseína. Longos períodos acordado alteravam os efeitos na firma, desidratavam grupos q caçavam algum sossego na salinha do café.
Eu n posso morrer, Fé.
Psiiiiiiiiiiu!
Tenho ainda mais 50 prestações do apto p quitar; inda umas cinco ou seis atrasadas. E n posso morrer agora, Fé... N posso, Fé!
Ninguém vai morrer aqui, Calu.
Soube q Torpor reprovou, Fé, meu trab com aqlas novas teliarassós.
N fale mais, Calu, sobre isso.
N quero morrer.
...
Solphia acordou, gente?
Ainda n, Mama.
Como isso era possível?
Continuava na cama.
Meio-dia e Mima deitada. E a firma? Mima tava parida?
N, Mama.
N?
E ninguém ia parir. Dava muito trab e despesas impagáveis.
E o q fazia a bunda de vaga-lume na cama, e deixava td no espinhaço da colega Caluda?
Vaga o q?
Vaga-lume, qdo ainda havia isso em Caseína. Q fazia?
Dormia.
Dormia? Pqp!
N havia nda melhor p fazer antes da chuva, gente?
Chuva era um acontecimento histórico em Caseína. A qto tempo n chovia? Uma eternidade dps q começaram a construir os depósitos de armazenamento.
Isso n me interessava! Nunca me interessou. Queria saber dela.
Dela?
O q ela fez ontem?
O mesmo.
E anteontem?
Idem, Mama.
N vou perguntar o q essa infeliz fez trás-anteontem.
Fosse perguntar a ela.
Desaforada!
Ai, Mama!
Me respeitasse, sua servidora de cabos e vendedora de rede!
Mama atacou Solphia com o q trazia nas mãos. Eram os clássicos q iam direto aos latões de lixo q empestavam Caseína. Os livros sumiram do interesse, esvaziam-se nas prateleiras e canais, fecharam livrarias e bibliotecas; perderam o valor nas escolas, q eram em casa.
...
Celular, disse Caluda, cada vez com mais facilidades; n precisava passar o dedo na tela, era só piscar e ela mostrava outra tela, mais uma, nova tela, mais tela, mais, mais, mais. Opa! Voltava com uma piscadela. Mais tela, mais, mais, maismaismais, mais tela, mais, mais, tela, tela... N havia como livrar-se teelaa...! mais, mais, mais e mais, como se visse, n a tela, mas outra pessoa, ela própria, outro, mais, mais, mais outrautro, outrautro, outrautro, outrautro... mais alto, mais alto outroutra diante de si, outroutra diante de si, outroutradiantdsi...
Lentos iam os ônibvus nas ruas de Caseína. Eles serpenteavam, venciam a imobilidade, alçaram o istmo, paravam, seguiam. Spre cheios. Caluda repetia-se com a luz azul sob o queixo. Mais tela, outra tela, tela nova, nova tela, outra, mais, mais, mais, maismaismais... dançando as imagens holográficas Caseína afora. O q era raro perdeu a realidade física na cidade.
A fome lhe fazia salivar. Vi de longe. Corria à aglutinação eletromagnética, a fome oscilava em Caseína.
Antes da chuva, os jornalistas tentaram escrever a notícia e as palavras e as orações n passavam de letras soltas, sem sentido; por mais q os programas tentassem corrigir era em vão; nos textos, as palavras inventadas se recusaram. Eles tentaram consertar os parágrafos, mas falharam com a junção silábica; e a leitura ficou lenta, entrecortada cada vez q foi repetida. As pausas repetiam-se à exaustão e, ao ler a leitura, perdia-se a prosódia.
Ao mesmo tempo, os poetas perderam-se e ficaram sem expressão.
Os escritores viram escapar por entre os dedos suas criações voluntárias.
A língua deixava de ser apropriada em contextos reais.
E o trab com a palavra n atingia mais o leitor.
As letras uniram-se p dizser dizenzowfm dizhn dizwrht wmf mqwtk n nwqijf rmtanj okqwdjoo widoasn qwjf j akm qwj j ojkd okdwdwdm oke kksokky nwqd – e saíram pelas janelas os sons de letras, as repetições consonantais.
As vogais, q amolecem as palavras, a passos largos abolidas de Caseína.
Caluda, q havia lido 50.000 livros, perdia-se nas palavras. Ela perdeu por completo a intuição. Sem as palavras dela, teliarassó n seria o q se tornou. Seu inconsciente travava, apresentava inchaço. Caluda repetia tilt. Tio nunca houve, o til foi o primeiro q caiu. Viu-se frequentemente sem a vontade de poder usar as palavras enqto falava. Sequer corrigia o próprio texto no exercício da fala diante de espelhos, q abundavam em Caseína. Corriam atrás de sinônimos, mas eles n eram vendidos mais em xópim, lojas de conveniências e supermercados, q um dia os entregavam ao povo praticamente de graça. Ela n operava mais sobre sua língua nem língua nenhuma. Em breve, temia perder tb os sinais de pontuação. A primeira a morrer na violência do trânsito na cidade foram as regras formais.
Assim iniciou-se a cortina derramada por pesadas nuvens. Elas impediam a construção de sentido aos textos daqles q trabalhavam com eles.
O plural conheceu o singular e viciou-se nele. Em Caseína nunca mais o plural foi visto. O q era comum ver-se nas ruas da cidade era o antropomorfismo. Td no istmo do município ganhava alma, sentimentos, rosto, falas, romances. O antropomorfo encontrava-se nas ruas e, principalmente, nos espelhos.
Ônibvus circular articulado se aproximou. Veio gemendo ao ponto com um apito agudo de fitas de freio gastas; o apito demorou seu lamento de desespero. PaROU.
Finalmente! suspirou Caluda.
Ele abriu as portas automáticas. Abriu as asas de atordoada graúna.
Ficar à espera de ônibus em Caseína levava a cabeça de Caluda a visitar o inchaço da cidade q a viu crescer.
A dependência chupava a fumaça branca com sofreguidão. Ela queimava a boca e era engolida e expelida pelo nariz, qdo a acidez e a quantidade ficaram presas nas sombrias e sujas ruas de Caseína.
Viver nessa cidade era uma cobiça quase inalcançável.
Caluda, após concluir, orientou teliarassó p conhecer td o q se come, td o q se veste, onde se mora, se trabalha (e em q?), se saiu e se voltou, suas roupas prediletas, ia às farmácias atrás de quais medicamentos. Há tempo, as escolhas dependiam tão só dela. Era teliarassó em td parte. Onde não houvesse tiliarassó havia desertos e pragas.
Outro apagão. A cidade ficava por h no escuro. Os apagões deixaram de ser raros, agora eram frequentes. A cidade começou a desistir dela própria. Via-se a multidão rarear como as palavras na boca do povo.
O texto verbal em Caseína foi devorado pelo texto n verbal. Nda mais era paráfrase; n sobrava tempo, ninguém tinha tempo pra isso. As câmeras sim; elas captavam td, td transmitido, comunicado. Paráfrase. Fim dela. As palavras iguais se desigualando, reduziam-se, minguavam, morriam. Paráfrase? P explicar o q? Palavras q se conheciam n comunicavam mais ideias, n serviam p citações de terceiros.
E, dia a dia, a atividade epilinguística afundava-se em leito hospitalar caro e descuidado. A reflexão epilinguística, atropelada em uma das ruas escuras de Caseína, ficou h à espera de socorro q só lhe veio qdo passava do meio-dia, dps da chuva. Levada às pressas ao hospital, havia perdido a intuição, n conseguia mais mudar uma palavra p soar melhor ou dizer o q houve. Ela deixou, na rua, entre sangue e ossos, a reflexão espontânea. A partir do acidente, aflita, Caluda só esperava Sol morrer de maneira inesperada, pois nda fazia sentido e ninguém conseguia deduzir o significado. Ao lado dela, estirado e morto, foi reconhecido o Contexto.
...
Busão. N, n foi fácil! reclamou. Dps da eternidade no ponto! disse Caluda enqto se apertava entre outros passageiros q disputavam um lugar próximo aos janelões, mesmo manchados com a nata amarelada, p ver o q ainda resistia em Caseína.
Reconhecia aqla casa; ali foi a casa da Verdade.
Mas o q houve com ela, por onde andava?
N se ouvia mais falar.
Como dizia a velha canção assoviada por Prevento:
“O rio é vida.
“Ou a vida: vento?
“Vento.
“Feito árvore, q é vida sendo vento.
“Vento?
“E os fungos vivem lentos.
“Lentos?
“Nas cascas das árvores: vento.
“Vento?
“O homo sapiens descobre-se vivo.
“Vivo?
“E a vida cabe a qm sabe.
“Qm sabe...
“Q a vida passa, e volta.
“E volta?”
E qdo foi q o palácio da Vaidade trocou as paredes de vidro?
Nunca mais tinha vindo por aqui.
Vi. Era o vampiro? N poderia. Era ele.
Queria ter unhas assim.
Ele lambuzava-se naqle docinho de padaria; as unhas furaram o pacote, elas escavacaram a massa e a língua ia direto ao doce deixando a massa, dps fechava o pacotinho, em seguida o reabriu indo outra vez ao açúcar e o consumia – nhoc! nhoc! chulp! chulp! nhac! nhoc! chulp! ploc! crap! nhoc! chulp! lam-lam! nhoc! ploc! glab! – por completo. A língua corria nos lábios atrás do sabor q lhe escorria no queixo, a língua descia ao pescoço. Corriam as unhas no corpo. Ele revirava os olhos, e era como se buscasse sentir a própria língua, q remexia na boca, q aparecia nos lábios sem cor, na pele de cadáver, q lambia as unhas com o resto do docinho de padaria. Guardava o pacote; mexia no celular. Voltava ao pacote, às sobras do docinho de padaria.
Finalmente, poderei ir p casa.
Ninguém nunca mais, nunca mais mesmo, viu o Sr. Maicéuf, q fiscalizava meu trab. Solphia veio à firma p colaborar com o Sr. Maicéuf; dps ele sumiu. O q terá acontecido com o tecido do Sr. Maicéuf. Na salinha do café, ouvi dizer q... Ah, nda, eu n ouvi dizer nda! E a colega Hera por onde andava? Hera foi mandada embora. Por q a mandaram embora? Ninguém nunca soube o q houve com Hera.
A poeira no meio-fio se ergueu na nuvem fedida.
Dá licença, dá licença! disse um passageiro a outro; tds querendo entrar ao mesmo tempo; eles empurravam, rasgavam-se; tds atrasados, temiam perder o horário, ser mandado embora do trab.
Caluda viu uns subirem, e outros fracassarem na tentativa de subir, estes ficaram p trás. E assim – pssssssh! sssssh! tzun, vulpt, pssssh, paf, pam, vuc! – fechou-se o ônibvus circular articulado, e abandonou o ponto.
Ufa!
Se foi com um gingado característico no asfalto irregular; imitava vagão de metrô solteiro em imaginários trilhos. As palavras n saíam mais da boca das pessoas, os áudios fragmentados e a coesão se afogavam no compulsivo choro da coerência.
Caseína perdeu a semântica?
Foi o q disseram na salinha do café.
Perdeu ou n perdeu?
Saberemos no próximo cap.
Né q hj fiquei super no celular! disse Caluda após ser liberada pelo totem da firma q lhe confirmou a identidade. O tem...po n era... o tempw, vi vindo p cá, antes da chuva.

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