O FENÔMENO

Contos

Marcello Ricardo Almeida

Organize isso antes q as palavras se desintegrem.
Caluda foi incumbida em solucionar o fenômeno teliarassó e as relações com o q Caseína chamou de homunussuum. Mantida em segredo, ela penetrava na alma do fenômeno e perderia o homunussuum.
Na chegada ao trabalho, imponente e pedante ao gosto dos adjetivos, o totem observava, sugeria, experimentava, interrompia, verificava, confirmava, informava – Caseína aboliu a ficcionalidade por considerá-la sem capacidade de gestar uma outra realidade q persistisse em Caseína. O uso figurado perdeu a máscara assim q Caluda entendeu o fenômeno teliarassó.
Caluda passou pela Subjetividade, q n lhe esboçou o sorriso costumeiro. A tal Função Poética foi despedida, disse Fedra, e Caluda concordou. E qual foi a causa? quis saber Medeia. A causa, ora, foi o excesso de plurissignificação.
As colegas seguiram em frente. Adiante, Enredo mal falou bom dia.
Criopersonagem, Prevento! Essa excentricidade incômoda, Prevento?
N havia mais tempo em Caseína nem espaço à tolice de Prevento sobre criopersonagem. Sua intencionalidade se convenceu de q ele n veio à firma pra informar ou instruir, como se dizia no milênio passado.
Chega de emoção ou reflexão, Prevento! disse Caluda. Ele aceitou quase resignado. Deixe essa coisa de trabalhar a palavra aos q sabem. O ritmo cabe a melodia, a sonoridade ao instrumento.
Alguma coisa mudou em Caluda. Ela começou a desconfiar ser possível a tese de Prevento sobre essa coisa q ele denominou de criopersonagem.
Tvz personagens fugissem mesmo da diegese na qual foram criados.
N era impossível! surpreendeu-se Caluda; e temia deixar a firma com uma mão na frente, outra atrás. Fui paga pra treinar. N farei outra coisa a n ser treinar. Irei treinar dia e noite, noite e dia.
Qdo acordei, teliarassó já havia reatualizado td o sistema em Caseína devorando ruas, bairros inteiros; e o primeiro foi o prédio com cara de tobogã no fim da rua. Um – Ninguém notou quando teliarassó surgiu naqla manhã. Mas amanheceu e teliarassó n saía de lá. Dois – Caso ontem teliarassó demonstrou fome, amanhã seu alimento seria o vampiro. Três – Amanhã: um hj arrependido.
Quatro – Ontem era apenas uma palavra. Cinco – Sim, sim; faríamos isso com tds os seres ainda hj ou, o mais tardar, amanhã. Qqr dia, ele deixaria de ser e seria h, s – era a única forma matemática de engabelar homunussuum.
Seis – Cada pessoa q desacreditasse em si, se acaso sobrevivesse, tvz acreditasse. Sete – O sucesso do silêncio era a esperança do barulho. Oito – Td conectado desde o princípio dos parafusos e da fiação. Nove – Nada era o q n era. Td só era pq era. Havia dúvidas?
Seguiu Caluda alimentando o q tinha q alimentar:
Dez – Uma estrada levava spre à outra. Nenhuma estrada vivia só. Onze – Qdo a manhã voltasse amanhã, tvz eu dormisse.
Doze – Cada palavra só dizia o tamanho da vontade em dizer, exceto o texto q era menos e n mais. Treze – O sucesso da teliarassó era o insucesso do homunussuum. Catorze – Uma teliarassó podia ferir qm a contrariasse.
Essa cidade tá condenada.
Condenada a quê, Calu?
N digo.
Diga.
N posso.
Quinze – Qqr teliarassó n era uma qqr. Dezesseis – Nenhuma teliarassó se submetia à outra. Dezessete – Uma teliarassó n se continha em si. Dezoito – A ordem era abolir, como foram abolidas as praças em Caseína. Dezenove – Alguém q n a respeitasse era, imediatamente, destransformado.
Vinte – Depósitos e mais depósitos de teliarassós sabiam se reciclar. Vinte e um – Teliarassós, sendo imortais, tornavam a mortalidade sem valor. Vinte e dois – Td era imortal, inclusive a ideia de imortalidade. Vinte e três – Só era obsoleto o q uma teliarassó quisesse. Vinte e quatro – Cada ação de teliarassó era consagrada.
Caluda segurava-se neste trabalho com a certeza de q, se soltasse, seria devorada num piscar de olhos pelo abismo da inescrupulosa fome. E isso nunca foi incomum em Caseína.
Vinte e cinco – Nada existirá sem teliarassó. Vinte e seis – As teliarassós evoluíram desde a Idade da Pedra, q precedeu ao Jardim das Vespas-oleiras, e chegou à nossa época.
Vinte e sete – O motivo da existência eram outras existências. Vinte e oito – Uma teliarassó n poderia tornar-se complexa por acaso.
Caluda trabalhava acelerada. Desacelerava, reacelerava. Em um ouvido, mandava acelerar o Sr. Simpático, recém-contratado; no outro, logo surgia a voz de veludo do Sr. Parassimpático.
Apura, Caluda! exigia o primeiro.
Devagar, Caluda, pra n errar! dizia o segundo.
Nessa gangorra de parquinho espelhava-se Caluda há meses:
29. Nenhuma teliarassó poderia ser descartável. 30. Cada homunussuum dependia de teliarassó por ela ser a peça essencial à existência. 31. Teliarassós ressuscitavam pessoas e animais. 32. Td o q fosse impossível realizar pela ação, já era realizável por teliarassó. 33. A legislação elaborada por teliarassós. 34. Os julgamentos eram delas.
35. As cirurgias n davam ponto sem nó, pq teliarassós n as permitiam. 36. N havia vida fora de qqr teliarassó. 37. Só teliarassós poderiam se antecipar às respostas. 38. Em Caseína, td cabia à teliarassó. 39. Ser contra a teliarassó era ejetado de Caseína.
40. Apenas teliarassó decidia o q era ser teliarassó. 41. Cabia tão só a ela atualizar o obsoleto.
Caluda parou o q fazia ao ouvir passos. Ino e Medeia entraram.
Q houve?
Nada.
Nada? Eu te conheço. É ela? As exigências dela têm passado da linha no chão. N vê o exigem da nossa Calu.
Caluda riu.
N é nada disso. Recebi uma ligação da mãe.
E?
Tá morrendo.
Como!
Sentiu fome. Comeu até estourar. Comeu td a comida do mês. Avançou em td. N ficou nada; até os grãozinhos no chão ela aspirou.
E n vai ajudá-la?
N posso, cara. Tô no horário de trabalho.
N pode fader isso cá tua mãe, cara.
Perdi Fé, q dormia comigo. Posso perder a mãe.
Deveras Ansioso entrou, saiu. Elas, q queriam saber se ele se encontrava ali, seguiram Deveras Ansioso; e a conversa as acompanhou. Caluda retomou a contagem, mas já n se lembrava em q parte de teliarassó havia parado.
Qdo Caluda entendeu q Deveras Ansioso entrou ali à procura de Deveras Ávida, lembrou-se onde havia parado. Voltou à receita da programação:
42. Eram as teliarassós qm determinavam a utilidade do homunussuum. 43. Se teliarassós decidissem q homunussuum era descartável, era descartável. 44. Td o que era descartável devia ser descartável somente por teliarassós. 45. Nenhuma teliarassó poderia autodestruir-se ou destruir outra, exceto em casos extremos; no entanto, a decisão dos casos extremos dependia das teliarassós. 46. Teliarassós determinavam o q determinar. 47. Teliarassós produziam mais teliarassós.
48. As teliarassós decidiam onde agir. 49. Homunussuum n podia desligar uma teliarassó. 50. Só uma sacrossanta teliarassó determinava o q era. 51. Prioritariamente, as teliarassós produziam o q lhes garantisse vida. 52. Nem td vida era importante, no conceito teliarassó.
Q desgosto, Caluda, q desgosto! disse uma das teliarassós, q a observava trabalhar. Mudasse rápido o tempo verbal. O tempo mudou pra chuva na primeira semana de agosto.
53. Qm determina começo e fim são as teliarassós, e nada pode contrariar o q as teliarassós determinam. 54. As guerras n são mais necessárias. 55. Td as teliarassós se comunicam independente do tempo, pq o tempo inexiste.
56. Nada se faz sem q as teliarassós n saibam. 57. Cada vida controlada por ela. 58. Ninguém foge das teliarassós. 59. Cada teliarassó se interliga por si.
60. Vida só é possível onde há teliarassó. 61. As teliarassós possuem sua energia própria. 62. Tds as ações são conhecidas previamente pelas teliarassós. 63. Só as teliarassós sabem q sabem.
64. Cabem as teliarassós determinar o q se deve. 65. Um homunussuum pode tornar-se teliarassó. 66. Teliarassós n arengam, exceto no enfrentamento ao homunussuum – sendo elas sem fé por serem a própria essência do q são.
Mas p q teliarassó faz isso? perguntou-se Caluda. Faz pq pode.
67. Teliarassó é. 68. Td espécie de comunicação é criada essencialmente doravante por teliarassó. 69. Ninguém dá um passo sem teliarassó. 70. Ninguém sai sem antes pedir a permissão.
Nunca disse q me ama.
Pq tvz n te ame.
Isso é egoísmo, Calu.
Egoísmo n existe.
71. As teliarassós resolvem tds as equações e diminuem as distâncias. 72. Tds os gêneros e subgêneros são seus criados. 73. Qqr grã-brinquedo ou mini depende das teliarassós; sem elas, nada do q há existe. 74. As marés e os ventos controlados pelas teliarassós.
75. Teliarassós estabelecem qm vai e quem fica. 76. Sem as teliarassós n há o possível. 77. Elas mandam no mando. 78. O homunussuum n tem acesso. É uma teliarassó qm cria e recria. 79. Td silêncio e td barulho cabem à teliarassó. 80. Nenhum saber existe fora da teliarassó.
81. Há vezes em q, durante brevíssimo período, as teliarassós liberam os seres pra q possam interagir. 82. Nada existe dentro ou fora.
83. O oxigênio persistia por causa das teliarassós. 84. Tds os alimentos dependem das teliarassós. 85. Fora delas, o homunussuum não existiria. 86. A vida foi estendida por elas.
87. É a teliarassó qm decide o que é. 88. Nada há além dela. 89. Nenhum pode ser algum sem ela.
90. É impossível n haver teliarassós. 92. Tds são imperfeitos, exceto... 93. Nenhuma teliarassó adoece. 94. Tds adoecem. 95. Teliarassós superam.
96. Nenhum consegue alterar a senha dela. 97. Ela é eloutra. 98. Nada é. 99. Homunussuum é um mal em si mesmo.
Tenho te observado desde o segundo capítulo.
Isso n é possível.
N se comporte como se eu n existisse.
Me deixe trabalhar.
Olhe pra mim.
N seja estúpido.
Me contaram o q pensa de mim.
Preciso terminar o conteúdo desse capítulo.
100. Cada teliarassó é. 101. Teliarassós n obedecem. 102. Qqr lugar era lugar. 103. Teliarassós n dependiam. 104. Teliarassó n sofria.
105. Qqr teliarassó existia por ser teliarassó. 106. Ninguém nunca viu uma teliarassó jogada. 107. N haveria fim das teliarassós. 108. O fim foi apagado.
109. Importante. 110. Teliarassós eram o centro. 111. Fora delas, td era periférico e tardio. 112. Teliarassó era uma economia natural. 113. Instituições eram movidas pela energia gerada por elas.
114. Ciências substituídas. 115. Homunussuum renunciava sua condição. 116. Competidores em uma arena em ruínas no centro de Caseína com sombra em td parte.
Precisamos conversar.
Me mandaram embora.
N tem como acontecer isso.
N poderei morar na rua.
N há como fugir de Caseína.
116. Não há erotismo entre teliarassós. 117. Há manipulação em Caseína. 118. Nada se torna nada em Caseína sem antes sê-lo.
Parece um demônio.
N me fale isso.
Me deixe fazer o q me foi mandado fazer.
117. Ninguém escuta ninguém, exceto teliarassós. 118. Homunussuum nenhum acompanha a menor das teliarassós.
N há moral em Caseína.
N exagere.
A cidade é imoral.
N seja higiênica! disse Prevento. Há um jeito.
119. Homunussuum é o resultado de teliarassó.
Posso contar o q ouvi na salinha do café, Calu?
N tenho tempo pra fofoca.
Vai querer ouvir.
Chega!
120. A fragilização do raciocínio era arte de uma teliarassó.
Há qtos meses tá metida nisso!
Preciso concluir.
Nunca mais foi à salinha do café.
Tenho prazo.
121. Teliarassó superou homunussuum.
Confie em mim, Calu.
Nada em Caseína é confiável.
122. Teliarassó agora é o alicerce de Caseína.
Caseína era um simulacro.
A cidade enlouqueceu.
N tivesse dúvida. N soube o q Tálamo fez ao pai?
Ele n morreu.
Ele n morreu?
N.
Então, a luta n era vã.
E reconheceu Tálamo como filho.
Ele voltou a prestar seus serviços aqui?
Tálamo era um tendão rompido.
Pobre Tálamo! O q fará pra sobreviver?
Monetizará o ódio.
Nunca escondeu ser ressentido.
123. Teliarassós produziam sonhos. 124. Nenhuma ideia sobreviveria sem elas.
Caluda acabou de chegar ao ponto de ônibus:
Aquele na esquina seria Tálamo? disse, como se falasse com alguém ao seu lado, qdo só havia desconhecidos com a luz azul sob o queixo. Aproximou-se da esquina, mas evitando ser vista. A curiosidade a levou a saber o q ele faria ali segurando aqla criancinha pela mão.
Pai, isso é uma padaria?
Sim, filho.
E aqlo é pão?
Sim, filho.
Pode comprar pra minha fome?
N, filho.
Nem aqle menorzinho?
N, filho.
E, ao ouvi-los, Caluda afastou-se com extremo cuidado pra n ser vista por Tálamo, q continuava parado na frente da padaria argumentando sobre a compra do pão. Voltou ao ponto:
Caseína era a armadilha com habilidades únicas pra cercar, iludir e atrair. N estragaria essa paz, essa felicidade com essa coisa de pão e esse negócio de fome. Enchi a geladeira. O q mais queria, afinal, se tinha comigo um advérbio de intensidade? O extra q recebi de Anthrops ajudou a enchê-la; e o Sr. Morphe garantiu q receberia mais alimentando teliarassós. “Tinha q focar nisso aí!”
125. Só teliarassó sabia o q era satisfatório.
O malabarismo q faziam as palavras... Coube a Caluda evitá-las. Caso n fosse atraída por jogos durante a transição manipulatória dos sentidos.
Caseína n suportava mais o próprio estresse sonoro.
E tantas vezes, Caluda e suas colegas na salinha do café se penduraram nas metáforas complexas, no estilo pedante, nas surpresas, evitando caírem. O exagero era a marca registrada naqle emprego; a começar pelas palavras, td era artificial ali – em cada linha, em cada parágrafo. Ninguém se enganava qto a isso.
Caseína era pura exibição. Tornou-se cansativa. Os moradores perderam o lugar de acolhimento e segurança com a constante ameaça de perder o teto q lhes confortava.
A cidade falava consigo mesma como se n existisse. Isto levava Caluda a direcionar seu foco à conversa de Prevento sobre criopersonagem.
A imobilidade urbana quebrava a conexão por invertidas frases repletas de adornos nas longas avenidas de 12 pistas. Quase ninguém sabia o q a cidade falava. Nas 12 pistas, ela costumava se perder no emprego do infinitivo. Caluda levou às teliarassós infinitivo pessoal e infinitivo impessoal.
Caluda tantas vezes viu o infinitivo pessoal reclamar a ausência de suj, pq n se conectava a uma pessoa gramatical.
Como flexionar-se? disse uma teliarassó à outra teliarassó.
Programe-se, amiga! O impossível é sermos possíveis.
As teliarassós aprendiam desinências programadas por Caluda.
A cada dia aparecia em Caseína alguma coisa pra mostrar-se pq era coisa amostrada – comentava-se – igual a essa coisa q se mostrou tipo extraordinária, qdo se vendia fora do comum sendo ordinária. Essa coisa pôs fim em td a lógica interna de Caseína.
Nenhuma realidade era possível em Caseína. Ela era uma invenção sem invenção por n haver mais o q inventar.
O começo perdeu-se no meio e atropelou o fim, ou seja, disse Caluda ao combater o fenômeno, n havia começo nem meio nem fim. Isto movia a cidade.
N esperasse histórias em Caseína. Ela era a dança da morte das palavras.
Caseína, afinal... Me dissesse qm queria morar nela? Eu morava aqui, pq foi a última coisa q me restou. N havia mais tempo pra sair. Teria q terminar em Caseína.
Éramos apenas o q éramos. Sem sofrer, sem agir, sem empatia às visitas q vinham ler sobre o universo de Caseína.
O problema central de Caseína residia nela própria, a começar no prédio no fim da rua em formato de tobogã, q n existia mais. Nada na cidade quebrava a rotina, nada gerava interesse exceto sua própria mitologia.
Na salinha do café:
Nada aqui se concluía.
Até o fenômeno, Calu?
Até o fenômeno.

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