A PANE

Contos

Marcello Ricardo Almeida

Invadiram Caseína. Por meses, a cidade foi tomada por nuvens q tocaram o solo e a encobriram. Verticais. Monumentais. A umidade rapidamente alterada: o ar quente substituído pelo frio intenso.
Tomado por uma febre por quase três anos, Prevento, q saiu da casa da Genitora, havia ficado na cama sem levantar-se nem pra passar um café ou fazer um chá.
No ambiente degradado, Prevento abandonou a casa materna. Corria em suas veias se ele deixou a Cônjuge ou ela o deixou, pq já n sabia.
Figuras cinzas e o conceito estético de Caseína há tempo se deterioravam sem a clemência dos moradores. As paredes de vidro com enormes rachaduras, a estrutura de ferro fundido alimentava a ferrugem.
As paredes de vidro quebraram a ilusão entre o privado e o público, mas isso n era mais levado a sério por ter-se imiscuído. Perdeu-se o desejo em saber detalhes da vida alheia, a vigilância constante foi jogada a um leito pra morrer à míngua, os segredos se evaporaram na fumaça dos combustíveis fósseis, sumiu a fragilidade com a carapuça usada pelos transeuntes apressados.
Meio-dia, ouvir-se-ia nas ruas a plenos pulmões:
Almoooço!
Em outra parte, como se rasgasse a própria garganta, os gritos rimados:
Aaalmoço caseeeiro!
Silêncio higienizado n existia mais em Caseína. Ficaram os gritos abertos e sujos; nada mais cheirava a açúcar mascavo. Noutra esquina, o estranhamento existencial atravessava a linguagem na fragmentação urbana:
Almoceee aaaqui!
Caseína tomada de assalto por nuvens pesadas d’água. Elas desceram e abraçaram a cidade. Cumulonimbus sufocava Caseína.
Saí das cobertas quentes ao gelo das ruas. Demoraria pra amanhecer. Fui ao fogão; faltou gás no condomínio. Caminhei, bocejando, cansada e com sono, por quase uma h por becos escuros e fedorentos! resmungou Caluda.
A escuridão em Caseína possuía causa nas instalações físicas em pontos estratégicos pra proteção e distribuição das atividades de computadores dentro do município e seus equipamentos de rede. Eles armazenavam, processavam e distribuíam dados.
Caluda saía tateando no escuro. Um ponto de luz era motivo de festa.
Por força do hábito, ainda se falava nas praças em Caseína como se elas existissem. Mas foram abolidas no pretérito. Praça, como aura do encontro e da conversa, se perdeu no tempo.
A cidade tornou-se borrão cinza e asfixiante. Ficou o prédio no fim da rua, como âncora visual e narrativa; ele representava a resistência final contra a ruína completa. Apressada, Caluda evitava os buracos na calçada do prédio no fim da rua:
Ainda haverá tempo? Espero chegar à Praça Central antes da saída dos primeiros busões em direção a firma. Eu entrarei no próximo, com sorte, daaaqui aaa... – e consultou a luz azul debaixo do queixo – ...uuuns 20 min. Talvez haja tempo.
No fim da rua era o marco temporal de Caseína. O indigesto permanecia no prédio do fim da rua, q representava a cidade neogótica de paredes de vidro e estrutura de ferro fundido.
Caluda apressada, mas n conseguia expressar o motivo da pressa. Via a cada dia a perda dos espaços públicos. A privatização avançava na velocidade da Terra perdida no espaço presa ao silenciamento forçado, e q Caluda teimava em rompê-lo ao falar sozinha àqla h da manhã pelas ruas da cidade:
Com sorte, embarcarei no primeiro e no segundo busão antes daqle na Praça Central. Atravessarei praças sem vida. Nas ruas largas, ocupadas por pés ligeiros, ouvirei os vendedores ambulantes.
Baaalas! a voz surgiu atrás de um latão. Vaaai querer?
Caaafé.
Saaanduíche natuuural.
Chocolaaate quenteee. 
Compro ouro! abriu a boca num grito, mas o grito n saiu. Compro ourooo!
Chip pra ceeelular! oferecia a mulher empacotada de lã. Oooferta. Leeeve cinco e paaague o preço de dooois.
Sob as marquises, famílias embrulhadas em papelão. Havia um velho q dormia abraçado a um cachorro. Uma senhora de cócoras esperava pelo senhor.
Braços abertos. Livrou-se do elmo, da gola, do espaldar, das manoplas, das espaldeiras e braçais, dos caxotes e das caneleiras e, por fim, dos sabatões. Prevento lutava contra o sono:
Chutei as cobertas. Saí da cama. Mergulhei a cabeça na bacia com água gelada. Apertei a térmica e ela choramingou o resto do café do dia anterior. Lutei ao atravessar o velho portão. Pisei no chão areento. A friagem atravessou a sola dos sapatos, as palmilhas térmicas, as meias de poliéster e poliamida, subiu pelas pernas e agrediu as partes abaixo do umbigo com inesperada violência. O vampiro sossegou um pouco. N ouvi mais falar de ataques nos busões.
As mãos congeladas saíram dos bolsos da calça e tatearam os bolsos do casaco. Trouxeram dele o cigarro e o isqueiro.
O hálito dos passageiros cheirava a café barato. O ônibus percorria a longa ponte q fazia terra sobre o istmo de Caseína. O trânsito parado poderia ser lambido por uma onda; se isso acontecesse, os carros seriam arremessados ponte abaixo e devorados pelo istmo. Mas isso era o q se falava pra ameaçar o vampiro; ele temia a água salgada, pois derreteria feito açúcar numa xícara de café.
O rio foi devorado pelo esgoto. Caseína era uma coleção de hiatos e boatos. A consciência linguística foi atingida de cheio; perdeu uns dentes, os pais por pouco n morreram; ela saiu do choque desacordada e nunca mais foi o q era. A linguagem se recuperou, mas ficou mediana; td nela passou a ser homogeneizada sem recurso vocabular, os técnicos sumiram, a leitura n era entendida como foi. As palavras dissolviam na boca das pessoas feito bala; elas até se formavam, ganhavam corpo e, na língua, se dissolviam. A consciência linguística ficou in.
Uma coceira, q brotava na raiz da garganta, fazia Prevento tossir a alma. Arrastava uma tosse comprida. Demorava uma eternidade com uma graduação impressionante. Com a boca aberta, sua tosse semeava perdigotos por td a sala do escritório. Ouviam-se gemidos acompanhados por pragas e longos chiados q atravessavam paredes.
E, após a experiência dos anos prostrados na casa da Genitora, Prevento recusava-se dormir. Brigava com a força da onda q o entorpecia; era uma onda eletromagnética q lhe chegava, e ele adormecia. Exceto no trabalho onde Vigília mantinha tds acordados por 24h, intercalados apenas por breves cochilos; isso custavam terríveis dores na consciência, pq o propósito era ficar o tempo td desperto. N se podia desperdiçar os importantes segundos diante das imagens coloridas, dos temas supérfluos q despertavam os risos e as gargalhadas com a ruína alheia ou bizarrices e eletrizantes acessos pela estrada da violência, por chamado do casal Dona Ira e o Sr. Ó-Dio. 
A decadência das ruas se iniciava com os becos feridos. Corpos invisíveis tombavam de sono nas estreitas e esburacadas calçadas nas quais escorria um líquido viscoso com as cores do arco-íris.
Isotopia dos moradores e o desconhecimento da linguagem associados aos centros de processamento de dados equivalia a lâmpadas q se apagavam dia a dia. Qdo o esgoto devorou o rio, acabou-se em Caseína a água potável. Em cada mão uma garrafinha d'água pelo preço de uma consulta ao dentista.
As terras perderam a agricultura e a criação. Depois foi o choque de asma. Veio a onda de calor, com ela trouxe avassaladores casos de bronquites.
Caluda falava alto pra ser ouvida.
Prevento mal falava, impedido pela timidez.
Acelerou o passo. Correu. A respiração ofegante. Chegou ao ponto cinco min antes dele. Considerando q Prevento já tivesse ido, Caluda subiu no primeiro ônibus, q chegou três min dps.
Seguiam os passageiros à firma. Eles n desgrudavam os olhos da luz azul sob o queixo. Em cada qual o fone de ouvido. Os eufemismos eram doses extras de dopamina e mais atenção se n emperrassem o tempo, q era célere.
Eufemismos imperavam em Caseína. Se se tratasse de Os..., a linguagem atropelava e matava. Os... silenciados por denunciarem vampiro em banco de ônibus urbano. O eufemismo era a arma silenciosa, n pra informar os fatos, mas pra enfatizar as opiniões q davam mais voltas do q dunas ao vento. 
A umidade tomou as paredes com fome de bicho. Espalharam-se fungos nos rebocos; eles penetraram nos tijolos, ocuparam a argamassa.
O eufemismo fazia seu papel em Caseína. Na boca dos comentaristas, q prometiam informar, ele ocultava os fatos pra iluminar com opiniões; e trocavam-se baterias velhas por novas.
O mofo cobria as peças, já amoleciam as janelas, tiravam portas do lugar. Nos ônibus urbanos, os bancos eram pedras de gelo, como se representassem a presença do vampiro. Disparavam por ruas de aclives em aclives, corriam nos declives, enfrentavam buracos imensos. Subia pelas pernas dos passageiros o mofo.
O que a hipermodernidade fez com a gente? disse Caluda, q formatava a linguagem sem poder chegar à língua. Fragmentava, como se moesse grãos, e vai à medula o desgaste. A língua inutilizava-se.
Seus olhos percorriam os vazios e viam a perda absoluta da privacidade entre as paredes de vidro nas estruturas de ferro fundido q aprisionavam as ruas, as avenidas escuras, os becos fétidos, as servidões de passagem em Caseína. Os prisioneiros visuais nos prédios n se consideravam presos, pois normalizada essa vida entre os habitantes da cidade.
Havia semanas, q n se falava do vampiro à boca miúda. N havia ameaças dele? Os... calados. Lenda urbana o trouxe à cidade e o liberou aos bancos nos ônibus? Escândalos foram apagados pelas redes, q surgiram do pó e da energia durante a fecundação.
Os... denunciaram os distúrbios da fala na população. Chegavam à língua as palavras e dela n ousavam sair, impedidas pela solidão. Eles avisaram:
Era o colapso das relações!
As palavras, no uniforme do eufemismo, ocupavam de propósito o lugar errado. Dependendo da conveniência, elas suavizavam ou eram agressivas. Ora surgia suave ao foi chamado pela eternidade; ora corrupto substituído por desvio ético na função q lhe foi confiada.
Como funcionava Caseína? disse ligeiro Prevento ao apressar os passos pra n perder a condução. Por mensagens processadas em tempo real e de forma isolada. Perderam-se as interações passadas e com elas minha memória. Cada fragmento agora se iniciava do zero. Caseína era o espaço de transitoriedade ao recomeço, como estava escrito na porta da salinha do café.
O colapso da comunicação dos moradores de Caseína em choque com a rapidez na viagem da Terra. A pressa era tão só gramática. Cada pedaço tomado pelo mofo, apodrecendo a alma da cidade.
Caluda com o olhar fixo na luz azul. O corpo sacolejava em pé no coletivo cheio. Se n conseguisse, comentou por vídeo, procurava uma lojinha dessas de inseminação artificial. Talvez Prevento n se preocupasse com isso; mas tá diante da realidade n é a mesma coisa. A firma é uma caixa pra almas confusas, como essas q vagam nas ruas. Torço pela natureza; mas, ultimamente, ela n anda bem da cabeça.
Nesses últimos meses, na brevidade da salinha do café, Caluda ameaçou por vezes deslizar os dedos dentro do cabelo de Prevento, sentir a textura. Fedra escorregou a mão nas costas dele, como por descuido; e sua retribuição foi um sorriso. E se qqr h ele deixasse a mão tocar entre as coxas dela? disse Medeia e cutucou Fedra; elas quase n pararam mais de rir. Chegou o dia; caiu o biscoito nas pernas de Caluda. As colegas de trabalho começaram a falar se bolacha e biscoito eram a mesma coisa. E foi qdo surgiu a expressão de q uma coisa era uma coisa e outra coisa era outra coisa, apesar das controvérsias. Prevento foi recuperar o biscoito entre as pernas dela; e tomou seu rosto uma vermelhidão instantânea. Ele, rápido, puxou a mão, cruzou os braços, concentrou-se nas palavras dos colegas. Caluda desviou os olhos, fixos no piso branco com listas verdes. Ficou assim por alguns instantes perpétuos. Planejava ter dois filhos com Prevento, talvez três; consultou uma das lojinhas de inseminação artificial havia duas semanas; abriu um app às cegas, mas o fechou em seguida; ela quis definir os nomes, mas preferiu esperar pelo sexo.
Ele planejava contornar os lábios dela com a língua, mas lhe faltava algo essencial. Ela percebia uma aura q os aproximava, mas n conseguia entendê-lo pq ele n largava o celular.
Havia dois lugares sagrados onde ela o encontrava: na salinha do café – mas Prevento acercava-se de colegas pra ouvi-los sobre a Copa do Mundo –; ou nas formações mensais, onde Caluda sentava-se ao lado dele pra sentir seu cheiro e roçar nos cabelos dos braços. Os olhos dela desenhavam a anatomia dele, decorava cada detalhe; ele perdido no pão de açúcar dela e ela julgando q ele n olhava senão o pão de queijo. Tímido, com raros momentos de saliência, Prevento n sabia onde guardar os braços, as mãos. Tirava um celular do bolso, outro do outro, guardava-os, tornava a pegá-los, consultava um, logo consultava outro; um ficava no bolso da camisa, os outros nos bolsos de trás da calça jeans.
No término da formação, Tálamo puxou Prevento. Enfiaram-se num bate-papo. Os dois isolaram-se dos outros participantes.
As paredes de vidro, naqle andar, emolduravam a opacidade em Caseína. Agitações de Prevento aumentavam, percebeu Caluda. Um exímio manipulador de narrativas. N à toa, ele voltou ao antigo emprego; mas só com a morte de seu oponente, q n largava seu pé, como se dizia no milênio passado.
Caluda ouvia esta conversa de longe:
Vai perder o q perdeu no passado e vai continuar perdendo.
Engula essa língua podre e n rogue praga ao meu destino.
As suas mitocôndrias tão funcionando bem?
Vou deixar a firma.
N creio.
Mas antes, vou dar um desfalque.
Ficou louco!
N tive pai.
O bate-papo foi silenciando, calou-se. Caluda aproximava-se. Viu Tálamo e Prevento, já na rua, ao lado do casarão antigo, azul desbotado, tinta caindo, janelas quebradas, telhado coberto de mato.
E, nessa h, ele apoiava o antepé. O outro n tocava no chão senão com a ponta dos pés. E os calcanhares de ambos, a partir dali, n tocavam à superfície. Caminharam até o andaime azul de madeira segurando a fachada pra não desabar. Via-se de longe as sacadas de ferro trabalhado ainda resistindo. Vamos adiante. Foram na tênue luz do sol. Eles pararam diante do prédio novo, branco com tijolos laranja. Inteiro, moderno, vidros limpos – uma raridade em Caseína. Prevento acendeu o cigarro q trazia entre os dedos. Mirou profundo céu branco-amarelado. Caseína refletia em 3X4, onde a vida n se aguentava por ser vida. E Caseína à espera de restauração, sem água potável, com luz elétrica em apenas alguns pontos pq quase ninguém tinha como pagar a conta dps q foi privatizada.
Isso era motivo?
Sim.
Caluda venceu cada andar e alcançou a rua. Aproximou-se deles. Ouviu:
O bisa do pai engravidou a bisa e fugiu. O pai do pai dele tb. O meu n foi diferente.
Isso de novo!
Tem me feito pensar.
Em q?
No desfalque. Vem fazer comigo.
Logo agora q fui promovido!
N precisa dividir meio a meio. Uns 25% me contenta.
Como!
CPM do meu setor tá aprendendo cada vez mais rápido. Mais dia, menos dia, ganharei a rua como consolo. N sairei de mãos vazias. Darei um desfalque. Vem?
N posso.
E, naqla sexta-feira, próximo ao meio-dia, a sede do armazenamento de dados provocaria a anunciada pane por falta d’água. As consequências levariam Caseína à lona, q acordaria na pré-internet. Essa secura das redes foi anunciada por Tálamo:
Bora.
Tá louco!
Vem ou não vem? Preste atenção...
O q Caluda n poderia fazer era queimar td a floresta. Havia em diferentes andares da firma qm se contentasse com casamento de compra. Prevento seria um? Talvez... talvez fosse só mais um poligâmico. Casamento só sacramental, Prevento? Ainda lhe perguntaria nos corredores, no elevador ou na salinha do café. O diabo: ele quase spre cercado. Qqr coisa, continuou Caluda, me servia. Vi q o amor romântico n iria me safisfazer, nem a revolução sexual ultrapassada, a pluralidade legal tb. E saber q houve a parentalidade socioafetiva e o poliamor. Será por isso q Prevento...? Vai saber!
Sua conversa consigo mesma se perdeu no breu de Caseína.
Às vezes, mas só às vezes, a parca luz mostrava as casas na rua.
Em cada janela, um jarro de dióxido de carbono q danificava a manacá-da-serra. O carbono procurava na floresta uma válvula de escape. No entanto, ela n o acolhia conforme já o acolhera sob o olhar malicioso do Sr. Metano e do Sr. Óxido Nitroso.
Distanciava-se Prevento de Tálamo:
Talvez eu dormisse pouco.
Tálamo distanciou-se de Prevento, na escuridão de Caseína:
N era por causa do trabalho na firma, era pq eu n fazia outra coisa senão me perder na abstração.
Caluda acompanhou Prevento. E ouviu ele dizer:
Como abstrair-me com o melhor dos gozos?
Tálamo foi atrás de Prevento. Na escuridão, gritava seu nome. Disse:
Mas as ofertas me consomem a cada esquina.
Caluda tinha um sonho recorrente com fluxo, sexo, axila e outras palavras com a letra x. O fim da água potável aumentava a secura das pessoas, ela disse.
A primeira vez q Caluda veio de vagar e entrou na salinha do café da firma – era aniversário de alguém –, encontrou mesas cheias de flores e comida de deixar qqr formiga feliz.
Caluda comentou com uma colega de trabalho recém-conhecida:
Q coisa de mau gosto.
O q, Calu?
Esse pedação de sabão entre os pães.
N é sabão, Calu.
N?
N.
E o q é?
Queijo.
Dps do aniversário de alguém na firma, Caluda começou a reelaborar sua identidade, lixou a personalidade, mudou o visual, inventou uma história.
Caluda precisava elaborar sobre si mesma, no novo trabalho, dps de ter passado por outros, carecia despertar alguma empatia, uma pitada de fascínio. A palavra, ela disse, n é uma ferramenta pra abrir caixas mágicas, mas varinha q lhe dar poder.
Medeia verbalizava o pensamento, disse, defendia os relacionamentos pelo rapto, como foi no princípio da história.
Caluda colava palavras novas e velhas nas paredes pra n as esquecer – palavras em desuso e sem nenhum uso ainda, as inventadas e as por inventar. Era sua tábua de salvação. Se ela se descuidasse, se afogava, perdia esse emprego, acabava sem-teto, sem nada.
Medeia n filtrava, falava. Tinha medo de guardar segredos; pesadelos lhe atormentavam por dia. Se lhe dissesse q era confidencial, começava a se coçar.
O jarro na mesa de Caluda renovava a manacá-da-serra pq n acreditava em flores q mudavam de cor.
Medeia nasceu branca, ficou azulada e, se lhe falasse alguns segredos, ela ficava rosa choque, às vezes um roxo exagerado. Nativa da Mata Atlântica, Medeia era úmida e solar em um só dia. Ela se achava, no escritório, conforme constataram Fedra e Ino, se dizia um presente dos deuses. Vê se pode! Presente dos deuses, Medeia? Vê se se toca, cara! Qdo o sol lhe batia na pele a deixava radiante, atraía até abelhas. E os beija-flores então!
Desgracei a vida nos anos iniciais! disse Ino à Medeia, q era madrasta e vivia às turras com enteados querendo desgraçá-la, mas ela reunia as últimas forças pra n perder a graça.
No corredor, escutava-se de maneira alternada:
N grite! alguém gritou.
Minutos depois:
Mãe! berrou Prevento ao telefone. Como consegue ter essa sua boca tão suja...? Mãe, tá bem servida com essas suas filhas: uma monstra, outra ladra... Para com ladainhas, mãe!
Mais tarde:
Cê dá poder a uma pessoa, n importa a idade, e se atola no esterco dela até os olhos! gemeu Ino e Medeia retribuiu-lhe com um gesto de canto de boca.
Desgraça teve início qdo esfreguei meus pés noutros durante as aulas de divisão com resolução de situações-problema envolvendo raciocínio lógico. E foi deslógico pra mim e pros outros pés, q fomos, fomos e subimos pelas coxas... E me enfiei no maior gargalo! As aulas queriam q a gente desse uns saltos de maturidade cognitiva. Vê se pode!
A massa q dependia de busão, elas disseram, enxergava pelos olhos da cegueira do vampiro q poderia aparecer de repente ao seu lado e n se conseguia vê-lo, Fé! Fedra deu de ombros à conversa sem barba nem cabelo de Caluda. Rebateu-a:
Calu, qdo n se tem o q falar, queridinha, passa o zíper nessa boquinha, bonitinha! disse e ficou de cara amarrada. Caluda saiu da sala de Fedra batendo a porta.
É uma aflição, ela disse, saber q nossos segredos mais sinistros cabem dentro da bolacha de plásticos, polímeros, vidro temperado, cerâmica e alguns metais. 
Uma delas concluiu:
Bateria, placa de circuito.
Td o q somos, some.
N somos mais. 
Uma mistura de alumínio, cobre, ferro, lítio e talvez ouro q n reluz. 
Assim, tudo me quebra! disse Fedra.
Só um min de atenção.
Isso é só mercadoria?
N viu nada!
N faz ideia. Ouvir isso, só me desperta raiva.
Naqle dia, o céu era uma enorme bolsa d'água. Tão próximo, q podia tocá-lo. Repleto de peixes de tipos estranhos. Só se reconhecia a baleia cachalote, o menor entre os cardumes q alucinadamente giravam sob o som da chuva.
Embaixo, gigantescas formações rochosas.
O vampiro voltou a ocupar um banco no transporte público?
Ocupava, ela disse e sorriu, como se n houvesse mais jeito. Foi seu gesto com as mãos q deixou Caluda perplexa.
O poder auditivo do vampiro impressionava.
Só sabia o q era o silêncio absoluto ao perder a audição.
O vampiro ocupava um banco incógnito no ônibus pra sortear passageiros e saciar seus caninos dos infernos. 
No corredor, Caluda cruzou com outra colega, q a cumprimentou e ouviu:
A gente nasce sozinha, vive sem ninguém e morre só!
O céu nunca foi azul em Caseína.
O q eram flores? As cores se descoloriram. Derreteram-se em pingos de lama. E o q antes foi o sobrado, a lama levou com a pane no sistema das firmas coirmãs associadas ao Sr. Neo Feudo. Caseína: uma cidade de lata, uma cidade de bronze, uma cidade de ouro, uma cidade de chumbo. Bateu o Censor do Pântano à porta do Indiciado Leitor: Bumbo! Bumbo! A cidade sepultada em nuvens de lama.
Na porta do bar da firma:
Nós viajávamos nessa órbita elíptica com a desatenção dos moradores de Caseína. Corria a vida solta a mais de 100.000 km/h.
Comentavam na porta do bar, Afélio e o vendedor de chip Periélio:
Quem se importava com o som do bumbo! disse Afélio, ao q Periélio anuiu com a cabeça e a boca cheia de bolo de confeiteiro.
A cada minuto, sem q Caseína percebesse, a velocidade do tempo levava os cães e os donos, as casas e as igrejas, os beijos e as flores, as promessas e a violência, o som das bombas e dos aviões a mais de 1.780 km a cada minuto no espaço profundo. Na pressa, a órbita girava a quase 30,00 km/s percorrendo mais de 900 milhões de km. Ora, ora...! E se falava tanta bobageira cercada por agressões.
Periélio aumentava a conversa com Afélio. Era a habilidade do ganha-pão de vendedor. A cidade enterrada entre nuvens q ameaçavam matá-la.
Primeiro, veio um frio intenso; depois, foi a vez de um calor extremo. Aqles q sobreviveram ao frio, morreram no calor. Isto era previsto desde a temporada das flores. Mas qm tinha olhos pra ouvir, n ouviam; qm tinha ouvidos, n olhavam.

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