CALUDA

Contos

Marcello Ricardo Almeida

Caluda caminhava torta entre servidões, becos e ruas. Ela perdeu td o q se conhece por alinhamento. N conseguia, pq esqueceu o jeito de justificar texto.
Fim do outono. Mas n fale alto; ninguém pode ouvir.
Nosso inverno começa hj, como se sabe. Mas n há mais inverno. Como se sabe, nunca se sabe qual é a estação.
Ultimamente, essa gente ficou bem abelhuda; e n se podia falar; distorcia-se, sabe, td.
N sei como será o amanhã da manhã amanhã.
Às vezes, procuro as palavras e n as encontro. N era assim antes, mas agora é.
Ninguém sabe o dia de hj. Talvez n faça ideia.
Q horas? disse a si a caminho do ponto. Caminhei no escuro por quase meia hora.
A vida era calma.
Passava um rio na minha rua. O rio foi devorado pelo esgoto. A rua perdeu as cores, exceto o asfalto. Caseína aboliu as praças. Desde qdo?
A imagem da rua era um borrão.
Dizem, n sou eu quem diz, q as vítimas do vampiro ganham o poder de enxergar no escuro, mas perdem o direito de ver as cores e passam a avistar td em pb.
Caluda via os ônibus se aproximando. Eram ônibus? Pareciam outra coisa no asfalto. Ela procurava a palavra exata; essa lhe escapava feito jundiá.
Os ônibus eram uma mancha roxa num lençol azul q cheirava a lavanda.
Desde quando Caluda perdeu o poder da palavra? N sabia. Buscava nas cavernas da lembrança; n achava nenhuma luz.
Os parágrafos foram abolidos; os sinais os seguiram na malha apodrecida. O olfato n lhe revelava como costumava revelar; e td só cheirava a lavanda entre os prédios de vidro e ferro fundido na cidade neogótica de Caseína.
Um borrão – uma mancha na parede – os ônibus.
A opinião superou o fato; ele perdeu a fé e foi suplantado pelas vozes sem senso crítico. Era o reino da opinião. A consequência devorou a causa.
Os olhos dos usuários, Caluda via-os, dependentes do transporte público e invadidos por moscas volantes, às vezes; quase sempre piscavam na tentativa em livrar-se delas.
Passavam nas janelas arranha-céus velozes. Os usuários do transporte público viam aranhas velozes q surgiam à esq e à dir, formigas gigantescas q passavam com pressa nas janelas do ônibus.
Lia-se em cada uma das laterais abaixo das janelas dos ônibus: “Minta à vontade, pq mentir é alentador.” No vidro vigia: “Qq verdade provoca malefícios.”
Não abandonava Caluda a imagem de Prevento. Ela o conheceu na sala do escritório. Prevento sempre apressado. Caluda via-o de baixo pra cima; sorria-lhe e o sorriso n era facilmente retribuído. Nada, disse, era mais radiante do q participar desse espetáculo.
Acordar n era um castigo.
O letreiro quase apagado; cada qual com um itinerário, disse Caluda a si mesma, como fazia td manhã àquela hora.
O sol longe, não dava o ar da luminosidade, e n havia um ponto de ônibus vazio; tds cheios à boca de passageiros q se olhavam, q olhavam os bolsos, o celular, q se olhavam, q olhavam os faróis na esperança de q o próximo era o seu.
Uma tripa de busões passando abarrotados! lia Caluda nos itinerários o destino, e tinha medo. Tive em todos aqueles lugares. Tantos escritórios, tantas salas. Tive em todos eles. Ultimamente corrigia dicionários e enciclopédias pro Universo Digital S.A. Via aquelas pessoas ajudando as máquinas a responderem qqr tipo de pergunta, sem conseguir outro meio de transporte q n fosse o busão.
Há algum tempo, a palavra n lhe pertenceria mais.
Caluda viu os pneus deslizarem no asfalto novo, largo. Ela viajava entre os infinitos blocos espigões de vidro e ferro fundido.
Nos busões, usuários “atentos” evitavam bancos q tivessem com um lugar vazio; levavam o trajeto em pé. Caluda sabia, mas n abria a boca; qqr comentário era crivada por chacotas. Alguns recebiam queimaduras, ficavam com o rosto em brasa, outros perdiam a lembrança. Muitos eram chamados de loucos pelo simples motivo de falar q havia vampiros nas ruas de Caseína.
Caluda nunca mais aceitou sentar-se, nem q as pernas tremessem, nem q o corpo tremesse, nem q sentisse q fosse cair de cansada. Ninguém merecia ser chamado de ignorante em plena Era das Ferramentas onde td se encontrava à mão. Caluda n se considerava supersticiosa, mas evitava passar por baixo de escadas. Evitava ao máximo descer do coletivo vendo td em pb.
Havia uma energia caótica na cidade desde os primeiros a verem a cidade em pb. No início, qm denunciou foi ridicularizado, virou chacota em casa, na rua, no bairro, na escola, no trabalho. Ninguém queria ser uma mosca, e viver só. A necessidade em viver em grupo obrigava a vítima a ficar em silêncio.
O preço do respeito, disse Caluda, era o silêncio. A notícia corria como folclórica, invenção de lugares atrasados. As opiniões levaram à morte os fatos por asfixia social, disseram os antropólogos.
Na sala do trabalho, Caluda encolhia-se presa ao silêncio com o espelho à mão pra ver se ainda se via.
Tornou-se difícil compreender q o mundo era outro.
Vampiros nos busões à plena luz do dia era conviver numa realidade sem regras. Enqto n se aprendia a viver.
Prevento, disse Caluda ao espelho, desse jeito em mim. Era o jeito dele olhar, mas n sabia q fosse.
O mundo regressaria à época tribal?
Talvez vampiros, disse ao espelho, fossem apenas uma lenda urbana. Amantes q exageraram pq se sentiam bem sendo intensos. Talvez fossem só exploradores da realidade, q usavam o busão pq queriam se libertar, romper com a ordem. Talvez só a presença de qm se pergunta em q pode ser transformado, e o q faz o fraco ser forte.
Tavam ali o sujeito q conheci e o obj conhecido. Caluda viu q o busão se aproximou numa tripa de outros com diferentes destinos; ergueu o braço.
O lotação parou. Portas. Gente. Pressa. Apertos. Uns desceram, outros subiram. Embarcou Caluda. Desconfiada, por óbvio. Qdo eu ganhar 1.000.000 não andarei mais de busão. Eu jogo todo dia. Será q n esqueci de fazer a fezinha da semana? Eu vou ganhar.
Como é esse vampiro, Calu? disse uma amiga de Caluda, q apareceu no espelho em sua mão.
N vi, n sei, n quero saber, amiga.
Ouvi dizer q ao sentar-se, ele aparece...
Do nada... ou já tá ali?
...Como vou saber! fez cara de paisagem.
E ninguém desconfia?
Ninguém... até agora.
E depois ele sai voando?
N faça piada.
E como imagina q é.
Dizem q sentir n sente. 
É?
Como um vento.
É?
Toca em vc e, mais tarde, vc só percebe qdo alguém aponta os buracos em seu pescoço.
Por isso essa moda de andar com a gola alta?
Vai saber!
Alguém tirou o fone de ouvido. O celular disparou:
O rio é vida. Ou a vida: vento? Vento. Feito árvore, que é vida sendo vento.
Vento?
E os fungos vivem lentos.
Lentos?
Nas cascas das árvores: vento.
Vento?
O homo sapiens descobre-se vivo.
Vivo?
E a vida cabe a quem sabe.
Quem sabe...
Que a vida passa, e volta.
E volta?
Caluda buscava uma janela mais próxima, empurrava, tentava passagem, pedia licença aos passageiros. Pela vigésima vez ela apoiou a testa na vidraça, q parecia um pote de sorvete.
A luz azul iluminou o rosto pálido de Caluda. Mostrou-lhe números. Ela viu q tava atrasada. Os números, como se zombasse dela, sem tique-taque.
Caluda rolava o dedo na tela. Protegia o pescoço. Olhava os lados.
O peito em choque. Caluda parou atraída pelos primeiros acórdãos de “Alabama Song (Whisky Bar).”
A respiração de Caluda foi interrompida na garganta. Ela caminhava torta entre servidões, becos e ruas de Caseína. O vazio gelado no estômago sempre lhe acompanhava àquela hora da manhã.
Vou perder de novo o busão, disse, se n apertar o passo. Caminhava torta entre servidões, becos e ruas.
O celular apagado no bolso. No ponto, Caluda repetia:
Talvez.
Onde quer que Prevento tivesse, o atraso dele carregava o escuro àquela hora da manhã nas servidões, nos becos, nas ruas, naquele ponto de ônibus. O minuto viajava na velocidade da luz e atravessava a eternidade dentro do peito de Caluda.
Prevento combinou aqui.
Na sala do escritório, a xícara de chá fumegava. A xícara de chá gelou. O minuto atravessava a eternidade na velocidade das palavras q se perdiam dentro de Caluda na frente do teclado à medida certa dos dedos longos, cheios de anéis e tatuagens.
Porra, q é isso! N é vampiro q se esconde em becos escuros à espera do alimento. É um merda q escolhe vítimas dentro da porra dum busão. E ninguém pode falar...
Lia-se na placa luminosa em todas as entradas do município de Caseína: “Antes de atravessar a linha divisória dessa terra, abandone definitivamente toda a verdade q a conhece.” Ao sair, a ordem era q levasse toda a mentira q pudesse e a espalhasse no alto do primeiro monte em um dia de vento e sol.”
Qdo n encontrou Prevento no ônibus no qual embarcou, Caluda disse:
Talvez tivesse no outro.
Dentro do ônibus, disse Caluda àquela luz azul em sua mão:
E se Prevento fosse outra vítima? E se eu descesse do busão e esperasse o q vem dps? Chegaria atrasada. Perderia o emprego.
Foi-me dito, na semana passada, q, se chegasse àquela hora, o olho da rua me acolheria por justa causa. Deixasse Prevento. Conversaria com ele dps.
P q Prevento nunca atende? N sei pra q três celulares! Talvez, Prevento, o suj e o obj sejam um em situações opostas.
O ônibus cortou a rua do prédio neogótico de vidro e ferro fundido. Ali, vive o Prevento de dedos curtos e grossos, de unhas bem aparadas. Guilhotinas de papel e grampeadores, as cobranças de centavos por páginas exigidas pelo senhor atrás do balcão.
Calu, eu perdi a hora! diria, mais tarde, Prevento.
Caluda riu. Em pé. No ônibus cheio. Respirou o cheiro de curtidas, livros, validação de conteúdos e uma generosa dose inebriante de dopamina. Prevento marcou de me encontrar aqui ontem. Anteontem foi a mesma coisa.
Prevento via em Calu o pão de açúcar. Ela só tinha olhos pra altura dele. Ele perdia-se no arvoredo dela. Os ideais de Calu acompanhavam o voo dos pássaros, mas eles já n existiam, como costumavam existir no milênio passado. A manhã nasceu com a luz q parecia uma nata nos olhos. 

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