Começou. Pampãram. Pampam. Pampãram...
O rio é vida. Ou a vida: vento? Vento. Feito árvore, que é vida sendo vento.
Vento?
E os fungos vivem lentos.
Lentos?
Nas cascas das árvores: vento.
Vento?
O homo sapiens descobre-se vivo.
Vivo?
E a vida cabe a quem sabe.
Quem sabe...
Que a vida passa, e volta.
E volta?
O rio viaja em sua viagem. E a árvore em folhas se desbota.
Se desbota?
Viaja a árvore em frutos, alimentos.
Alimentos?
O rio é vida. Ou a vida: vento? Vento. Feito árvore, que é vida sendo vento.
Ao som de trinca-ferros morreram todos os ferreiros. Era uma cidade neogótica feita de ferro, sem nenhum ferreiro.
Guilhotinas de papel, grampeadores e as cobranças de centavos por página se multiplicavam atrás do balcão.
O pensamento original, na cidade neogótica feita de ferro, era substituído por cópias borradas num processo contínuo atrás do balcão.
Na cidade, ninguém conseguia dormir porque a noite era fatiada por curtidas, validação de conteúdos e cobranças de monetização contínuas, joinha, corações e superchats y lives.
O ruído das folhas. O feixe de luz lambia a máquina. O fedor de toner.
Outros prédios em torno do prédio no fim da rua apodrecem em câmera lenta.
Senhor... o isolamento e o derretimento cerebral não são exclusividades desse nosso lugar, senhor...
Tô inclinado a concordar.
Tudo começou nesse prédio. Fiquei reduzido desde ontem ou anteontem a deslizar o dedo num feed o tempo todo, senhor...
À procura de quê?
Um gênio que concretiza desejos.
Ali tem uma lotérica. Ela não lhe satisfaz?
O prédio com cara de tobogã. A estrutura mimetiza o pensamento fragmentado dos moradores permanentes e daqueles provisórios, que são muitos.
O prédio não dorme. Bombardeado por estímulos visuais. Os informativos dos passos, de tosses, gemidos, dos gritos dos seus moradores ameaçando chamar uma viatura, mas ela não vem porque ñ tem combustível.
Parece q a vida se tornou isso, senhor....
Isso?
Dopamina do texto que se recusava à linearidade confortável.
Atrás do balcão, aquele chamado de senhor testemunhou o colapso moral ao redor sem esboçar reação a tempo. Agiu feito o espelho às suas costas; anestesiado pelo fluxo contínuo de absurdos nos corredores do prédio.
As pessoas ñ querem mais andar de busão, senhor...
É o q falam.
Ouvi dizer q isso nunca foi inédito. Tô falando. Em nenhuma parte do mundo.
Vai saber!
O cara vai de busão, e ñ sabe se volta.
Fedor de café barato requentado em toda parte do prédio. O porteiro empurrou uma mala com o pé com a habilidade da letra, no futebol; ele não enganou com esse esforço antes de chutar.
Bom dia. Casa cheia, porteiro.
Ignorou o porteiro do prédio; desvalorizou o meu bom dia. Interpretei isso com a lembrança dos Salmos, 14:1, 10:4 e 53:1, porém a interpretação sequer alcançava o q cada qual queria ver. O movimento no saguão do prédio era nervoso.
Senhor... v só vê o q quer ver.
Isso ñ era isotopia?
Era.
Como v pode falar q é!
O naturalista acabou se naturalizando.
No prédio, toda a extensão térrea ocupada por lojinhas com paredes de vidro. Num lado, havia pizzarias e abarrotadas mesas e migalhas de restos no chão. E no outro, a conhecidíssima Casa dos Neons. Açougue. Conserto de eletrodomésticos. Alfaiataria. Venda de celular. Tabacaria. Manicure. Cabeleireiro. Cafeteria com mesas vazias. Moda íntima. Papelaria. Restaurante com garçons à porta. Padaria. Lotérica. Venda de passagem.
Entre os 64 andares, a metade apartamentos e a outra depósito. Na metade dos 32 andares, mais lojinhas.
No térreo, atrás do balcão, o senhor perguntou:
Soube?
Se for o q tô sabendo...
Era um rapaz ou uma moça... Puxava quem sentava ao lado com a rapidez de uma víbora e nhac! croc! crunch! descrevia como se representasse. Slurp! gulp! chup! schluup! nham! Vai saber! Provavelmente... na jugular.
E agora?
Ñ saio mais sozinho.
Tendi.
Imagine um vampiro no ônibus. Meu Deus, fomos abandonados!
Quase sempre, eu me vejo prisioneiro perpétuo desse prédio.
A mim é diferente. Ele parece devorar gente; nunca vi caber tanta. O pior: nem todos os que entram, saem.
O prédio ñ representa futuro distante; é o presente deglutido pela massa e pelo esvaziamento. Mesmo com o vaivém de apressados, e o ir e vir dos atos de comércio. A juventude, q desce e sobe, entre o subemprego e a educação mercantilizada, ilustra a automatização na porta da lojinha, que comercializa estampas em camisetas, lápis, borracha, grampeador, canecas...
Tudo é cópia. Copia. Cola. Entra. Sai. E a fotocopiadora, na entrada do prédio, segue com as tarefas às quais está habituada:
Crédito, débito ou Pix?
Uma janela fechada. Ela abriu os braços pra sentir o cheiro da manhã.
As pessoas não conseguem se conter.
Atraídas pela cidade; parecem insetos na luz do poste, aposto.
Vi a sombra do desconhecido. Parecia transmimento de pensação.
O dia só tinha a janela.
Aproxime o celular da tela, por favor.
Assim?
Mais próximo.
Os primos Luciferina e Luciferato estavam entre um portão e outro do Cemitério Ortográfico, a duas quadras do prédio.
Trouxe o que pedi?
É isso aqui?
Só isso?
Queria mais?
A cidade Caseína cobrava o preço da nova estética na umidade condensada, cheia de regras rijas. Só a viagem na velocidade da luz interrompia a passagem do tempo. A nuvem orográfica foi adotada como camisa-de-força.
“Vou embora, vou embora... Ai, ai, ai, vou embora a qualquer hora” – diz feliz o passarinho em alvoroço: “Vou embora.” O passarinho, quando encontra a borboleta, o passarinho nunca sabe. O que diz? O passarinho fica tão alvoroçado, pobrezinho, o passarinho novamente está feliz. “Vou embora, ai, ai, ai, vou embora... Vou embora, ai, ai, ai, vou embora...” O passarinho arrodeia a borboleta. O passarinho oferece rosas. A borboleta arrepende-se cada vez ao aceitar do passarinho essa prosa. Vou embora, vou embora... Vou embora. Ai, ai, ai, vou embora... Vou embora, vou embora, vou embora.” A borboleta, quando encontra o passarinho; se desiste de ir embora, o passarinho cerca a borboleta, solta o bico, assanha as penas e não demora. Vou embora, vou embora, vou embora, vou embora. O passarinho depois diz: “O passarinho fez da borboleta o que quis!”
A vida vai... Pirlimpimpim. A vida vai tocando o samba para mim.
A vida vai tocando o samba tamborim.
Tudo o que começa, termina... Terminou. Essa hora amanhece; em algum lugar amanhece. Mesmo que se duvide, amanhece. Nesse momento de amanhecer. Talvez se duvide, mas amanhece. Sempre há algum amanhecer. Dentro do escuro amanhece. Amanhece, como a luz é feita de amanhecer. A essa hora, amanhece; mesmo que se duvide, amanhece. Nesse momento de amanhecer. Tudo o que começa, termina... Terminou.
NO FIM DA RUA
ContosMarcello Ricardo Almeida 14/06/2026 - 23h 35min
Comentários