Pe. Adauto cidadão honorário de Santana do Ipanema (*)

Outras Peças Literárias

Pe. Adauto Alves Vieira

Refere-se na História do povo hebreu, o antigo Povo de Deus, que este, para celebrar um pacto, fazer uma aliança, usava o sangue de alguns animais oferecidos em sacrifício. Duas pessoas que queriam fazer um juramento recíproco de fidelidade tocavam com as mãos o sangue das vítimas e, deste modo, tornavam-se irmãos. Era como se, a partir daquele momento, corresse nas suas veias o mesmo sangue e a mesma vida: consideravam-se membros do mesmo corpo. Destarte, os sofrimentos e as alegrias de um eram partilhados pelo outro.

Se nos tempos mais remotos tais sacrifícios geravam vínculos, tanto mais profundo, fecundo e salutar é o vínculo que se estabelece no altar da Eucaristia, pelo qual, eu, como vosso pastor que fui, unir-me a Cristo, oferecendo, outrossim, para que a vida do Eterno fosse vida em vossas vidas. Ademais, esta nossa comunhão, a qual continua a nascer de Cristo, tem sido alimentada pela oração, pela fraternidade, pelos mesmos ideais, pela busca da verdade e do bem, enfim, por tudo o mais que está relacionado à dignidade humana. Somente assim, haveremos de compreender a largura e a dimensão do significado: “O amor de Cristo nos uniu”.

Partindo do termo cidadão e mais ainda, cidadão da vetusta Santana do Ipanema, metrópole da mesorregião, batizada com o termo homônimo, expresso-me em meu nome, assim como em nome do querido coronel Gilvan Alves Pereira; outrossim, meu conterrâneo, com quem (ou ao lado de quem) recebo tão grande honraria. Expresso-me, pois, com um dizer de Sêneca: “Nemo patriam, quia magna est, amat, sed quia sua”,ou seja: ninguém ama a sua pátria por ela ser grande, mas a ama por ela ser sua.

Deste modo, faço minhas as palavras contidas de maneira poética do hino desta terra querida, a qual sempre amei, desde que ao solium de Senhora Santana pude tomar assento como cura do Povo de Deus, frente a quem pude apascentar por um período de oito anos e meio. “Sou santanense até morrer”. Amo Santana do Ipanema de coração. Trata-se de um amor pátrio, tanto quanto amo o meu torrão natal, São José da Tapera, e agora, Delmiro Gouveia, terra querida, onde estou há dez anos, da qual também sou cidadão honorário.

Cidadão é um vocábulo procedente do latim, de civis, civis, substantivo masculino, (o qual significa) cidadão e cidadã, referindo-se a membros livres de uma cidade (civita, civitates), à qual pertencem por origem ou adoção, como hoje acontece comigo. Agora não sou um transeunte, tampouco um estrangeiro. Para vós, santanenses sou um concidadão. Já o termo grego define cidadão como sendo o sujeito pertencente à Polis (cidade), de onde vem o termo político. Daí afirma Aristóteles, grande filósofo socrático (sec. IV, III a.C.): “o homem é por natureza um animal político”. Isto é, um ser que nasce para viver em sociedade, um ser social, portanto. Para o contexto bíblico neotestamentário, sobretudo, para o apóstolo Paulo, na sua carta aos Filipenses, somos cidadãos do céu, enquanto filhos de Deus, enquanto cristãos. Tal cidadania é garantida pelo sacramento do batismo. Assim sendo, por este sacramento, além de filhos de Deus, tornamo-nos de igual modo, herdeiros dos céus, do Reino infinito de Deus, cidadãos do infinito.

Sou cidadão santanense. Isto me deixa lisonjeado por demais. Os filhos desta amada mãe gentil, assim o quiseram. Se então em diante, assim serei contado um entre vós, amados concidadãos, isto é motivo de grande enlevo.

Referindo-se ao termo cidadania, reportar-me-ei agora a um antigo documento da Igreja Antiga, a carta a Diogneto. Nela se lê: “Toda pátria estrangeira é pátria dos cristãos, e cada pátria é lhes estrangeira”. (carta a Diogneto: Padres, Apologistas, pág. 23). Pois bem, aqui aportei em 04 de fevereiro de 2008, numa segunda-feira de carnaval. Sentia-me naquela ocasião como um peixe fora d’água. Era um estrangeiro pisando em solo desconhecido. Entretanto, carregava comigo a certeza de que o solium da excelsa Senhora Santana, seria minha nova pátria, onde, como cura, deveria pôr em prática o meu lema sacerdotal, In Christo Pascere (“Apascentar em Cristo” extraído dos sermões de Santo Agostinho. Aqui, procurei formar profícuo o meu paroquiato, adotando, outrossim, como o meu amor a porciúncula que naquela ocasião me recepcionava como seu mais novo pastor.
Ser cidadão de Santana, título, agora corroborado nesta Casa do Povo, por aqueles que aqui nos representam, os senhores vereadores.

Aqui quero externar a minha imorredoura gratidão àqueles que, tanto quanto eu, gostaria de me ver contemplado com este título. São eles: Ademar Falcão Costa Júnior da Mais Mármore, José Malta Maltanet, Maria da Luz e outros mais. Sem deixar jamais de fora a querida vereadora Fofa.
De igual modo, ao Excelentíssimo Vereador Genildo Bezerra da Silva – Papa Tudo, a minha eterna gratidão, bem como aos demais vereadores daquela ocasião, que, por unanimidade votaram favoráveis a tanto.

Agradecimentos outros: ao Pe. Aderval Rodrigues Ferreira. Santaneses presentes, taperenses e delmirenses

(*) Discurso proferido na Câmara Municipal de Santana do Ipanema quando do recebimento do Título de Cidadão Honorário, em 28 de maio de 2026.

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