E, finalmente, a artista plástica recebeu o convite do cobiçado Salão para expor os seus quadros em Paris? Zémambembe, que nunca gostou das pinturas de Simplicidade, lhe improvisou em voz rítmica de quatro versos heroicos (com sílabas fortes na 6ª e 10ª), dois últimos sáficos (na 7ª e na 10ª) em decassílabos:
Se o poema nascesse da represa,
Feito um copo que se enche de vinho,
No mundo louco, médico e poeta,
Toda essa cidade, por fim, presa;
E quem ficasse veria o que resta:
Versos jamais andariam sozinhos.
Quem junta palavras, rimas e métricas?
Ó quanta ousadia! Diz-se poeta.
Acha poema amontoar palavras,
Desconhece por completo a estética.
Corrói o gênero, pois nada lavra.
Esse canto não tem nenhuma meta.
Peço que preste atenção, seu cantor.
Viva a Poesia de Cordel!
Só ara verso a lâmina de arado.
Observe quem é de fato um feitor.
Antes aprenda qual é o seu papel
Nesses seus versos de pé-quebrado.
Eu não consigo sequer imaginar, Zémambembe, de onde você tirou que eu apareci nos portões do casarão lhe oferecendo quadros. Nunca fui pintora, porque, simplesmente, não tenho nenhum talento pra desenhar um caniço que clama no deserto, nem conheço as cores. Apareci, na Rua dos Quebraqueixos, igual a outras crianças vendedoras de frutas e doces pra evitarem a fome na família. Evitava o longevo casarão, pois a Vila de São Gabriel pedia aos pais que evitassem que as crianças passassem na frente do casarão do Labzomi. Seu pai foi Labzomi, seu avô Labzomi, o avô do seu avô Labzomi, desde os primeiros moradores da margem do rio, todos evitaram vocês Labzomi. Mas fui tragada pela Vovó Velha, e cá estou no colo da crueza dessa família, entre as grades que protegem o longevo casarão.
Aviso-lhe já. Os olhos do tempo rasgam a vida como quem canta. Pessoas perguntam-se o porquê da Vila. Atravessei o rio. Mas por que a Vila não goza das riquezas tantas feito as de São Paulo ou mesmo do Rio? Não sou puro egoísmo, Zémambembe, nem gananciosa, como a mulher mais amada do Brasil.
Simplicidade, disse o tio Zémambembe, Joça, se continuasse na ilusão de vender quadros de quebra-queixo, não chegaria à próxima rua.
A Vila de São Gabriel era repleta de povo. Não havia povo igual ao da Vila. Você que implica tanto, Joça, sabe ou não sabe, que não faz muito, essa gente vivia em cavernas e agora olha pra cima e vê estrelas. Querendo dizer o quê? Tem algo de podre na cozinha do casarão.
Não me acuse, Dona Babélica. Isso vem das profundezas; esse é o cheiro da absoluta liberdade de cada um para consigo mesmo. Quer uma prova? Basta olhar os romances dos romanos, sua imoralidade e suas orgias...
Olhar o quê, Joça? Olhar a Bastilha? E foi pra isso, Joça, que você me pediu emprestadas as minhas aulas de História antiga?
Não há mais a descoberta de novos mundos. Como então estar seguro das coisas do mundo? Sabe, esse bacurau me lembra o compadre Zé Jhop Bolha, tio da tia do seu tio, e o pai dele que, velho, cobriu-se de glórias e fortunas, nos seus sonhos, no outro lado do rio.
Esse bacurau, Joça, habita só a periferia desse sertão mágico, fabuloso. É preciso transpor o rio, minha menina bobinha, alegre e serelepe.
Além do rio, Dona Bagatela, onde se encontra água doce? Vi na margem do rio, um pai mostrar o rio aos filho e eles perguntaro o que era. O pai apontou a floresta e os filhos perguntaro se era visagem. E quando voou um bacurau eles esfregaro as mãos no ar pra mudar a imagem.
Sabe como me sinto, Joça, um peixe fora d’água. Não só transponho esse rio atrás do casarão, mas voo cada vez mais longe e corro cada vez mais riscos.
Joça olhou pela janela. Preservou o silêncio da tarde.
Pense no Bucéfalo de Alexandre, Joça, no Incitatus de Calígula, Joça, e o soluço se vai nas águas do rio. Afinal, Joça, todos os seres redondos, no dizer de Aristófanes – com duas caras, quatro pernas e quatro braços – homens duplos, mulheres duplas, seres mistos tentando escalar o céu feito esse bando de bacuraus, e, punidos, divididos em dois, cicatrizadas as feridas, desde o início, cada metade procura a outra, e quando se encontram querem recuperar a unidade.
Dona Babélica!
Joça, você considera a aparência física ou o que se esconde por dentro do seu dente em estado de absoluta miséria? Se a aparência física contasse, eu e Sócrates quebraríamos os espelhos.
Dona...
Eu prefiro, Joça, caminhar na beira do rio onde me sento nas pedras, entre as lavadeiras do bairro, e alimento pardais olhando serrotes.
Meu signo é Peixes.
O peixe preferido do meu Cheshire é aquele que o meu dinheiro compra, na Peixaria da Alice. Joça, me responda sem pensar: Um banco de três pernas, quantas pernas tem? Todo mundo tem que carregar o seu pedaço de inutilidade, e tudo é mesmo intolerância, violência e iniquidade. Sabe o que existe: o doente, o arrogante, o vaidoso, o hipócrita, o cínico, o bajulador, o medroso, o fanfarrão e o bobo.
Dona Babélica, quando passa da hora do café, fica assim...
Assim como, sua enxerida!
Assim.
Quem sou, afinal, quem é o bacurau que se desgarrou do bando, e, afinal, quem és? Você, Joça, nunca se perturba com nada. Já eu prefiro a intimidade dos miúdos dos meus ideais políticos dentro das minhas economias. Eu, quando não sou fleumática, sou sanguínea, quando não, sou fantasista, senão colérica, apática.
Dona...!
Eu, Joça? Sou só personagem, uma coisa inventada por alguém. Alguém bem desocupado. Alguém sem ter mesmo nada, me faz ninguém. Esse bacurau isolado parece ser dono do seu nariz, coisa que eu não sou.
O café, Dona Bag...!
Que há de imoral em sermos personagens? A loucura está em toda parte, sempre personalizada. É tudo a mesma loucura; e o que está pensando agora? Em nada. Penso em você, tio Zémambembe. Penso em você, tia Simplicidade.
O café vai esfriar, Dona Bagatela.
Esse jogo, Joça, não, não me agrada, e a liberdade é inalienável, mas a tragédia é sempre mais atraente. A unidade geométrica fundamental ainda é o triângulo? Nem mesmo João-Sem-Terra e os seus barões para sanarem o que fizeram com o dinheiro. Tia Simplicidade, com disciplina espartana, porque dizia ter parentesco com Esparta, foi a primeira cristã. Acompanhou os seguidores do Filho do Homem com os primeiros cristãos em Roma. Tia Simplicidade disse ter visto em sonho todo o seu passado e as encarnações e reencarnações. Em uma das vidas passadas, a tia salvou o tio, vítima da disciplina e da hierarquia. Joça, Joça, a tia com os seus sonhos de um tio soldado, marinheiro acostumado ao sal, com soldos polpudos por lutar em oceanos enormes, travar gigantescas batalhas, promover guerras à vontade, pilhar, guerrear mais e melhor, ferir pessoas, receber medalhas e honras, ser extravagante e rico a perder o controle das suas riquezas gastas com as pedras que ergueram os casarões nesta Rua dos Quebraqueixos. Imagine, Joça, imagine esse mundo sem dinheiro. Amo o dinheiro acima de todas as coisas; quero provar o não provado, fundar reinos, impérios e transformá-los em nações. Povoá-los com alface, repolho, couve-flor.
Seus biscoitinhos amanteigado, Dona Bagatela.
Lembrar-se de tudo isso só me traz fome.
Fome? Então... Coma, Dona Bagatela, coma.
Não posso.
Por quê?
Isso me faz lembrar do tio, que passava fome, e logo eu sou acometida por uma lufada de saudades.
ZÉMAMBEMBE: Liberdade! Eu não sei. Sou livre, livre.
DONA BAGATELA: O senhor fugiu? Em sua cabeça tem uma coisa estranha.
ZÉMAMBEMBE: Estão nascendo caroços. Né mesmo? Não. Tem um espelho? Quero me ver no espelho. Você se aproxima do perigo uma vez, duas; até a hora em que não tem mais como voltar. O perigo atrai perigo. Se a vida quer mais vida, sempre mais vida; a morte quer a morte; escuridão busca a luz e a luz escuridão.
Diminua essas luzes, Joça. Congelaram-se os meus pés. Quem está ali, Joça? É o tio Zémambembe na cadeira de palhinha? Diminua aquela luz, Joça. E quem são essas três mulheres? Reconheci. São as lavadeiras do rio.
PRIMEIRA LAVADEIRA: O pinheiro plantado
No Natal dá presentes
O ano inteiro.
SEGUNDA LAVADEIRA: Uma manjedoura.
Dezembro iluminado.
Há luz no estábulo.
TERCEIRA LAVADEIRA: O grilo na palha
Falou, quando Jesus nasceu,
O povo crucifica até Deus.
Ó Joça, traga rápido café também pro tio Zémambembe, que acabou de voltar da guerra. Corra, Joça, ajude o tio a depor as armas.
ZÉMAMBEMBE: Ouviu isso? Igual fotografia: o dia amanhece e logo se apaga.
DONA BAGATELA: A tia chega já, e não vai gostar de vê-lo aqui.
ZÉMAMBEMBE: Ela não precisa saber, Bagatela, que eu fugi.
DONA BAGATELA: Mas, tio Zémambembe, na véspera do Natal?
ZÉMAMBEMBE: Silêncio, sobrinha; silêncio. Amanhã será Natal?
DONA BAGATELA: Natal. Tempo de presente.
ZÉMAMBEMBE: Parece que ouvi qualquer coisa. Acontecem coisas no Natal.
DONA BAGATELA: Tia deve tá chegando. Ouça seus passos.
ZÉMAMBEMBE: Vou aonde? Me esconder! Ela vai me perdoar; é Natal.
DONA BAGATELA: Ela me bate se descobrir que lhe escondi.
ZÉMAMBEMBE: Não posso mais voltar pra lá. É ruim, muito ruim. Ninguém conversa comigo. Tudo é triste, é triste, triste, Bagatela. Não aguento mais. Venha, venha, sobrinha; dê um jeito nessa tua tia. Dê, dê, dê.
DONA BAGATELA: Rápido! Rápido, tio!
ZÉMAMBEMBE: Cuidado! Cuidado! Cuida!
DONA BAGATELA: É ela quem vem.
ZÉMAMBEMBE: Está chegando do mercado? Eu não tenho medo dela. Nem um pouco, nem um pouquinho. Nesses braços, nessas pernas, nessa cabeça, nesses olhos corre o sangue da Baronesa Kuaanddussiphoddenn. Queres acaso saberes o porquê dessas caminhadas de Simplicidade? Não digo. Ela adora o mercado, é? Eu sei. Foi ao mercado? Não. Veio do mercado?
DONA BAGATELA: Do mercado não. Da escola. Agora ficou diretora.
ZÉMAMBEMBE: Ganhando mais, é? Tenho medo disso. Onde me escondo?
DONA BAGATELA: Não, não. No meu quarto não. Ela descobre.
ZÉMAMBEMBE: Está metendo a chave na porta. Ouça, ouça, ouça.
DONA BAGATELA: Venha cá, bonequinha feia. Odeio você!
TIA SIMPLICIDADE: Hoje eu rodo a baiana! Que foi, menina?
BAGATELA: Nada, não, tia Simplicidade. Nada, não. Nada.
TIA SIMPLICIDADE: Nada?
BAGATELA: Nada.
TIA SIMPLICIDADE: Que está fazendo, aí, desse jeito?
BAGATELA: Nada.
TIA SIMPLICIDADE: Quem nada é peixe.
BAGATELA: Nada, não, senhora.
TIA SIMPLICIDADE: Havia alguém, aqui, com a senhora, Bagatela?
BAGATELA: Al-alguém ti-t-tia Sim-Simplicidade? Não senhora.
TIA SIMPLICIDADE: Não minta pra mim. Não minta, Bagatela! Ouvi vozes.
BAGATELA: Não havia ninguém, tia Simplicidade. Juro. Era minha boneca.
TIA SIMPLICIDADE: Vai apanhar na boca se jurar. Aah...! Hã-rã! Não havia? Está certa disso? Vamos, não fique aí. Largue essa boneca ridícula. E venha me ajudar. Preciso guardar estas compras. Estou de braços moles. Não é fácil carregar todo esse peso com a minha idade. Ai, meus braços! Bagatela, pegue esses livros. Que é que a senhorita está fazendo? Mas, nem pra isso serve, Bagatela? Varreu a casa? Passou pano no chão? Alimentou as criações? Foi buscar água? Tirou a poeira dos móveis? Não quero acreditar. Olha só! Solta essa boneca ridícula, Bagatela! Não vou falar outra vez.
BAGATELA: Boneca, um dia, eu vou crescer. Um dia, eu tive, como você tem agora, 3 anos e meio e, depois, cheguei aos 5 e meio. Tenho oito. Vou pular pros 19, quase 22 e, depois, quando chegar aos 30 e mais, 40, 50, 60, vou ser dona do meu nariz. Ninguém vai mais olhar pra mim, eu com 80 anos de idade, e dizer que eu não sou flor que se cheire. Se eu puder, se eu envelhecer, ninguém mais vai bulir com você, minha bonequinha.
TIA SIMPLICIDADE: Parece lagartixa sacudindo a cabeça em cima do muro. Ah, uma pedra, aqui, agora, e eu te acertava o juízo, menina! Se fizer as suas obrigações, basta responder: “Fiz, sim, senhora”. Mas se me desobedeceu, sabe o que te esperava. Não sabe? Sabe, sim. Preste mais atenção ao que te digo, menina. Olhe para mim, quando eu estiver falando com você.
BAGATELA: Sim, sim, senhora, tia Simplicidade.
TIA SIMPLICIDADE: Será que eu não vou ter poder de ensinar a essa criança; ou aprende por bem ou aprenderá por mal. Isso, aí, só pode estar na Lua! Feche a matraca. Menina mal-humorada. Entupa-se! Qualquer coisa chora. Malouvida! Agora, chore com gosto, porque apanhou. Olha só. Quando tem motivo, não chora. Que está esperando, hein, menina Bagatela? Tire isso daí! Alinhavou as roupas?
BAGATELA: Ali-alinhavei, si-sim, senhora, ti-tia Si-Simplicidade.
TIA SIMPLICIDADE: Deve tê-las deixado que nem a tua venta, como diz a comadre. És surda, menina? A senhora é surda? Não estás ouvindo que querem derrubar a porta? Vai ver quem é que está batendo. Não levante a sua sobrancelha para mim, quando eu falar com você. Desta vez, não quero ver seus joelhos fraquejarem, Bagatela. Você não para de choramingar feito um cão de caça. Seque essas lágrimas, limpe o nariz. Essas rugas de expressão em meu rosto são por sua causa. Ouviu? O galo cantou. Antes de o galo cantar de novo, quero ver essa casa limpa. Nunca lhe queimei. Volte, aqui, menina. Espere. Não vejo nem um olho roxo. Pensa que vou lhe agredir para você querer correr e se esconder, aí, debaixo da mesa? Não ponha as mãos no rosto. Pôr as mãos no rosto é feio para uma menina com a sua idade. A Bíblia manda castigar os filhos. Conheço a história de Abraão, que quase matou Isaque. Quer mais cascudos? Você sempre foi indesejada.
BAGATELA: Eu não ia me esconder debaixo da mesa.
TIA SIMPLICIDADE: Ainda, por cima, respondona. Você vai ver só. E não grite por socorro. Não quero ver vizinho batendo na minha porta. Eu vou sair de casa, vou trabalhar, e quem vai cuidar da casa é você, Bagatela. Você já está bem crescidinha. Com sua idade eu já fazia o almoço; se não fizesse, ah, se eu não fizesse, apanhava da mãe e dos irmãos. Bagatela, com quase três anos, não é mais criança. Ou você queria morrer? Hoje mesmo, vi outro enterro de criança. Eu perco o controle com você, Bagatela. Comigo ou você aprende ou diz por que não aprende, Bagatela!
BAGATELA: Tia.
TIA SIMPLICIDADE: E a água? Ó como é linda essa lapinha!
BAGATELA: Fui buscar, tia Simplicidade; fui buscar. Mas, a Dona Júlia...
TIA SIMPLICIDADE: Que tem a Dona Júlia? Julinha é minha amiga do peito.
BAGATELA: Dona Júlia falou que não ia mais fornecer água do poço.
TIA SIMPLICIDADE: Ah, que atrevida! Um poço que ajudei a cavar.
BAGATELA: Se deu, deu; se não deu, não vai dar mais.
TIA SIMPLICIDADE: E por que não já foi ver quem quer derubar minha porta?
BAGATELA: Eu vou? Já vou.
TIA SIMPLICIDADE: E por que não foi ainda? Vaaaaaaaaai! Sua desmiolada.
BAGATELA: Estou indo.
TIA SIMPLICIDADE: Onde vai, Bagatela?
BAGATELA: Apanhar o cântaro, tia Simplicidade.
TIA SIMPLICIDADE: Que cântaro?
BAGATELA: Pra trazer água.
TIA SIMPLICIDADE: Que água?
BAGATELA: Do poço.
TIA SIMPLICIDADE: Que poço?
BAGATELA: Da Dona Júlia.
TIA SIMPLICIDADE: Que Júlia? Não quero mais saber da Júlia.
BAGATELA: Então, vou abrir a porta.
TIA SIMPLICIDADE: Não me faça perder o juízo.
BAGATELA: Atendo primeiro a porta?
TIA SIMPLICIDADE: Não. Vá buscar a água.
BAGATELA: Sim, senhora.
TIA SIMPLICIDADE: Água não. A porta, a porta.
BAGATELA: Vou num pé e volto noutro.
TIA SIMPLICIDADE: Deixa. Essa Bagatela ainda me paga o novo e o velho. Não tem um níquel de herança. E essa família ainda se orgulha da sua ligação com a Baronesa Kuaanddussiphoddenn. Gente de saliva de dragão de komodo. Não é mesmo, Bagatela?
O GRITO DE BAGATELA: Quê?
TIA SIMPLICIDADE: Essa família nanica na qual eu fui me meter... Quando sair daqui, não vou nem olhar para trás. Não quero botar os meus olhos nesse lugar de medusas e ficar paralisada. Por querer olhar para trás, Orfeu não conseguiu o que queria com Perséfone. Já a mulher de Ló, quando foi olhar para trás, virou estátua de sal. Você lembra-se disso, Bagatela?
O GRITO DE BAGATELA: O quê?
TIA SIMPLICIDADE: Vou sair sem olhar. Baronesinha Kuaanddussiphoddenn... Você me aguarde, Bagatela. Saio? Não, não saio. Não quero. Agora, eu sou Simplicidade. Habito a velha moradia do Seu Adão e da Dona Eva. Esses vizinhos querem costuras. Costuras, é? Mas na hora do dinheiro quem ver a cor? O sujo. Pede que eu espere, porque um dia paga. Quando? No dia em que morcego doar sangue. Se eu não viver cobrando, morro de fome. Isso porque cobro pouco mais ou nada pelo trabalho pra essa gente desaforada. Gente desrespeitosa. Que demora é essa, menina?
O GRITO DE BAGATELA: Quê?
TIA SIMPLICIDADE: É. Acho que vou parar de costurar. Agora, sou diretora de escola, respiro diferente, como diferente, agora, me sento diferente. Rápido! Pois amanhã será Natal. Tudo ainda está por fazer. Deixe estar. Quando se precisa de um cântaro d’água, essa Júlia se nega. Nega água com a cara mais lavada do mundo. Água. Amizade estreita só termina larga.
ZÉMAMBEMBE: É isso que dá casar-se com um tipo que não sabe cozinhar feijão. Um herói de guerra cheio de medalhas. Fiquei envergado de tantas honrarias. Toda a glória que a guerra me deu me serviu para quê? Foi isso que eu ganhei, Simplicidade. Meteu o marido entre os muros altos de pedras largas. Eu era bom com ela. Eu era bom de juízo. Um dia, dei um grito e perdi o juízo. Nunca mais achei. Essa malcasada. Malcasado é o melhor bolo que já comi. Eu não nasci pra ser chifrado. Ai, minha cabeça!
TIA SIMPLICIDADE: Essa menina não chega? E essa Bagatela? Bagateeeela! Quase perco a voz. Bagateeeela! A cada dia que passa parece que vai ficando pinel, igual ao tio. Também é de família. Maldita hora em que eu fiquei com essa doidinha. Deveria ter ficado, quando os pais morreram e os irmãos de Bagatela foram distribuídos com a parentada, com um dos meninos. Talvez, um deles não fosse tão desligado. Não me desse tanta dor de cabeça. Mas, achei de ficar logo com quem? Com a caçula. Bagateeeela! E quem era, lá fora?
BAGATELA: Demorei, tia?
TIA SIMPLICIDADE: Não levante a sua sobrancelha para mim, quando eu falar com você. O galo cantou. Antes de o galo cantar de novo, quero ver essa casa, que o povo chama de longevo casarão, limpa.
BAGATELA: Tia.
TIA SIMPLICIDADE: Ainda não acabei.
BAGATELA: Tia.
TIA SIMPLICIDADE: Ainda não terminei.
BAGATELA: Ti.
TIA SIMPLICIDADE: Só foram umas palmadas pedagógicas. Não chore. Não me venha com seus choros. Não mordi você. É melhor apanhar de mim, hoje, para não apanhar na rua amanhã. Bagatela, Bagatela. Punição física? Maus-tratos? Agressividade? Sacudo você até lhe desmontar. Se eu der um soco derrubo uma parede. Você é uma dessas chupim. Não sou violenta. Eu explodo. Violento é o seu tio, que vinha nervoso, arrancava a cinta e começava a lhe bater; batia até cansar. Mas me parece que você se esqueceu disso. Naquela época, você levava mil chineladas antes de ir dormir. Mostre se tem algum ferimento, mostre, mostre agora. Nenhum.
BAGATELA: Eu.
TIA SIMPLICIDADE: Calada.
BAGATELA: E.
TIA SIMPLICIDADE: Nunca lhe queimei. Ih! Esqueci de novo de comprar as pilhas do rádio. Quero uma rádio conversando bem alto em casa. Isso é uma casa moderna; tem até rádio – os vizinhos dizem. Volte, aqui, menina. Espere. Não vejo nem um olho roxo. Pensa que vou lhe agredir para você querer correr e se esconder, aí, debaixo da mesa? Não ponha as mãos no rosto. Pôr as mãos no rosto? A Bíblia manda castigar os filhos. Eu conheço a história. Você sempre foi indesejada.
BAGATELA: Eu não ia me esconder debaixo da mesa.
TIA SIMPLICIDADE: Ainda, por cima, respondona. Você vai ver só. E não grite por socorro. Socorro morreu. Não quero ver vizinhos batendo na minha porta. Eu vou sair de casa, vou trabalhar, e quem vai cuidar da casa é você, Bagatela. Você já está bem crescidinha. Com sua idade eu já fazia o almoço. Eu perco o controle com você, Bagatela.
BAGATELA: Sabe, tia.
TIA SIMPLICIDADE: A tia sabe. Não fale nada agora. Estou conversando. Estou a ensinar-lhe as regras do bom viver. E você, aí, acariciando essa boneca. Jogue esse lixo! Já falei. Não vou repetir.
BAGATELA: Não. Sim.
TIA SIMPLICIDADE: Não me responda, sua malcriada! Não vou permitir que se transforme no que se transformaram os filhos da Ju: manhosos, desobedientes, brigões. Ju criou os filhos como Deus criou batatas. Meu controle é severo. Sou uma aparentada do Delegado Severo Açoite.
BAGATELA: Quem é Ju?
TIA SIMPLICIDADE: Escuta aqui. Não acabei. Quem é Ju? Quem foi que disse que você precisa saber quem é Ju? Ju tudo permite, tudo aceita. Os filhos fazem de Ju gato e sapatos. Aos filhos de Ju não há limite. Isso, aqui, Bagatela, não é espelunca de fugitivos. Não é frege, não é lugar de malfeitores. Eu tenho mais o que fazer, se você não tem. Vou cuidar da minha vida. Não sou uma malandra, não sou uma desocupada.
BAGATELA: Não quer?
TIA SIMPLICIDADE: Quê? Até agora com isso na mão. Quem mandou?
BAGATELA: O carteiro, tia Simplicidade.
TIA SIMPLICIDADE: O carteiro? E como estou? Traga o meu espelho. Rápido.
BAGATELA: Aqui.
TIA SIMPLICIDADE: Me entregue logo isso. Me entregue logo.
BAGATELA: Ele disse.
TIA SIMPLICIDADE: É dinheiro? Sou doida por dinheiro.
BAGATELA: Não sei.
TIA SIMPLICIDADE: Queria que fosse dinheiro.
BAGATELA: Dinheiro?
TIA SIMPLICIDADE: Queria ganhar uma herança de parente. Um jogo.
BAGATELA: Um jogo?
TIA SIMPLICIDADE: Qualquer coisa me deixaria satisfeita.
ZÉMAMBEMBE: Ainda bem que não é ninguém de Olho D’Água dos Lírios.
BAGATELA: Seu espelho.
TIA SIMPLICIDADE: E quem pediu espelho?
ZÉMAMBEMBE: Ah, então o galhudo, aqui, está sendo corneado?
BAGATELA: Não quer o espelho?
TIA SIMPLICIDADE: O carteiro já foi? E só deixou isso?
BAGATELA: Só.
ZÉMAMBEMBE: Com o carteiro, Simplicidade?
TIA SIMPLICIDADE: Por que toda essa demora, hem, menina?
BAGATELA: Que demora?
TIA SIMPLICIDADE: Espevitada! Você me deixe de ser saliente, menina. Não tolero menina saliente. Já me basta aquela turminha na escola. Levo você ao oratório e te faço rezar ajoelhada no milho até de manhã. Está vendo o tamanho do crucifixo no meu pescoço? Não me provoque com esse seu olhar de deboche. Não entorte a boca. Eu quero que me respeite. É lhe pedir demais? Meu cotidiano é com alunos que não sabem estabelecer relações com outros alunos. Ouça a sua tia, Bagatela. Sua tia Simplicidade quer saber. Fala. Fala. Estava de enxerimento com o carteiro, estava? Vigie os meus óculos. O pior é que tenho três vestidos para entregar. Trabalhar no escuro? Se trabalhar a noite toda, ainda não dou conta de entregar as encomendas. Será que me esqueci de comprar as linhas amarelas, as verdes e as azuis? As brancas e as pretas estão aqui. Meus óculos, sua amalucada!
BAGATELA: Onde?
TIA SIMPLICIDADE: Onde o quê?
BAGATELA: Eu ainda não encontrei, tia Simplicidade.
TIA SIMPLICIDADE: Não encontrou o quê?
BAGATELA: Ai-ai-ai! Minhas orelhas nãããããããão!
TIA SIMPLICIDADE: Em um desses quatro cantos da casa você encontrará os meus óculos. Não encontrará, minha querida? Ó Bagatela, não chore. Não seja frouxa, não se acovarde, menina. Também precisando usar óculos, está? Com essa idade? Tadinha. Olhe se os óculos estão aqui. Aqui? Lá? Acolá? Cá? Onde estão os meus óculos, Bagatela? Hoje, você os encontrará.
ZÉMAMBEMBE: Isso tudo acontecendo e eu sem poder fazer nada para evitar.
BAGATELA: Solte a minha orelha, tia. Solte a minha orelha!
TIA SIMPLICIDADE: Estão aqui, Bagatela?
BAGATELA: Não.
TIA SIMPLICIDADE: E aqui?
BAGATELA: Não.
TIA SIMPLICIDADE: Quem sabe, aqui.
BAGATELA: Aqui, não.
TIA SIMPLICIDADE: Dói pegar em suas orelhas, assim, dói? Não sabia. Aqui. Olhe como foi fácil, querida sobrinha. Mas tudo o que você faz é assim. Por que tem que ser sempre assim? Agora, sente-se ali. Não. Ali. Levante-se, Bagatela. Que é que está esperando? Vá buscar água para sua tia fazer café. Vá olhar o que tem no fogo. Olhe o que aquele papagaio tem, que tanto grita.
BAGATELA: Não tem nada no fogo, tia Simplicidade.
TIA SIMPLICIDADE: Como é que você sabe, Bagatela?
BAGATELA: Eu fui lá.
TIA SIMPLICIDADE: Como foi lá?
BAGATELA: Antes da senhora chegar.
TIA SIMPLICIDADE: Então, sente-se. Quem terá escrito essa carta?
ZÉMAMBEMBE: Uma carta?
TIA SIMPLICIDADE: Saia, Bagatela. Quero ficar só. Vá brincar.
BAGATELA: E a água?
TIA SIMPLICIDADE: Vá buscar. Como é o nome da mulher?/Não é Ju Catolé?/E o nome da menina da Ju?/E não é Bagatela?
ZÉMAMBEMBE: Bem que eu desconfiava. É chifre mesmo que nasce em mim.
BAGATELA: Tia.
TIA SIMPLICIDADE: Saia, menina! Deixe ver quem me mandou essa carta.
ZÉMAMBEMBE: Quem ela esperava? Quem ela esperava?
TIA SIMPLICIDADE: Ainda não saiu, Bagatela? Está bem. Fique.
ZÉMAMBEMBE: Não, não, não. Saia, saia, Bagatela. Saia. Assim, Simplicidade lê em voz alta e eu descubro logo, logo, logo quem mandou essa carta. Você não me quer mais, Simplicidade? Só me amou enquanto não pôs as mãos em minha casa. Só foi se apossar do meu. Agora me joga como se nunca estivesse existido nada entre nós. Ah, guerra maldita!
TIA SIMPLICIDADE: Tome sua bruxa, Bagatela.
BAGATELA: Estava procurando a minha boneca mesmo, tia.
TIA SIMPLICIDADE: Vá brincar com ela.
BAGATELA: Ela vai receber presente do Papai Noel, tia Simplicidade?
TIA SIMPLICIDADE: Quem?
BAGATELA: Minha boneca.
TIA SIMPLICIDADE: Que boneca! Chama isso de boneca? A tia sabe tudo. Lembra-se daquele dia em que você mentiu e eu enchi a sua boca com pimenta? Ah, está lembrada! Vai querer que eu encha a sua boca de pimenta de novo? Vai? Hein? Escuta aqui. Fala depois. Estou conversando. Bagatela, você não vale nem o pão que come. Você é o tomate podre da cesta; você é a semente ruim. Não vou perder a minha autoridade com você, Bagatela. Minha autoridade precisa ser respeitada. Ninguém vai passar por cima da minha autoridade. Eu sou a nova diretora da escola. Eu sou um braço da Secretaria de Educação aqui na Vila de São Gabriel. Está me ouvindo? Exijo que, quando me pedir a bênção, me beije à mão. Beije-me à mão demonstrando respeito. Você entendeu? Sua... Sua... É o que eu espero. Odeio crianças pegajosas. Fique longe de mim. Se não me obedecer, se não dançar conforme a minha música, eu arranco o coro das suas costas e faço nascer outro. Não é assim que a banda toca, menina. Ei, ei! Ei, estou-lhe ensinando as regras do bom viver. E você, aí, acariciando essa boneca. Jogue esse lixo fora! Está batendo nas costas da boneca com que intenção? Quem bate nas costas é traiçoeiro; tapinha nas costas é sinal de falsidade. Essa gripe ainda vai virar um resfriado, Bagatela. Ó menina, está conversando o que com esse molambo? Tem que ter cabelo na venta, sua sonsa, se quiser viver nessa casa. Aqui, toda alegria acaba em dor.
BAGATELA: A boneca ficou gripada, titia. Lá-rá-lalá. Durma, bonequinha.
TIA SIMPLICIDADE: Para. Menina idiota. Ó menina, para de cantarolar. Ei, Bagatela, pare de acalentar essa bruxa de pano. Levante-se, daí! Levante-se agora, levante-se daí, menina! Levante-se. Levante-se. Ó Bagatela, levante-se daí.
JOÇA: Levante-se, daí! Levante-se agora, levante-se daí, menina! Levante-se. Levante-se. Ó Dona Bagatela, levante-se daí. A senhora precisa levantar-se daí agora mesmo, Dona Bagatela.
DONA BAGATELA: Quê? Que quer? Nesse casarão não se respeita mais nem uma senhora de tantos anos! Quantos anos eu tenho? Hoje, me levantei da cama tentada a comer paella. Já separei camarão, lula, polvo, mexilhões. Joça fica olhando pra gente com essa cara de mamãe perdi o bonde.
JOÇA: Velhacouta!
DONA BAGATELA: Que disse?
JOÇA: Nem bonde existe mais, Dona Bagatela.
DONA BAGATELA: Não tem nas tuas ventas!
JOÇA: Deixe trabalhar. Dá licença, Dona. Tenho mais o que fazer. Não vivo numa cadeira de palhinha me balançando na frente da televisão.
DONA BAGATELA: Ela não fala. Ela mia.
JOÇA: Amanhã, Natal, Dona Bagatela. Natal. Lembra Natal? Uma festa cristã. Jingle bell, jingle bell cantado nas loja da Vila de São Gabriel, nas rua, lojas colorida, cheias de presente, iluminação em volta das casa, cesta com comida – uh, água na boca! – vinhos, champanhe, queijos. Natal lembra? Docinho de Natal, panettone. Ah, aquele panettone cheiroso! O bacalhau defumado, a carne de porco na virada do ano. As festa. Os doce, os salgado. O veio barbudo de vermelho, gorro, bota preta, luva branca. Nas casa, o pinheirinho cheio. Natal, Dona Bagatela. Natal. Ó chega Natal!
DONA BAGATELA: Ora é Natal, ora é Natal; ora tem jingle bell, jingle bell; tem presente. Quero um colírio para minha vista embaçada, e não sei onde encontrá-lo. Sua mal-ajambrada! Volta pro teu frege. Saia daqui! Chegam essas festas de fim de ano e o povo enlouquece. Eu faço até rima: É uma loucura sazonal, que só se acaba depois do Carnaval. Sai com tua vassoura, sua...! Até parece a tia Simplicidade, quando foi reclamar na repartição os seus direitos.
A tia Simplicidade, Joça, atravessou a porta de vidro, na repartição pública, carregada de documentos até nos olhos azuis. Todas as cadeiras tomadas por seus antecessores, mais de cem já esperavam o atendimento, outros cem chegaram depois da tia. Ela contou-me tintim por Rin-Tin-Tin.
A senhora é daqui mesmo? perguntou uma vizinha na fila de cadeiras.
Sou, disse-lhe a tia Simplicidade.
Não me parece! soltou um risinho amarelo. Senhora tem sotaque de quem nasceu em Olho D’Água dos Lírios. Mora onde?
No bairro Psiu.
Tenho uma tia no Psiu. Em qual rua?
Na Ruas dos Quebraqueixos.
Ah, a senhora deve ser gente importante. E a Rua dos Quebraqueixos só há casarões a perder de vista. Como deve ser bom residir em lugar tão elegante. Decadente, mas elegante. Decadente, modo de dizer; a senhora não se ofenda. Mas a senhora tem um sotaque tão forte de quem atravessou o rio, saiu de Olho D’Água e veio estabelecer-se na Vila de São Gabriel.
Dez minutos sem conversa. Simplicidade fechou a cara.
Dentro da cabeça de Simplicidade voavam terríveis vespas. Marimbondo caboclo era, ou marimbondo chapéu assim chamado. Girassol ou vespa noturna, marimbondo carniceiro também dito. Ora papa-carne, ora marimbondo guerreiro. Às vezes, marimbondo cavalo. Marimbondo caçador de aranha chamada cavalo-do-cão.
Simplicidade o que tinha de alta, tinha de larga. Aos outros demonstrava ser uma fortaleza. Sozinha, ela era invadida pelas imagens das igrejas e capelas de Olho D’Água dos Lírios, que possuía mais templos religiosos se comparados a Salvador. Ouvia as imagens falarem sobre ser simples e companheira, amiga de todos, respeitosa. Via diante de si imagens se transformarem em palmatórias.
O pior – ou o melhor – dentro de Simplicidade, algo a impulsionava; jamais podia ficar em silêncio, nem se fosse antes de dormir. Os diálogos, as conversas invadiam os entornos, entupiam os seus ouvidos. Mesmo na repartição, carcada por zunzunzuns, nada a deixava em paz se não estivesse em bate-papo consigo mesma, senão ouvia Zémambembe derramar-lhe estes versos ligeiros:
És cabocla valente.
Na cumeeira se arrancha,
Feito o verso do repente.
Faz chapéu o girassol.
Ouço da lua a sua marcha,
Vespa ata fogo no paiol.
Expressões com sentidos figurados lhe oprimiam com a ajuda daquelas com sentidos comparativos. E Simplicidade não diferenciava um monossílabo de um termo polissílabo. Foi de repente sugada por adjetivos biformes e uniformes. Perdeu-se em palavras cognatas. Logo lhe voltava Zémambembe:
A papa-carne é fuleira,
O simples bater das asas
Belicosa carniceira.
Vou fugir pra Maceió.
O seu voo é pura brasa
No casarão da Vovó.
Era a voz dele que a preenchia de todas as memórias. E Simplicidade, por mais que tentasse fugir, era impedida pela voz de Zémambembe:
E monta, Marimbondão,
Como se papa-aranha.
Vila, Cavalo-do-cão,
Já conhece a sua manha.
Quem se arrisca a picada
com ela tudo se assanha.
Simplicidade impaciente na repartição. Olhava um, outro, olhava o relógio. Consultava a ficha que recebeu na entrada. Voltava a olhar os lados.
Essa dor que a vespa traz
É fogueira viva em brasa,
O corpo arde demais
Fura a agulha sob as asas,
E chicoteia, não respeita ais
Em cima com a sua garra.
Via passar ante o azul dos olhos os miúdos. Penetrava nas narinas todos os odores da buchada de bode. Tocavam em seus lábios o coração, o rim, logo chegava o fígado. O limão e o vinagre. O alho e a cebola. O coentro e a horletã. O colorau e a pimenta. O bucho de bode bailava à frente do seu rosto, da boca. A língua provocada pelas papilas gustativas. O palato mole recebia a buchada e o epiglote apresentava-lhe as boas-vindas.
Vai cavalo-do-cão fura
Fervilha o coração para
Cabra perde a brandura
Vespa morde, insiste e ara
O voo mantém a usura
Sob o grito da arara.
Simplicidade inquieta-se. Levanta-se. Senta-se. Torna a sentar-se. Vai ao bebedor, bebe, derrama, molha os pés de quem se encontra na fila do gargarejo.
E toma a casa alheia
E começa pelas telhas,
E agride feito terçol
Se pendura, aperreia
E agride essa abelha
A vespa nunca vem só.
A senhora tem certeza absoluta de que você nasceu aqui mesmo na Vila de São Gabriel? Me diga uma coisa: quem são os seus pais? Senhora me ouviu? Sim. Você vem de qual família?
Simplicidade manteve ouvidos de mercador.
A senhora soube que eles um hospital vai chegar ao Psiu?
Sequer Simplicidade olhou o rosto da interlocutora. E fez girar a própria aliança uma dúzia de vezes.
É mais fácil chegar um cemitério! por fim, respondeu. Pois a interlocutora não parava de cutucar com o cotovelo o cotovelo de Simplicidade.
A senhora é muito engraçada e sedutora.
O painel marcava que havia 17 pessoas para serem atendidas antes de Simplicidade ser chamada às mesas de vidro.
A LADEIRA
ContosMarcello Ricardo Almeida 12/04/2026 - 22h 59min
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