Outro dia voltei a refletir sobre curioso fenômeno humano: existem pessoas que parecem colocar o sorriso na poupança, guardado com tanto cuidado que raramente o deixam circular.
Talvez imaginem que cumprimentar o semelhante, diminui sua importância. Caminham entre os demais como se carregassem uma invisível coroa, convencidos de que ocupam lugar superior a tudo e a todos, exceto, curiosamente, a si próprios, pois a vaidade costuma ser o espelho em que mais se contemplam.
Sempre digo, com certa ironia, que sou daqueles que possuem milhões de amigos. Contudo, quando se trata dos verdadeiros, que cabem no território da confiança e do afeto, todos poderiam viajar confortavelmente dentro de uma velha Kombi cor azul, modelo 1966.
Foi lembrando disso que, outro dia, entrei em loja de tintas, na Jatiuca e deparei com uma dessas figuras que parecem imaginar-se o próprio Papa, sentado em seu trono no Vaticano, balbuciando em latim. Fiz o que sempre faço diante de qualquer pessoa: cumprimentei-o respeitosamente.
A resposta foi um leve e brusco movimento de cabeça. Não houve palavra ou sorriso mesmo que breve, apenas o gesto seco de quem imagina que a cordialidade pode diminuir sua importância.
Segui com minhas compras, porém percebi algo curioso: o “gentil personagem” me observava repetidamente. Cada vez que nossos olhares quase se encontravam, ele prontamente acionava seu iPhone, provavelmente um modelo que só será lançado em 2030, e virava o rosto, como se estivesse ocupado demais para a trivialidade de um simples bom dia.
Assim seguimos naquele curioso teatro silencioso, de minha parte, tentei ser simpático de todas as formas possíveis, mas da banda dele, não houve autorização, a vida tem dessas pequenas comédias humanas.
No fundo, aprendi algo simples observando situações assim: há pessoas que nunca irão torcer por você, mas também jamais perderão um único momento de sua trajetória.
A torcida é contra, mas a audiência, curiosamente, permanece fiel. Justamente por tal motivo, que amo a vida, vez que tais criaturas me incentivam a ser como sou.
A TORCIDA É CONTRA, MAS A AUDIÊNCIA PERMANECE FIEL
ContosAlberto Rostand Lanverly Presidente da Academia Alagoana de Letras 22/03/2026 - 21h 22min
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