– Somos amigos há quanto tempo? provocou o dono do bar com um trapo às costas, esfregava-o na madeira, levava a mão às pontas do bigode. Sai de casa e vem aqui propor desafio, Alexandrino? Nenhuma elisão é absoluta; ela é mero arbítrio da métrica.
Encostado, o alfaiate cego, cordelista Alexandrino, mãos sobre o balcão, já não sabia mais onde cavar paciência; e as suas unhas deixavam riscos profundos na madeira. A experiência, naquela semana última de julho, só lhe confirmava ser homo homini lupus est o que foi dito na véspera da procissão de Santana.
– Elisão, Alexandrino, é devoradora de vogais; devora ditongos, e devora tritongos, e não escapam hiatos. A menor é engolida pela maior numa repetição do que foi dito na véspera da procissão.
Cada sonho uma história,
Cada glosa uma camisa,
Cada livro uma cantoria,
Cada mote uma caneta.
Em cada verso vem a rima,
Suas estrofes são gavetas,
Cada poeta um artista,
Cada tema uma corneta.
Ca / da / so / nho / u / ma / his / TÓ / ri / a,
Ca / da / glo / sa / u / ma / ca / MI / sa,
Ca / da / li / vro / u / ma / can / TO / ri / a,
Ca / da / mo / te / u / ma / ca / NE / ta.
Em / ca / da / ver / so / vem / a / RI / ma,
Su / as / es / tro / fes / são / ga / VE / tas,
Ca / da / po / e / ta / um / ar / TIS / ta,
Ca / da / te / ma / u / ma / cor / NE / ta.
– A métrica faz-se ao sabor dos versos ao se encontrarem nas sílabas. Se as sílabas canônicas são ca / da / so / nho / u / ma / his / tó / ri / A, as sílabas literárias são ca / da / so / nho / u / ma / his / TÓ / ri / a.
No zunzunzum, o padre entrou de repente porque não conseguia livrar-se do vício. Fez o que veio fazer no bar, na frente da casa de meu avô, e saiu.
O dono do bar falava sobre o que ouviu do padre a respeito das portas do inferno se abrirem de tempos em tempos.
– Verdade? duvidou o cego.
– Pergunte ao padre.
– Ouvia falar; não acreditava muito.
– Pelas portas escapam demônios que, fora dos domínios das trevas, se transformam em figuras de gente.
– Mentira! fez pouco caso da conversa do dono do bar.
– Verdade; eles trazem no couro a maldade adquirida nos infas.
– Isso não existe!
– Se no mundo, existem municípios; no espaço, existem mundos. Muitos poetas fazem versos sobre isso de ouvido, igual a tocador de viola no sábado de feira.
Desci degrau por degrau, na varanda da casa de meu avô, e atravessei a rua. No bar, comprei o jornal. Presenciei a disputa entre o dono do bar e o alfaiate sobre a rima e a métrica. O padre veio e se foi. No bar, ficou o tema sobre almas sebosas que escapam do inferno.
– Poeta, disse o cego, versa com paroxítonas. A última palavra, em cada sextilha, finda na sílaba penúltima. Ca / da / so / nho / u / ma / his / TÓ / ri / a.
Saí do bar com o Liberdade de Expressão debaixo do braço.
Ultimamente, os sapos arrefecem. E, de fato, a noite derrete o sol.
O Sr. Plutocrático voltava da labuta diária com as burras cheias de dinheiro. Na rua, as pedras brilhavam.
Estava eu de volta à varanda de meu avô; lia o jornal.
Talvez iremos nos findar aqui mesmo. Só ouvimos silêncio. De vez em quando, o vento. E os nossos vizinhos como será que estão? Passaram os troncos rolando, e vimos vacas, e vimos boi; boiam porcos, subindo e descendo, e engolidos pela boca enorme da água que corre, corre, corre.
Que fizeram a você, minha irmãzinha! Se hoje lhe rasgaram as vestes, violaram impunemente a sua vida, e molestaram à vontade. Não se falavam em culpados nem consciência, irmãzinha. De suas carnes brotavam podres feridas.
Veio esse tempo de chuva, e os desavisados, os enganados foram-se dia a dia. Os recém-nascidos só sabiam reivindicar pelo choro. E quem se importava com isso!
E roeram em segredo a sua vida, irmãzinha. E a fizeram ruir. Irmãzinha, eles a transformaram nessa lama que adoeceu até as águas.
Paciência, gente. A luz do dia logo voltará com a ajuda. Vivemos em um tempo onde o tempo é apenas outro faz de conta. Jamais repetisse isso; se os vizinhos escutam, nem queira imaginar. Cadê o pai! O pai sumiu. Ele estava agora aqui! Pai ainda tá aqui, Mãe. Ui! soprou a Mãe a preocupação com o Pai. E se fosse o aumento das águas do mar, Filho? Não sei nada disso, Mãe. Ninguém carece de deuses, semideuses, heróis ou Olimpos, Mãe. Ficou a Mãe acocorada em cima do telhado à espera da água baixar. Olhava o horizonte, e não havia horizonte, apenas água. A Mãe dizia-se uma ilha esquecida na água que ameaçava matá-la. Quantas vidas afogadas nessas águas que remexem o barro em nossas terras, Mãe? Meu gado, meus porcos. Os gatos sobreviveram? Como saber! Cedo, passaram os pássaros. Não planejasse a vida, a Mãe falou, sempre disse. Tocasse essa vida como o flautista, sem se importar com o dia de amanhã. A fome ensinava a comer ou não? Sonhar era coisa traiçoeira. Mãe, não alimente o sonho senão ele devora seu corpo. E, acocorado sobre o telhado, o Pai olhava a Mãe sem entendê-la. Antes que uma cãibra o derrubasse daquela altura, ele sentou-se outra vez; a Mãe o imitou. Todos se arrumaram como podiam.
Faz tempo que a escuridão caiu sobre a cocuruta de nossa casa. E quase não enxergava meus próprios pés. Acocorado há quanto tempo aqui? Não sei. Vocês estão bem? perguntei, e não ouvi nenhuma resposta. Ó, a voz do Vô! Vô enérgico, só possuía tino com a Vó. Vovó guardava em seu silêncio a dimensão do mundo.
As águas turvas corriam feito cavalo desesperado que fugiam da tragédia. As águas arrastaram tudo em volta.
As águas tinham pressa. A terra era um mar lamacento de elevações – as águas, em caixões que se formavam, subiam e desciam e arrancavam o mundo pela raiz. Nada resistia diante delas. E os meus porcos, Mãe? Eu vi o Pai erguer o braço e apontar a direção.
Os suínos carregados nas águas.
Velozes, as águas passavam ameaçadoras em torno da nossa casa e tomaram rumo ignorado. Elas invadiam as roças e os chiqueiros, as casas e os currais, o galinheiro e as estrebarias, as casas e as intimidades dos moradores.
Fechei o jornal. Prefiro voltar ao bar. Ouvir o desafio entre os amigos cordelistas.
O DESAFIO
ContosPor Marcello Ricardo Almeida 27/07/2025 - 21h 24min
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