“O tempo do esquecimento”, texto que escrevi em 1988, continua atualizado quanto à falta de memória histórica e cultural em nosso País e, neste momento, especialmente em nossa Alagoas.
Ou, para não cometer o pecado da generalização, se registra no Brasil a existência ínfima de pequenas “ilhas” ou “pontos de culturas”, ou melhor, a política nacional de valorização da cultura sob todos os seus aspectos ainda é incipiente e de poucos recursos financeiros, refletindo nos estados que, em sua maioria, não possuem a sua política cultural e leis de apoio à área, não estimulam ou destinam recursos insuficientes.
É importante destacar a luta de valorosos defensores da história, arte e cultura no Brasil, às vezes de forma solitária, que buscam patrocinadores, estimulam novos talentos ou conquistam um espaço com muita persistência.
Exemplo fantástico é o trabalho desenvolvido pelo portal Maltanet da nossa Santana do Ipanema que, além de veículo de comunicação comercial, estimula, apóia, divulga, cria e participa de atividades nos campos da literatura, fotografia, história, responsabilidade social, arte, música e cultura de todas as vertentes. O tempo, com certeza e com justiça, estabelecerá a importância da visão e do papel desempenhados por José Malta Fontes Neto, nosso amigo e Comendador, como referência histórica e cultural ao criar e desenvolver o seu portal. Em março do ano passado, com recursos próprios e quase nenhum apoio de terceiros, elaborou uma primorosa programação para a Semana Breno Accioly junto à comunidade.
Lá da Paraíba, lembro a iniciativa do saxofonista José Jurandyr Félix de homenagear a natureza diariamente ao entardecer tocando o “Bolero” de Ravel, em um barquinho na praia do Jacaré em João pessoa (PB), criando um evento turístico conhecido nacional e internacionalmente.
Em São Paulo, nossa maior metrópole e capital de todas as raças em que tudo é efervescência, o Cine Belas Artes no último dia 17 encerrou suas atividades após 60 anos de exibições, mesmo depois do proprietário André Sturm mobilizar a mídia, freqüentadores cinéfilos, entidades, promotores culturais e políticos, sem uma solução de negociada com o dono do imóvel.
No referido texto externei o meu ponto de vista pessoal com relação ao tema, destacando a falta de valorização dos nossos valores culturais e daqueles que se destacam pelo talento nas artes, literatura, cinema, teatro, etc.
Registrei, em 1988, os vinte e dois anos da morte do contista alagoano, considerado pelos especialistas e estudiosos, como um dos melhores do Brasil, e a falta de reconhecimento e divulgação da sua obra. O médico e contista Breno Accioly nasceu no dia 22 de março de 1921 em Santana do Ipanema (AL) e morreu em 13 de março de 1966 no Rio de Janeiro (RJ). Neste março de 2011, os principais jornais da nossa terra não registraram, até este momento, os 90 anos do nascimento e 45 anos da sua morte.
Relendo, hoje, o texto crítico acerca do romance “Dunas” de Breno Accioly, escrito por Octavio de Faria, romancista (1908-1980), ocupante da cadeira nº 27 da Academia Brasileira de Letras, filho do escritor Alberto de Faria e cunhado de Afrânio Peixoto e Alceu Amoroso Lima, destaco suas palavras: ...”Mesmo sem esconder que a natureza de Breno Accioly me parece ser, essencialmente, a de um contista dos maiores, sem dúvida, que tivemos até hoje, não hesito em afirmar que, com Dunas, é em pleno terreno do romance que o jovem autor desdobrou as suas tendas. Trata-se de um romance de grande envergadura. E, convém salientar logo, um romance que fixa para o seu autor uma posição absolutamente original, “suigeneris” no quadro do nosso romance contemporâneo.”
A curiosidade do jovem do garoto de 14 anos em saber quem era o homenageado com o nome da Biblioteca Municipal Breno Accioly, ambiente que freqüentou inúmeras vezes durante o seu curso ginasial, estimulado pela professora Maria Salete Bulhões nas aulas de português do Ginásio Santana, teve continuidade em 1979 com o início de uma pesquisa sobre o contista para uma feira de cultura em Santana do Ipanema.
Daí, tive a oportunidade de conhecer e conversar, em dois momentos, com o jornalista e escritor Tadeu Rocha, tio do contista, em sua casa em Recife (PE). Ainda hoje, tenho como preciosidade o livro de sua autoria Regionalismo & Modernismo, considerado um dos registros mais importantes desse período literário em Alagoas, que presenteou e dedicou à Marta Agra, filha do professor Alberto Nepomuceno Agra. Nunca devolvi o livro. Propositadamente. Sendo crime deve está prescrito. E que a Marta Agra tenha me perdoado. Os encontros e o livro do Tadeu Rocha estimularam a minha indisciplinada pesquisa para colher informações e documentos dos caminhos trilhados por Breno Accioly em Santana do Ipanema, Maceió, Recife e Rio de Janeiro, cidades onde viveu. De tempos em tempo, pesquiso, encontro ou descubro informações e documentos que tratam da sua trajetória como médico e contista, relações pessoais e literárias.
Entre as últimas, registro que a jornalista Cynara Menezes trouxe luz e informações sobre a escritora Matilde Garcia Rosa, falecida em 1986, primeira esposa do escritor Jorge Amado e ex-mulher do escritor Breno Accioly com quem viveu e dedicou o livro de contos Maria Pudim.
Há cerca de dois anos tive acesso ao acervo do professor, poeta e jornalista pernambucano Mauro Mota, seu incentivador e um dos melhores amigos, com quem manteve vasta correspondência.
Recentemente encontrei a informação sobre a existência da Rua Breno Accioly em Americanas (SP), que preciso confirmar a homenagem.
Os últimos livros que chegaram às minhas mãos ressaltam a importância do contista Breno Accioly no cenário nacional da nossa literatura.
Na antologia Os Contos de Alagoas, edição 2001 da Editora Cataventos, organizada pelo “mestre da oratória” jornalista e político Mendonça Neto o conto As Agulhas é destacado.
Tive o privilégio de ganhar da professora e doutora Edilma Acioli Bonfim, um exemplar com dedicatória do seu livro Razão Mutilada – ficção e loucura em Breno Accioly, um primoroso trabalho sobre a obra do escritor.
E a antologia Os Melhores Contos Brasileiros de Todos os Tempos, edição 2009 da Editora Nova Fronteira, organizada pelo contista e romancista Flávio Moreira da Costa, ganhador de diversos prêmios nacionais de literatura, destaca o conto João Urso.
Mas, é importante a divulgação da sua obra e de tantos outros que permanecem no anonimato ou esquecimento. E o esquecimento e desconhecimento continuam. As trilhas vão surgindo. E como disse o escritor Flávio Moreira da Costa: “Quando iremos “ressuscitar” Breno Accioly”?
Entre os dias 13 e 21 de março de 2011 na Capital da Província.
Sílvio Mélo
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