Na minha vida de funcionário público passei por diversas repartições. Prefeituras, DCT (Departamento dos Correios e Telégrafos, atualmente apenas CORREIOS), e DNER, extinto no Governo de Fernando Henrique. Até hoje não compreendi a razão. Transformado em DNIT, mudou o nome, mas ninguém sabe o que é. Continua a mesma coisa.
Foi justamente nesta última repartição que aconteceu um fato interessante. No DCT eu era Telegrafista e fui para o DNER como radiotelegrafista. Posteriormente passei para Agente Administrativo através de concurso. Isto foi muito bom, pois não fiquei devendo favor a ninguém, podendo me dar ao luxo de votar em quem quisesse, principalmente em localidades pequenas como é o caso da nossa cidade.
Quando mudei de uma função técnica para uma burocrática pude verificar que a deficiência de pessoal com alguma qualificação era grande. Por isto mesmo, tive a oportunidade, quando assumi a Chefia da Seção Administrativa da Residência 20/2 em Santana do Ipanema, de ser indicado para presidir um Inquérito Administrativo, no sentido de apurar fatos de uma infração funcional. Esquentei a cabeça, pois nunca havia comandado, ou mesmo participado, de um Inquérito Administrativo, pois antes, no DCT, só passava e recebia telegramas.
Fiquei preocupado, mas aos poucos fui amadurecendo a idéia de que, se eu tivesse algum ponto de referência, poderia cumprir a missão emanada do Diretor Geral do nosso Distrito. Dei uma busca nos arquivos administrativos para ver se havia algum processo realizado por alguma comissão designada para coisa semelhante. Em pouco tempo encontrei um processo concluído que poderia me servir de base.
Esse inquérito apurava uma tentativa de assassinato feita por um funcionário daquela repartição a um Diretor da então Cooperativa dos Rodoviários, Seção de Santana do Ipanema. O acusado era o Sr. Américo Guimarães Freire, mais conhecido por “Baiano”, de personalidade forte que não gostava de aturar muita conversa, esquentando por pouca coisa.
Li e reli o seu depoimento, rindo sem parar com as palavras que ele usou para justificar o ato de tentar esfaquear a quase vítima. Baiano era “cabeça quente”, mas respeitador. Um dos membros da comissão fez a pergunta inicial de praxe:
– Qual o motivo da atitude do Senhor tentar esfaquear o Senhor Fulano de Tal?
A resposta estava lá, escrita no seu depoimento:
– Doutor, – o membro não era doutor coisa nenhuma, mas um funcionário nível médio como eu – o homem responsável pela Cooperativa, além de me chamar de ladrão, coisa que eu não sou, e ainda por cima me mandou TOMAR NO FIM DO FIO DO ESPINHAÇO!
O funcionário que fez a pergunta não entendeu nada, perguntando ao interrogado o que seria isto? Baiano já havia respondido inteligentemente, apesar de ser apenas alfabetizado, através de uma frase que ele mesmo criou com vergonha de pronunciar, para as “autoridades” ali em sua frente, as palavras que havia recebido.
O auditor, sem entender, continuou insistindo numa “tradução”, e o Baiano com vergonha de dizer. Até que chegou ao ponto de explodir, já que “pegava na partida”, e traduziu:
– Doutor, ele me mandou tomar no C...! Pronto, já disse! O Senhor gostaria desse convite?
– Quem, eu? Nunca! Tá doido? – foi a resposta.
Não examinei todo aquele caso, mas lá no finzinho do processo tinha um artigo do Estatuto dos Funcionários Públicos, então vigente, que o puniu com uma simples advertência, já que o ato não fora consumado.
Acho que o “inquisidor”, não gostou da idéia de que alguém o mandasse “TOMAR NO FIM DO FIO DO ESPINHAÇO” e resolveu minimizar. Mas, quem gostaria?
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