ESMERALDA

Contos

Fábio Campos

Na casa da minha infância tinha empregada. Como era casa nos fundos e mercearia na frente, minha mãe e meu pai precisavam sempre dos serviços das empregadas para dar conta dos afazeres domésticos. A primeira delas que eu lembro, chamava-se Ivanilda. Era uma mulher gigante, de braços longos, volumosa. Se as páginas dos anos e décadas, não fossem levadas pelo vento, e não passassem sobre sua mocidade. Tornando-a velha senhora de cabelos grisalhos e pele enrugada. E se a mim, este mesmo tempo cronológico, tivesse tornado um homem feito em questão de segundos, ainda pueril ao colo dela, minha opinião sobre Ivanilda era de uma mulher bem aquinhoada, de porte mediano. Não tinha um rosto belo. O que nessa parte dela se destacava, era uma boca enorme de dentes grandes, não muito alvos, por conta do uso frequente de tabaco. Sobressaia-lhes um sinal, desses que lhe aparentava ser uma mosca varejeira que teimosa insistia em pousar-lhe pro resto da vida, no ápice de seu nariz redondo. Ela sorria muito. Lá no âmago do meu ser, alimentava no profundo das minhas entranhas, um desejo secreto de possuí-la. De consumar-lhe o ato carnal. Como meus irmãos mais velhos. Sempre que precisavam procuravam-na e dela desfrutavam. À tinham, como a um pé de goiaba que é pra hora que se quer. Ivanilda de pouca brincadeira com menino, tinha outros interesses. Era amante de um rapaz, um pedreiro. Uma mãe viúva pra zelar. Um irmão mais velho que deitava-lhe ciúme. E ela se foi. São Paulo esteve a cobrar-lhe melhor futuro que as cozinhas da casa dos Soares. Em substituição a ela veio outra.

Esta outra, não sei em que espaço de tempo distanciou-se da anterior. Na minha memória vem em seguida: Dona Celina. Esta, uma preta muita alta, não apenas pela minha estatura, em desvantagem, a me tornar vítima da ilusão de ótica, da perspectiva enganadora. Pois quem está mais próximo ao chão, observa tudo como sendo sempre mais alto. Já na segunda metade de século , de anos de existência. E já não acendia o fogo da masculinidade vicejante nos mancebos da casa. Embora dedicasse certos desvelo e caprichos a sua surrada aparência. Deitando ao rosto, pó de arroz e um batom vermelho púrpura aos lábios sem viço, que acusava serem aqueles cuidados com a aparência, tardios. Era uma preta sofrida. Dessas que o azinhavre dos pés e das mãos denunciam a lavagem de roupa com água do rio e sabão da terra pra ganhar o pão. Preta que nem infância tivera. Desde criança tivera que trabalhar nas lavouras de algodão, feijão e milho dos Nobres, Azevedos e Vanderleis. Pra ganhar um prato de comida. Adolescência negada. Ainda com os peitos saindo-lhe botões foi estuprada, pelos próprios arrendatários das lavouras. A negra conversava na dileta proporção que cumpria seu labor. Misturava verdades e mentiras desenxabidas, em conversas esticadas do tamanho da tarefa que a ocupava. Um dia desconfiamos da preta. Eu e meus irmãos. E passamos a vigiá-la por nossa conta, sem nada revelar aos adultos, em surdina. De fato, havia sentido na desconfiança, a preta dera para roubar umas coisas da mercearia de meu pai. Coisa que ela própria puxara para si a tarefa de varrer o depósito, e dali tirar todo lixo. Sua tática consistia em levar dentro das caixas que iam pro lixo, alguma mercadoria de valor, colocada as pressas durante a limpeza. Pra depois ela própria pegar o produto do crime junto a ruma de detritos, alegando precisar daquelas caixas vazias. Quem desconfiaria? Sendo ela matreira e astuciosa esqueceu-se que um dia fora menina. E menino, vê onde ninguém enxerga. Menino é feito de sonho e fantasia. De verdade e de mentira sempre nascente, no momento, no agora. E Celina se foi. Foi demitida. Foi, levando consigo o balancejo das pretas das cozinhas de senhores de engenho. Preta saída de um conto muito antigo que fala de pelourinho, e açoite. E vieram outra e mais outras empregadas. Vieram Dulces, Marias e Sofias. E passavam. Passavam como a um folhetim que se segura no lóbulo, e faz as páginas passarem sucessivamente, e as figuras ali dentro, até então estáticas ganham vida. E se repetem.

E veio Esmeralda. Esmeralda era assim, uma bela mulata. Trazia o castanho dos cabelos dentro dos olhos amendoados. Esguia. Corpo longo. Se na puberdade, alguns anos antes daquele, tivesse tido oportunidade de ter zelo no corpo, talvez tivesse quadril mais sinuoso, sensual, não tão assim de menina pré-púbere. Se não sofrera na infância, ao desabrocharem seus seios se pronunciariam mais cheios, talvez. Mais graciosos do que já se faziam. Pode até ser que estes pormenores sejam apenas conotações caprichosas dum observador loquaz, exigente mas o que não faltava era graça em Esmeralda. Tinha gestos graciosos no andar e no falar. Na entonação da voz. Isso, dava-lhes um quê, de um bibelô de bailarina. Daquelas da caixinha de música que quando se abre, se põe a dançar. E a melodia subtraída do pequeno carrilho vem embalar nossa fantasia, de uma doce inocência e vem, e esvoaça, feito a única borboleta que escapou dos poetas desatentos. E faz rodopios no ar e teima em fazer um carinho nas pálpebras pesadas do menino exausto. Cansado de tanto fazer estripulias e que cai em um sonho manso, raso e bom, sem ter que fechar os olhos. Uma Cinderela. Sem a tristeza e desencanto no olhar por estar ao borralho.

Um dia, eu a vi chegar ao quintal para estender roupas lavadas, de suas mesmas. A que lhe vestia estava molhada, colada ao corpo. E aconteceu. Ela subitamente baixou a calcinha levantou o quanto pode a saia, e ali mesmo, no terreiro pôs-se a urinar. Eu estava a um canto que ela não via, a mim. A visão que eu tinha era da nudez de suas nádegas e quadril e o sulco que levava ao jato de mijo. Minha reação de espanto e inquietude fê-la perceber minha presença. Ela então virou o rosto em minha direção, calmamente e entregou-me dos seus olhos e lábios um terno sorriso. O mais lindo que eu já vira em toda a minha vida. Ao término do ato ela se recompôs. Eu não. E ficamos cúmplices daquele momento (para mim de entrega, de amor). Por semanas sonhei com a cena. E acordava exausto e feliz como a um noivo em noite de núpcias.

A maior qualidade de Esmeralda, não pertencia ao campo das ninfas ou de suas curvas presenteadas por Afrodite, muito menos ao mundo das habilidades com as louças, as frituras ou as roupas limpas. Nada disso, o que ela tinha de mais valioso, pertencia a nós meninos e meninas. Ela sabia contar histórias. Contar “causos”. Histórias de Trancoso. Com uma particularidade gravíssima. Só contava história à noite e se faltasse energia elétrica. Somente a luz de vela. Para ela, essa era a chave do segredo, do mistério. Enquanto que pra nós um ultimato severo, como fruta terçã. Como se seus personagens carecessem apenas de um fio de luz infinitamente fulgural de um bastão de parafina e cordão, para saírem do reino encantado onde lá habitavam. Aonde existiam.

Pedir a Esmeralda pra contar uma história durante o dia, nem pensar! Dizia que criava rabo! Não lembro se o apetrecho caudal, seria acrescentado a ela narradora ou a nós meros espectadores. Talvez isso nem viesse ao caso. Pois não queríamos rabichos nem em nós. Muito menos na linda bunda de Esmeralda. Uma noite mágica se fez. Chovia. Uma chuva de trovoada. Chuva dessas que molham, torrencial e oportuna. Os raios sibilantes e providenciais logo cuidaram de interromper a energia vinda de Paulo Afonso. Pronto! Momento perfeito. Todos à mesa. Preparados pra iniciarmos a maviosa aventura pelo mundo mágico de Esmeralda. Rostos atentos, clareados pela luz tremula da vela. Os olhos não piscavam, os ouvidos tentavam filtrar os sons trazidos pela tempestade. E o vento como quem, a querer vir ouvir também a história penetravam pelos combongós. Papai sentado numa “preguiçosa” quase na penumbra, fingia cochilar. Talvez tivesse medo de voltar a ser criança. Mamãe inventava de por de molho o feijão, tarefa que prenunciava um outro dia. Mas antes que este se fizesse, uma viagem de milhares de anos, por terra muito longínquas, iríamos fazer ainda naquela noite.

Fabio Campos 13/06/2010 É professor em S. do Ipanema – AL.
Contato: fabiosoacam@yahoo.com

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