UM JUMENTO LEVA JESUS COROADO DE RAMOS, LOGO JESUS LEVARÁ A CRUZ COROADO DE ESPINHOS

Pe. José Neto de França

Há uma contradição que nos incomoda — e deveria mesmo incomodar. O mesmo povo que estende ramos aos pés de Jesus será aquele que, poucos dias depois, gritará pela sua morte. O texto de hoje nos obriga a encarar uma verdade dura: a fé que celebra no domingo pode ser a mesma que trai na sexta-feira. “Um jumento o leva coroado de ramos, logo Ele levará a cruz coroado de espinhos” — e entre um momento e outro não está apenas a mudança do cenário, mas a revelação do coração humano, instável, interesseiro e, muitas vezes, covarde.

Não há romantização na Paixão. O Cristo de Mateus não é um herói distante, mas um homem que treme, que sofre, que sente o peso da rejeição e da solidão. Enquanto uma mulher compreende o valor do amor e se antecipa na entrega, Judas calcula, negocia, vende. O perfume derramado revela generosidade; as trinta moedas revelam o preço da alma vendida. E nós? Quantas vezes também medimos o amor, calculamos a entrega, barganhamos a fidelidade? No mercado da nossa consciência, o que tem mais valor: Deus ou as nossas conveniências?

A cruz não começa no Calvário — ela começa nas pequenas traições diárias: no silêncio de quem deveria defender, na omissão de quem deveria amar, na escolha de Barrabás que fazemos quando preferimos o caminho fácil ao caminho verdadeiro. Ainda assim, do alto da dor, ecoa a maior revelação: o Amor não recua. E é justamente ali, no abandono total, que nasce a fé mais autêntica: “Verdadeiramente, este era o Filho de Deus”. A pergunta que permanece não é sobre Judas, nem sobre a multidão — é sobre nós: seremos apenas mais uma voz no coro da incoerência, ou finalmente testemunhas de um amor que não se vende, não se negocia e não se abandona?

Pe. José Neto de França
Sacerdote, Nutricionista Integrativo e Escritor.

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