QUEM GOSTA DE VOCÊ E QUEM GOSTA DO QUE VOCÊ OFERECE… QUANDO O AFETO ERA APENAS CONVENIÊNCIA

Pe. José Neto de França

Tem gente que não gosta de você. Gosta do acesso que tem à sua vida, da atenção que recebe sem precisar pedir, da sua escuta sempre disponível, dos favores que você faz sem cobrar e da presença que nunca falha. Enquanto você é útil, chamam isso de amizade. Enquanto você resolve, acolhe, responde e se coloca à disposição, dizem que se importam. Mas basta você parar de servir para o afeto desaparecer — sem explicação, sem culpa e, muitas vezes, sem sequer uma mensagem. Para algumas pessoas, você nunca foi alguém importante; foi apenas alguém conveniente.

O silêncio não destrói relações. Ele expõe o que já estava quebrado e revela quem sustentava aquele vínculo. Quem se importa percebe sua ausência, estranha a mudança, insiste, procura e quer saber se você está bem. Quem só se acostumou com a sua utilidade segue em frente como se nada tivesse acontecido — até precisar de você outra vez. E, quando procura, não quer saber se você está bem. Quer saber por que você deixou de fazer por ela aquilo que sempre fez. Não sente sua falta; sente falta do que você entregava.

Talvez o choque não seja descobrir quem atravessaria a distância para chegar até você. Seja perceber quantos nem notariam que a sua porta continuou fechada, que o seu telefone permaneceu em silêncio e que a sua ausência não alterou absolutamente nada na rotina deles. Número de contatos não é vínculo. Curtida não é cuidado. Conversa frequente não é intimidade. E “estou aqui para o que precisar” quase sempre é apenas uma frase bonita esperando a primeira oportunidade de ser desmentida. No fim, sua ausência não afasta quem realmente gosta de você. Ela apenas retira a máscara de quem só permanecia por perto enquanto você era útil — e não há verdade mais dolorosa, nem liberdade mais necessária, do que finalmente parar de chamar isso de amizade.

Pe. José Neto de França
Sacerdote, Nutricionista Integrativo e Escritor

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