SER POETA

Antonio Machado

Como é bonito quando a manhã se levanta na juriti que se espanta com medo do caçador! Como é bonito quando o dia amanhece, trazendo o sol que aquece a pétala macia da flor, a campina toda orvalhada com o sereno da madrugada que a noite fria deixou, começando, assim, o novo dia numa bela sinfonia, enchendo o mundo de amor.

Você é essa flor da manhã, no canto da jaçanã, no apoio dolente do vaqueiro, no voo rasante do caburé. Tudo isto é o meu sertão brasileiro.

Sei, sim, prezado leitor, que isto não é um soneto, mas um trabalho puramente poético, cheio de rimas, enaltecendo a manhã sertaneja, tão bonita quanto bela. E, quando vista pelos olhos da alma, ainda fica mais bela.

Dizem que os poetas nascem, que os escritores se fazem, e realmente isto é verdade. Nenhuma escola ensina a ser poeta; o dom da poesia é nato, já se nasce com ele. A escola aperfeiçoa, ensina a métrica, a sistematização, a didática, a concordância verbal, enfim, a parte que concerne à gramática, mas nunca a poesia, porque é um dom divino.

Digo, com muita convicção, que não nasci e nem sou poeta. Não possuo essa vertente. Se escrevi alguma coisa nesse ramo, foi com a mais pura consciência de não ser poeta. Tanto é assim que meus sonetos e rimas não possuem métricas e, muitas vezes, fogem até das concordâncias verbais, um dos pontos elementares e básicos para quem escreve, notadamente para o público.

Cito:

A poesia tem seus mistérios
Que nem todos compreendem;
Uns não querem compreender,
Outros querem e não entendem.

Via de regra, surge alguma coisa que vou catalogando; outras se perderam na voragem do tempo, sem nenhuma consistência. Apenas escrevo por diletantismo, por gostar.

Os poetas são os cantores da vida do dia a dia.

A poesia vai fluindo no poeta, como o perfume emerge da flor em sua inocência, como a água cristalina de um regato para formar os grandes caudais: a poesia e o poema.

Veja só, caro leitor, esta:

"Sem ter sono pra dormir,
Resolvi sair pra fora;
Vi a madrugada dormindo
Na rede branca da aurora.
Pensei em ir embora,
Mas ela disse assim:
Fique aí pra você ver
Como é belo o amanhecer
Nesta bela e sublime hora."

Dizia o grande poeta Gustavo Barroso:

"Os poetas são como as crianças; é seu destino cantar diante da vida."

Vejo a poesia como uma vertente que se insurge repentinamente no poeta, e ele vai passando para o papel o que a mente vai lhe enviando.

Veja mais esta:

"Espinho, dor, mágoa e saudade,
Que invade meu coração aflito,
Que a vida, na sua maldade,
Deixa o mundo mais esquisito."

Sentenciava Cornélio Pires:

"Ser poeta é compreender os sentidos alheios e, pelos outros, sofrer."

A trova já vem pronta; é imediata. O soneto pode ser vagaroso, modulado e gradativo. Assim, concluo este comentário com esta quadra:

"Não nasci pra ser poeta,
Porque não aprendi a rimar;
Meus versos não têm métricas,
Facilitando, assim, o linguajar."

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