O ser humano é essencialmente festeiro; já escrevi isto reiteradas vezes, centrado na mais pura realidade. Via-se isto, não muito distante, nas festividades no sertão, mormente no mês de maio, considerado o mês mariano, dedicado a Nossa Senhora, visto ser Ela a mais santa de todas as santas, por ser o povo devoto de Maria.
Via-se, ao longo das estradas, em frente às casas das famílias, um mastro alto com uma bandeira branca, com a imagem de Nossa Senhora, colocado adredemente pela piedade daquelas famílias. Todas as noites de maio, o povo daqueles arrabaldes se reunia para rezar os chamados exercícios marianos, com terços, foguetes e louvores brotados das almas devotas à Imaculada Conceição.
No dia 31, no encerramento do mês, arrancava-se a bandeira e fazia-se a novena, que era muito concorrida, com leilões das prendas que o povo ofertava, traduzindo-se num gesto de amor e união.
Era o sertão em festa, sempre acompanhado de um conjunto de zabumba da região, a exemplo do conjunto de Júlio Baldo, jocosamente chamado de “coro frouxo”. O pife de Manoel Florêncio dos Santos não faltava, nem a genuidade de Zé do Pife e outros.
Enquanto isto, a moçada se esbaldava. Não havia luz elétrica; alguns candeeiros esparsos no terreiro, a gás e a óleo, quase nada iluminavam. Os mais velhos ficavam no fim do terreiro, tomando cachaça, bebendo vinho jurubeba e jogando pulhas; e as velhas tomavam rabo de galo, uma mistura de cachaça com alcatrão, enquanto Simião vendia “nego de doce”, Antônio Domingos negociava com bananas, Maria Preta vendia bolo e Bília vendia cocada.
No final, soltava-se o balão, e a festa varava a madrugada. As pessoas, ao se despedirem, diziam: “Até para o ano, se nós vivos formos”.
As novenas mais famosas eram a do Povoado Pedrão, a de Manoel Cariri, do Sítio Cariri, a de dona Cocó e a de Maria Preta, no Sítio Gameleiro. Era um pedaço do sertão em festa.
Mas a modernidade acabou com tudo, fazendo esquecer esses pedaços da história, tão rica quanto bela, no ostracismo do tempo. As famigeradas bandas metálicas tiraram a beleza da sanfona e a rouquice do pífano, que dava uma beleza invulgar ao “terno de zabumba”. Mas tudo isto acabou; as parafernálias das bandas vieram a se completar com os paredões.
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