O REBENTÃO – Capítulo IV – Cont.

Antonio Machado

No hotel, Francisquinho, mandou dar comida a todos, granjeando assim, amizade daqueles facínoras, tão temidos pelos sertanejos. Nesse meio, chegou ao povoado um viajante, que de nada sabia, que via de regra, aparecia no povoado a fim de comercializar seus produtos que tinha fregueses certos. Chamava-se o cidadão de Meira, e no momento dirigia um veículo pequeno denominado de automóvel. Os cabras de Lampião pararam o veículo no meio da rua, onde hoje está situado o Pinguim, no centro da cidade, com o motorista ainda dentro do carro, e resolveram queimar tudo, há essa altura já jogavam querosene no veículo, o pobre homem dentro do carro pedia socorro, foi quando Francisquinho Anastácia, pediu ao Capitão Lampião, que poupasse aquele pai de família, no que foi atendido, mas o carro foi queimado, virando cinzas em pouco tempo. Meira, o viajante, correu e foi embora, a pé, até Palmeira dos Índios onde morava, chegando aquela cidade no outro dia à tarde, onde relatou o ocorrido ao escritor Bezerra e Silva, que anos depois escreveu toda a odisseia em seu livro chamado Lampião e suas Façanhas. Conheci pessoalmente tanto Francisquinho Anastácio quanto Bezerra e Silva, ambos, me relataram a mesma história, no mesmo dia, 26 de julho de 1926, à tarde, Lampião passou no sítio Gameleiro, na casa do cidadão Ezequiel Santana que não estava em casa, Lampião entrou e encontrou um caixão cheio de farinha de mandioca, ele mandou encher vários sacos e carregou, derramando muita farinha no chão, caso este que me fora contado por Dona Miúda que apanhou a farinha, essa senhora trabalhou por 50 anos no terreno de meu pai, falecendo recentemente aos 103 anos. No Pedrão que dista 02 quilômetros do Gameleiro, Lampião pegou dois cidadãos ricaços, sendo um, Calixto Anastácio Silva, proprietário de uma bulandeira (espécie de descaroçamento de algodão) queimando em parte e ainda queimou o carro, o outro cidadão, chamava-se Isaú Ferreira Gomes, que Lampião armado de dois punhais ficou fustigando os lados de todos os dois cidadãos, exigindo dinheiro e ouro, porém, nada conseguiram e soltavam os dois cidadãos. Na saída para Olivença, no mesmo dia, encontraram uma casa perto da conhecida lagoa do Pedrão, Lampião abriu a porta com um fuzil, no quarto do casal encontrou Chico Preto, praticamente nu, no que Lampião se assustou e perguntou: e cadê sua roupa? Ao que o pobre homem respondeu: só tenho uma calça e a mulher tá lavando. De posse do cidadão Chico Preto, Lampião obrigou a montar num cavalo sem cela e nu, e o levou para o povoado de Capim (Hoje, Olivença) Lampião dava uma chibatada no cavalo e uma no cidadão. Em lá se chegando, deu-lhe uma peça de pano, recomendando-lhe que fizesse uma roupa. Porém, o cidadão envergonhado, enrolou-se numa parte do pano e voltou para sua casa, tirando somente o tecido que dava para fazer uma calça, dada a honestidade de Chico Preto, no dia seguinte ele devolveu a peça de pano que sobrou. A passagem de Lampião por Olho d’Água das Flores no longínquo no século XX foi registrado no livro De pote e esteira, chita e candieiro, da escritora Aglae de Oliveira Lima, que como pesquisadora do famigerado bandoleiro, esteve várias vezes na cidade de Olho d’Água das Flores.

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