O DOM DA POESIA

Antonio Machado



O dom da poesia já se nasce com ele; não carece ser erudito ou autodidata. Encontram-se versos rimados com tanta perfeição que não se precisa descobrir o nível cultural dessa classe sublime: o poeta.

Faço uma pequena amostra da poesia. Não sou poeta, não possuo este dom magnífico; contudo, rabisco algumas letras sem métricas, porque a beleza não está neste substantivo, mas no que se escreve.

Clássicos se perderam na voragem dos anos; porém, dada a sua beleza, parecem permanecer vivos. Porque, se o poeta perdeu-se no tempo, perenizou-se naquilo que escreveu.

Eis um clássico:

“Deus pede estrita conta do meu tempo,
e eu vou, do meu tempo, dar-lhe conta;
mas, como dar, sem tempo, tanta conta,
eu que gastei, sem conta, tanto tempo?

Para dar minha conta feita a tempo,
o tempo me foi dado e não fiz conta;
não quis, sobrando tempo, fazer conta;
hoje quero acertar conta e não há tempo.

Ó vós que tendes tempo sem ter conta,
não gasteis vosso tempo em passatempo;
cuidai, enquanto é tempo, em vossa conta.

Pois aqueles que, sem conta, gastam tempo,
quando o tempo chegar de prestar conta,
chorarão, como eu, o não ter tempo.”

Soneto: CREPÚSCULO

Ouvia-se o sino tocando na torre da igrejinha,
como que anunciando a hora da Mãe Rainha.
O crepúsculo é a Ave-Maria que um anjo trouxe do céu
e aos homens, com alegria, deu como presente de Deus.

Mas o progresso fez esquecer, e a igreja também esqueceu.
Não se ouve mais o sino tocar,
lembrando o nome de Deus neste momento tão sublime,
que eleva o homem ao céu.

(AM)

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