Colunistas: A BANALIZAÇÃO DA MORTE - Por Adriano Nunes

Cultura

Por Redação com Adriano Nunes

Sob certa perspectiva, do ponto de vista racional, pior do que a banalização do mal é a banalização da morte. Primeiro, porque o mal precisa, para ser tido como o que é, de um juízo de valor, geralmente dicotômico e maniqueísta, que aponte um lado como o lado mau e o outro como o lado bom. A banalização da morte não precisa de juízos de valor: a morte é.

Quando se legitima a morte violenta e não natural, isto é, o assassinato, o homicídio, começa-se a matar por quaisquer questões: políticas, religiosas, legais, morais, partidárias, financeiras, etc. A morte banalizada traz em si o irracionalismo da barbárie. Mata-se porque o outro é o outro, porque sendo o outro é diferente. Mata-se porque a vida do outro não faz diferença, porque o status quo ainda não é civilizado in totum, aponto de reconhecer que todos os seres humanos têm dignidade e, portanto, merecem viver e ter a vida protegida tanto legalmente quanto moralmente.

É assim que a banalização da morte age: por desprezo à razão e aos seus ditames, pondo à feira dos horrores o negócio da morte como lucrativo. Lucrativo no sentido de que a morte daqueles que são tidos como estorvos e indesejáveis pode promover uma higienização social, como forma de satisfazer uma vontade de poder moralizadora. Como bem afirma Norbert Elias, “a violência é indivisível”. Essa indivisibilidade da violência faz com que esse ato se aproxime intimamente do seu grau extremo, isto é, da morte, como um continuum.

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