Colunistas: “A antiguidade da razão: um exemplo em “Zadig”, de Voltaire”

Cultura

Por Redação com Adriano Nunes

A razão não se contradiz. A razão é par excellence a luz que categoricamente torna compreensível a realidade fatual, sem a distorcer. É ela que resolve as contradições. Ela mesma, para ter validade, submete-se constantemente à crítica. A falta de razão é que faz com que as pessoas defendam, por exemplo, os direitos do feto (isto é, contrárias ao aborto, através de consideráveis crenças e convicções, de certo modo), mas ignorem os direitos desse feto quando ele, ao nascer e desenvolver-se como sujeito de direitos e deveres, tornar-se, por exemplo, um gay, um “marginal”, um detento, ou fizer parte de alguma minoria precária e vulnerável. Ora, a razão não aceita e não compactua com esse tipo de contradição. Ela evidencia, desde o seu cerne à periferia, que todo ser humano tem dignidade. Logo, as frases como "bandido bom é bandido morto", "gay não deve ter direito a casamento" não se justificam racionalmente e sequer são legitimadas pela razão, porque elas não são, de modo algum, engendradas pela razão, ainda que possam surgir, em defesas delas, argumentos e apelos políticos, morais e éticos. A razão não admite discriminações, preconceitos, quaisquer tipos de violência. Foi a razão que fez com que o homem saísse da barbárie e entrasse no estado democrático de direito (após um percurso longo e nada linear e, de nenhum modo, determinado!), possibilitando o convívio social, ainda que este convívio esteja sempre impregnado das mais diversas formas de conflito. A razão compreende os limites das liberdades, das igualdades e das diferenças.

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