Lugares Cheios de História: 1. Curitiba Cidade-Modelo

Cultura

por Marcello Ricardo Almeida

Romancista e dramaturgo santanense Marcello Ricardo Almeida criador do primeiro jornal diário de Santana do Ipanema

LUGARES CHEIOS DE HISTÓRIAS
os velhos-novos fenômenos culturais urbanos em lugares cheios de histórias e suas temporalidades, segundo MARCELLO RICARDO ALMEIDA, nas novas-velhas cidades dicotômicas, pois se desconhecem; uma, ora se diz campo e esta mesma se diz cidade

História e Culturas Urbanas
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Numa época em que a noção de memória se transferiu para o domínio dos chips de silício, dos computadores e das histórias de ficção científica sobre cyborgs, os críticos lamentam rotineiramente a entropia da memória histórica, definindo a amnésia como perigoso vírus cultural criado pelas novas tecnologias de mídia. Quanto maior é a memória armazenada em bancos de dados e acervos de imagens, menor é a disponibilidade e a habilidade da nossa cultura para se engajar na rememoração ativa, pelo menos ao que parece (HUYSSEN, 2000, P. 67).

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1. Curitiba Cidade-Modelo
Henri Acselrad é organizador do livro A duração das cidades: sustentabilidade e risco nas políticas urbanas. Um dos textos deste livro se intitula Tempos da economia, tempos da cidade: as dinâmicas, escrito por Pierre Veltz, com tradução do próprio Acselrad. Trata-se da temática economia e cidade ?das dinâmicas econômicas (...) primeiro ponto de vista: a cidade como ator coletivo (...) segundo ponto de vista: a cidade e os atores da economia (...) terceiro olhar: o que acontece com a produção econômica da própria cidade?? (2001:139). Sublinha Veltz como se manifestam os fatores econômicos na cidade: ?Eis o que nos ensinam os tempos da cidade, onde a economia se confronta e se mescla à complexidade histórica em sua grande extensão? (2001:141). O que é a economia da mundialização? Veltz responde que é: ?uma economia apoiada em uma rede-arquipélago de grandes metrópoles, rede que concentra uma parte enorme e crescente da riqueza, do saber e do poder, e cuja emergência se faz acompanhar igualmente de desigualdades crescentes entre territórios, em todas as escalas?. (2001:142-3). Este é o novo mito? Talvez. Segundo o pensamento também de outros autores, e assegura Veltz que isto não é o fim dos Estados nacionais.

Questiona-se: por que se estabelecer na metrópole? O que ela lhe oferece? Veltz responde que ?para um empregador, instalar-se em uma metrópole limita fortemente o risco de não encontrar os empregados de que precisará em dez ou vinte anos, e dos quais ele não conhece evidentemente nem o número nem as qualificações. Isto limita também consideravelmente os custos de saída ou de reconversão, muito elevados nas cidades médias ou pequenas, em razão da estreiteza do mercado de trabalho? (2001:151).

Em outro texto, agora escrito pela arquiteta Fernanda Sánchez, intitulado A (in)sustentabilidade das cidades-vitrine, para falar da cidade-modelo Curitiba, além de outras no mundo, a exemplo de Barcelona. Com ?novo ethos ou código social, um conjunto de valores que estimula formas de ser e de viver nas cidades de hoje? (2001:157). Com todos seus prós e contras. Há um preço à criação de cada uma dessas cidades, como denunciou Dalton Trevisan: ?Curitiba foi, não é mais? (2001:203). Sánchez compara os prefeitos a caixeiros-viajantes, pois a mudança ocorre no âmbito municipal com participação dos poderes Executivo, Legislativo e empresários, com pouca ou nenhuma sugestão dos moradores da cidade que vai-se vestir com todos os ingredientes da city marketing numa espécie de pasteurização. A cidade passa a ser vendida como ecológica, florida, limpa ? tudo de acordo com a prancheta dos tecnópolis ?áreas de inovação tecnológica que participam dos catálogos das cidades que se vendem? (2001:164).

No texto da geógrafa Rosa Moura, do Centro de Pesquisa do instituto Paranaense de Desenvolvimento Econômico e social (IPARDES), escreveu Os riscos da cidade-modelo e, segundo Moura, ?Essa Curitiba de então, já foi tão desfigurada, foi cuidadosamente ?produzida? e manejada para que se tornasse uma imagem de perfeição, sem conflitos nem contradições, impiedosamente hostil ao seu fantástico ?vampiro?. Inserida no seleto rol de ?cidades-modelo?? (2001:203). De acordo com Moura, as cidades-modelo geram inúmeras conseqüências, inclusive às cidades vizinhas: ?alguns municípios, exatamente os menos dinâmicos, continuarão excluídos do processo?. (2001:207). Como excluídos do processo estão outros, sobretudo a pobreza. ?Esse processo de planejamento urbano teve início com o Plano Agache, nos idos de 1944, que previa um sistema de crescimento da cidade em forma radial. Apenas em 1966, quando é elaborado um novo plano diretor, ele passa a ser estruturado e, mesmo tendo sofrido numerosos ajustes pontuais, passa a vigorar até hoje? (2001:209). Em Curitiba ?Jaime Lerner, personalizando o processo, assume a prefeitura municipal por três gestões, duas indicado pelo governador do estado ? praxe do regime autoritário ?, e uma eleito diretamente? (2001:210). E o poder da prancheta criou as cidades-modelo em quase todos os continentes.

Vários são os símbolos da cidade-modelo, a exemplo de Curitiba, ?do ?Calçadão da Rua XV?, pioneiro no Brasil, outras intervenções urbanísticas, rotuladas como ?idéias criativas?, são formuladas em símbolos da modernidade emergente: os setores estruturais, ?o ligeirinho? e suas ?estações-tubo?, o produto da reciclagem de espaços abandonados e desvalorizadores de ?áreas nobres, que fizeram emergir ícones como o teatro Ópera de Arame, o jardim Botânico, a Rua 24 Horas? (2001:215) etc. E, a partir disto, a criação de slogans que tornam Curitiba conhecida no mundo inteiro. Moura chama a atenção para ?enquanto algumas cidades norte-americanas e européias empregam e mantêm mecanismos para uma participação contínua do cidadão em todos os níveis, evidenciando uma estrutura e uma história nas formas de participação que independem dos governantes, Curitiba deu pouca importância à oportunidade de efetivar essa prática? (2001:227).

No texto de Horacio Capel, El modelo Barcelona: un exame crítico: ?assegurando el compromisso de la iniciativa privada en operaciones de claro alcance general o público; de la planificación normal a la excepcional, encontrando comunes para la regulación cotidiana de la ciudad y las grandes actuaciones? (2005:7).

1.1 Ref.
ACSELRAD, Henri (rog.). A duração das cidades: sustentabilidade e risco nas políticas urbanas. Rio de Janeiro: DP&A, 2001.

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