PATRÃO DE SI MESMO

Contos

Marcello Ricardo Almeida

Era domingo de Carnaval.
Ao lado de Júlia, que não desviava por nada os olhos dos cadernos azuis nas caixas abertas, o vaqueiro folheava o passado, mas evitava LER com o peso das páginas coladas umas às outras.
Patão, aparecia nos sonhos do vaqueiro, gigante, peludo e na testa surgia um único olho.
– É patrão de si mesmo.
– Patrão disse mesmo?
– Patrão disse mesmo! confirmou.
A boca dele, na barriga, devorava tudo: terras, carros, gado, empréstimos, ganhos enquanto dormia. Papéis soprados pela enorme barriga a ressonar mais, mais, mais... maaaaaaaaaaais... mais... maaaaaaaaaaais...
Saía de um caderno para outro. Patrão com a letra miúda, cursiva, acanhada. A perninha do a não se unia ao p, nem se sabia quando m era n.
Baratas deixaram rastros nos cadernos pautados:
Guarde segredo, antiquário, caso almeje prefeiturar Olho D'água dos Lírios.
Júlia alertou o vaqueiro que abandonasse esse caderno.
Noutro:
Nunca mais se meta a construir escolas. Vossa Mercê evite discurso de que o fenômeno da violência se vulgarizou.
O vaqueiro encarou Júlia. Ela entregou-lhe outro caderno azul:
E não ameace Proselutos, compadre antiquário Tortenfanfoz.
Eles perderam o interesse nos cadernos sobre o antiquário.
A maioria dos cadernos estava cheia de túneis pelos quais as traças se alimentavam de escuro. O vaqueiro, com dificuldade na leitura e sem perder a determinação nas pesquisas.
O que lhe movia era o poder da curiosidade.
Ele levava a ponta dos dedos à língua e voltava à folha com o cuidado em não a danificar.
O vaqueiro encontrou uma anotação que o fez parar:
Se você está lendo isso, é porque se aproximou demais da verdade sobre si mesmo.
O vaqueiro fez Júlia sentir – ela que o segurava pelo braço com o corpo colado ao seu, a cabeça inclinada, juntou à cabeça dele – uma eletricidade que lhe atravessou o corpo dos pés à cabeça e retornou à terra ao voltar da cabeça aos pés. Ele não conteve o grito:
– O que significava isso?
Ambos continuaram. Viram uma página com uma foto. Era uma foto dele mesmo, mas com um nome diferente.
– Quem sou eu? disse o vaqueiro, que ficou confuso. Com cara de quem desaprovava tanto mistério por nada.
– Que piada estúpida! disse Júlia.
O vaqueiro aprovou o seu protesto:
– Não havia nada de maravilhoso aqui. Cê tem certeza, Júlia, que não me fez acreditar em conto de fadas?
– Juro! cruzou e descruzou os indicadores sobre a boca, e os beijou três vezes.
– Mantivesse os pés no chão, Júlia. E o Olho de Boi que tinha nas mãos?
– Isso? mostrou-lhe ingressos para o filme “Sobrenatural”, que contava a origem da magia e da metamorfose por seres extraordinários.
– E esses cadernos, Júlia? disse entre o medo e a dúvida.
Os mosquitos não os deixavam em paz. Um caderno começou a brilhar.
O vaqueiro viu um brilho naquele último caderno em suas mãos. Sentiu como se perdesse as forças. Os mosquitos não paravam. O frevo deles preenchiam a madrugada. Vivia a péssima experiência de ser puxado para dentro das páginas. Ele e Júlia, Júlia e ele.
Não demorou para ambos serem tragados por um zumbido que, no início, pareceu ser algum mosquito próximo à orelha. Viram-se, porém, em um lugar que lhes pareceu desconhecido.
Era um lugar que parecia ser do passado. Parecia Olho D’Água dos Lírios no passado. Um coxo atravessou a rua.
– Era Tortenfanfoz? disse Júlia.
– Aquele não pode ser ele.
– É ele, vaqueiro.
– Nem em 1001 noites de sono reparador!
– É ele! insistiu. É ele, sim.
– Ele, Júlia?
– Ele que roubou o papel de mim.
– Que papel?
– Onde escondi o Olho de Boi.
– O antiquário já nasceu velho. Não pode ter sido tão jovem assim.
Tortenfanfoz, que só em sonhos foi prefeito em Olho D’Água dos Lírios, perdeu a elasticidade da pele. Cobriu-se de rugas. Enfraqueceram-se as pernas. Os braços ficaram débeis. Brancas barba e cabelo. Olhos cansados sobre bolsas de gordura. Os dentes lhe abandonaram, e a gengiva ficou careca.
– Tudo gira tão rápido, vaqueiro! disse-lhe Júlia.
Na praça, atravessou um bloco. Tortenfanfoz foi engolido.
Cantava o frevo:
– Literatura é uma coisa à parte,
Disse Bonaparte em Waterloo.
Noite é noite, e dia é dia. Aliás,
Esses, ali, atacam com unhas e dentes.
Por isso, gente, vampiro evita o dia
Pra não se encontrar com o sol.
Pessoas que o vaqueiro não conhecia, vozes que não reconhecia. Antes que ele perguntasse à Júlia se aquele lugar era Alhures-Sem-Água-E-Sem-Lua, quando jovem, ou Olho D’Água dos Lírios, ela sumiu.
Os blocos, nas ruas, antecipavam o Carnaval.
Gritava o trompete ora agudo, ora grave. O trombone o acompanhava seguido pelo saxofone. A tuba, encorpada e profunda, era abre-alas ao surdo. O povo, molhado de suor, pulava. Batia a caixa, o violão ritmava a batida nas cordas. O cavaquinho, agudo, vibrante. O bandolim seguia a flauta, que ia atrás do clarinete. Nas praças, nas ladeiras, assanharam-se os pandeiros. À frente, os suaves bombardinos.
No lugar desconhecido – nem Olho D’Água dos Lírios, nem Alhures-Sem-Água-E-Sem-Lua – uma mulher aproximou-se do vaqueiro, com olhos molhados.
O vaqueiro ouviu uma voz que o fez parar:
– Vaqueiro, é você?
“Paro de criar. Desisto. Ninguém vai ler isso.”
Tecoteleco!
“Personagens podem ter razão, mas também não podem.”
Teco, teleco!
“E quando personagens têm razão, e quando não?”
Teco, teco!
“Vejo que não há nenhum valor literário nessa pilha de palavras sem energia. Como alguém consegue escrever algo tão ruim?”
Teco!
“Só sigo em frente por recomendação médica. Se não seguir com rigor o que me foi prescrito, o coração vai recusar-se de vez em bombear a energia que me resta.”
Tecoteleco!
“Bem perto, bem pertinho do centenário. Não posso desistir agora.”
Tecotelecoteco, teteco! Tecotelecoteco, teteco! arrancou Ele com um zás a folha do cilindro da máquina de escrever e a abortou.
“Sou adepto da fé de que se eterniza quem chega aos 100. Mas o que eu vou ver se não já vivi?”
Tecotelecoteco, teteco! Tecotelecoteco, teteco!
“Eles não sabem que vivemos o semiocapitalismo? Alguém precisa dizer isso a eles. Mas ninguém tá disposto a dizer. Depois, isso não cabe em nenhuma parte desta narrativa.”
Teteco!
“Hoje, acordei muito cedo; ontem, foi a mesma coisa. Que tá acontecendo comigo? Isso cheira a ficar acordado pra ver a vida passar. Engraçado, o dia do aniversário, esse ano, coincidiu com o lançamento de mais um livro. Acordo no meio da noite sempre que vou dormir cedo. Saí da cama, no escuro. Em silêncio. O bisneto tá aqui em casa com a avó: minha caçula. Posso acordá-lo cada vez que vou ao banheiro; não farei isso com ele, que dorme entre os livros. Caminho pela casa, tropeço na sintaxe das coisas, deixo a estrutura mole. Recomponho a semântica, quando volto à cama. Como demoro a afundar no sono profundo! Converso com a semântica, investigo, descubro sempre. Não me surpreendo se o vaqueiro não é verossímil e enredo incongruente: coisas que se repetem, fatos que se contradizem. Acho que ainda tô na cama. Engraçado isso, porque ouço o telecoteco da máquina, que não me deixa dormir. Interpretei o vaqueiro como personagem dentro de personagem de um sonho. Tipo assim, ele sonhava com ele sem saber com o que se relacionava o sonho e acordou sem reconhecer-se, nem a família, nem a casa, nem o lugar onde mora.”
Tecotelecoteco, teteco! Tecotelecoteco, teteco!
O vaqueiro pareceu atingido pelo frevo. Balbuciou, sem saber o que dizer. E, nessa hora, lhe ferveu o estômago.
– Meu nome é Sophia! disse a mulher, que tentava superar o som da festa com a boca colada ao ouvido do vaqueiro.
– E Júlia? disse o vaqueiro.
– Quem é Júlia? disse Sophia.
O vaqueiro se virou, e a viu:
– Quem é você? disse, confuso.
A mulher sorriu:
– Você é meu filho.
Tecotelecoteco, teteco! Tecotelecoteco, teteco!
Os foliões espremiam-se. Os blocos agitados. Os metais frenéticos.
Aproximou-se um vulto.
O vaqueiro ficou surpreso.
A mulher estremeceu.
Patrão, sem motivo nem piedade, arrancou o cinto largo de couro do cós. Brilhou no ar a fivela de bronze.
“Tô decidido: hoje mesmo, abandono essa narrativa. O mundo tá cansado de narrativas. Ninguém suporta mais tantas mentiras fantasiadas de verdades. A narrativa se presta muito bem à mentira. Vou começar outra história; essa, eu conto sobre quatro primos que saem pela cidade à procura de filmes em DVD. Ou eles vão, melhor, vão, nas ruas estreitas do centro, caçar livros autografados pelos autores sem leitores, na Rua dos Sebos. Ih! Acho que não. Ninguém sabe mais o que é uma tevê, quem dirá um filme em DVD. Tava todo mundo nas redes, na pressa, no sarcasmo. Que palavra: sarcasmo. Quem, hoje em dia, sabe o que significa. Significa sarcasmo, ora! As palavras foram encolhidas na boca do povo. Percebeu? Percebi. O vocabulário de cada qual tem passado por bela aridez. Não demora, ouço as palavras substituídas por monossílabos.”
Os dedos pararam sobre as teclas da máquina de escrever. "Se ao menos eu tivesse sono. Mas não fui agraciado com essa sorte. Quem era boa de cama era a finada, que mal chegava à cama e ferrava no sono." 
Te...co, te...le...co...te...co!
"Essa mania de fazer tudo de improviso." reclamou Ele, alto, como se quisesse acordar a casa inteira, acordar a Avenida Nossa Senhora de Fátima. Bruscamente, trocou os óculos que usava pelos óculos na mesa de trabalho. "Eu devia me conformar com a minha idade. Foi pra isso que eu me matriculei na Escola de Escrita Criativa?" resmungou mais alguma coisa; voltou a usar os óculos de antes. "Por que a literatura não é como andar de bicicleta? Não. Ela tem que ser sempre uma nova e maldita queda de bicicleta." Então, Ele abandonou a Olivetti do Brasil. Levantou-se. Ficou acocorado diante de uma gaveta pesada de anotações. Enterrou o braço entre cadernos de arame, folhas pautadas, e arrastou, lá do útero, as anotações que procurava.”
Leu:
Veja um pai que despreza tanto o seu filhinho, 
Que o idolatra feito um bezerro de ouro; 
E a mãe ignora e lhe diz NÃO o tempo inteiro. 
Ela só tem olhos pra festejar o genitor.
Curva a criança a boca em arco na tristeza, 
Enquanto a vida vai lhe negando o amor.
"Inicialmente, o que fiz foram versos alexandrinos. Como costumava fazê-los nos intervalos do café, no Jornal do Sertão!” meteu fogo no cachimbo. E, com o palito de fósforo, obrigou o fumo picado a acomodar-se no fornilho.
Esboçou um sorriso de canto de boca que há muito não o fazia. Gestava Ele um enredo dentro de outro.
“Vi que os versos seguiam a estrutura alexandrina clássica. Tavam, ali, os acentos, bem na minha frente, na 6ª e 12ª sílabas, isto separava cada verso em dois blocos. Exato. Como havia programado pra desenvolver essa narrativa.”
Releu o rascunho numa folha de caderno:
Ve-ja um-pai-que-des-PRE-za / tan-to o-seu-fi-LHI-(nho),
Acentos: 6ª e 12ª.
Que o-i-do-la-tra-FEI-to / um-be-zer-ro-de-OU-(ro);
Acentos: 6ª e 12ª.
E a-mãe-ig-no-ra e-LHE-diz / NÃO-o-tem-po-in-TEI-(ro).
Acentos: 6ª e 12ª (acentuação de "lhe" é secundária, o apoio recai sobre "diz" no 7º tempo, o que cria um ritmo ligeiramente sincopado).
E-la-só-tem-o-LHOS-pra / fes-te-jar-o-ge-ni-TOR.
Acentos: 6ª e 12ª.
Cur-va a-cri-an-ça a-BO-ca / em-ar-co-na-tris-TE-(za),
Acentos: 6ª e 12ª.
En-quan-to a-vi-da-VAI / lhe-ne-gan-do o-a-MOR.
Acentos: 6ª e 12ª.
“É. Realmente. Eu ia no caminho que havia. E eram versos brancos, sim; mas era assim o que eu queria que fossem. Binário/terciário com pausa, a cesura após a 6ª sílaba – fui nesse ritmo. Acentuação com predomínio de seis e doze, e criei o ritmo majestoso e lento pra forjar a narrativa.”
Mais fumo no fornilho.
“Fiz comparação (ou símile, como preferia a Escola) no trecho: ‘...Idolatra feito um bezerro de ouro.’ E a conjunção ‘feito’ estabelece uma comparação bem explícita – bem como eu queria pra não ficar nenhuma dúvida à consciência. Era um filho que não era apenas amado, mas adorado de forma cega e materialista, como o ídolo Bezerro de Ouro bíblico, com isto, o texto sugeria uma adoração superficial ou equivocada – quem lesse tiraria as suas próprias conclusões.”
Mais fumo.
“Na antítese, fiz ocorrer a aproximação de termos com sentidos opostos (desprezo versus idolatria). Criei a figura pra ressaltar a contradição do pai: ele despreza a essência do filho enquanto idolatra a sua imagem ou existência como um troféu.”
Fogo.
“Entre as metáforas, compus o verso ‘Curva a criança a boca em arco na tristeza’ e, assim, de ‘boca em arco’ apresentei a metáfora visual que se iguala ao choro e descreve a forma física que a dor assume em seu rosto.”
Baforou.
“Atribui à ‘vida’, no verso ‘Enquanto a vida vai lhe negando o amor’, um conceito abstrato à ação humana de ‘negar’ algo deliberadamente. Isso confere um tom de fatalidade ao destino da criança.”
Baforou mais forte.
“Acrescentei uma pitada de hipérbole no verso ‘Ela só tem olhos para festejar o genitor’, exagerei para indicar foco total. A mãe não enxerga apenas uma coisa, está claro, ela dedica a sua atenção exclusivamente ao parceiro, em detrimento do filho.”
Parou de baforar. E correu o indicador na lombada dos livros empilhados na mesa de trabalho.
“Fiz alusão ao Bezerro de Ouro.”
Tamborilou a unha na palavra êxodo.
“Evoquei a ideia de um falso deus criado pelo povo. No contexto do enredo desenvolvido, a sugestão de que o amor do pai é, na verdade, uma forma de desvio, um pacto às avessas.”
Baforou rápido, porque viu no fornilho sumir o fogo.
“Com assonância, provoquei a repetição de vogais. Foi de propósito a repetição desses sons para criar uma harmonia sombria e monótona. Vogais abertas e fechadas no verso ‘Veja um pai que despreza tanto o seu filhinho’ para criar uma variação tonal que desse destaque à palavra ‘despreza.’ E também fiz se repetirem consoantes com aliteração no verso ‘E a mãe ignora e lhe diz NÃO o tempo inteiro’; a repetição das nasais – m, n – para criar um som abafado, quase como um lamento ou um resmungo contínuo, e, assim, reforcei a ideia de negação.”
Avivou o fogo. O fornilho fumegou.
“E não me esqueci de criar cavalvamento que, na Escola, o professor Teo prefere enjambement. A ideia nascida em um verso não terminava nele mesmo, mas, digamos, saltava ao verso seguinte e, lá, completava o sentido: ‘Veja um pai que despreza tanto o seu filhinho/Que o idolatra feito um bezerro de ouro’, porque assim quis que gerasse continuidade e fluidez. Impedi a pausa brusca. Intensifiquei a conexão entre o desprezo e a idolatria bizarra ali descrita.
O fogo consumia o fumo.
“Ah, me lembrei da inversão sintática com a hipérbole. No verso ‘Curva a criança a boca em arco na tristeza’, a ordem direta seria: ‘A criança curva a boca em arco...’ A inversão coloca o verbo ‘curva’ no princípio, ela dá destaque imediato à ação de sofrimento e à deformação física causada pela tristeza, antes mesmo de identificar quem sofre.”
No fornilho, o fumo em silêncio: iluminava-se, apagava-se.
“Mesmo sem ser um polissíndeto clássico, como se aprende na Escola de Escrita Criativa, repetição de conjunções, o verso ‘E a mãe ignora e lhe diz NÃO...’ cria um efeito de acúmulo de ações negativas, e isto provoca a sucessão ininterrupta de eventos.”
A cadeira, diante da máquina de escrever, gemeu ao ser puxada por Ele.
“Não me esqueci de criar contraste estrutural.”
Baforou. Baforou, baforou, baforou, baforou. A cadeira, imóvel, suportava o peso do contista.
“O enredo, eu o construí sobre uma base de oposições binárias que estruturam o drama familiar. A dicotomia pai versus mãe, no verso ‘O pai idolatra/despreza; a mãe ignora/festeja o outro.’ Idolatra versus negação: o excesso de um lado (bezerro) e a absoluta falta do outro (negar o amor).”
Pôs uma folha em branco sobre a máquina.
“Reli a desumanização da criança: objeto de adoração. Contradição? Sim. O pai ‘despreza’ e ao mesmo tempo ‘idolatra’ o filho como um bezerro de ouro.’ O que sugere que o pai não ama o filho pelo que ele é, mas o utiliza como uma espécie de prolongamento do próprio ego ou mesmo um símbolo de status. Esse filho é um ‘troféu’ para ser exibido, e a comparação com o bezerro de ouro indica uma adoração material e fria, longe de ser humano que carece de acolhimento.”
O cilindro da máquina de escrever ficou grudado à folha.
“Apresentei no enredo a invisibilidade e a rejeição materna. Enquanto o pai enxerga o filho como um objeto de culto, a mãe o trata com a mais absoluta indiferença ao ignorá-lo, e a negação é constante ‘...Diz NÃO o tempo inteiro.’ A figura materna é descrita como alguém que abdica do papel de cuidadora para se focar de maneira exclusiva na ‘festa’ ao genitor. Há uma clara inversão, aqui, de prioridades: a manutenção da relação com o parceiro é mais importante do que o suporte emocional à criança.”
Os dedos do contista tamborilam nas teclas da máquina de escrever.
“O destino fatalista do herói com ‘Enquanto a vida vai lhe negando o amor’ não lembra a você a sombra do determinismo? Ao menos sugere que essa estrutura familiar está roubando da criança a capacidade futura de ser amada ou de entender o que é o amor, transformando a carência em uma condição existencial. É um quadro sobre o egoísmo parental. A criança é retratada presa à idolatria e ao descaso, moldada pela dor no gesto da boca em arco, tornando-a vítima silenciosa de um espetáculo de vaidades adultas.”
Saboreando, baforou por uma eternidade. Formou Ele nuvens por toda a parte, anéis de fumaça.
“Como é fácil cair na trama de uma narrativa!”
Num longo caminho de fumaça, Ele baforou.
“Rabisquei, sem pretensão nenhuma, uma tragédia psicológica no seio de uma família narcisista. Vejo agora. A criança está ali como um estorvo com o seu olhar que olha para cima e vê gigantes indiferentes a quem devota o seu legítimo amor. A desumanização gradual da vítima é percebida nas palavras da narrativa, na hierarquia de distanciamento e ironia que reforça a frieza do ambiente familiar. O uso do diminutivo ‘filhinho’ presentifica a cruel ambiguidade: falsa ternura, pois, à primeira vista, parece termo carinhoso, logo é associado ao verbo ‘desprezar.’ A coisificação encontra-se no diminutivo, que reduz a importância do herói, que não é apenas personagem, é algo pequeno, frágil e manipulável, que o pai pode ‘idolatrar’ como se fosse mero brinquedo ou um objeto de decoração.”
Tlim! soou na máquina de escrever.
“A perda de identidade nos termos de parentesco (filhinho/filho) e passa a usar ‘a criança’ e, com isso, neutraliza e abandona. O distanciamento biológico e formal na personagem da mãe surge como quem quer ‘festejar o genitor,’ e a substituição da palavra ‘pai’ por ‘genitor’ retira a afetividade da relação. Se o ‘genitor’ é o centro das atenções, o ‘filho’ é apenas acessório. A personagem não valoriza o papel dele com o filho, mas a sua função de parceiro ou pela posição de autoridade.”
Tlim!
“Eis um conto com o qual eu deveria me preocupar. Esquecer de vez esse enredo do vaqueiro, essas memórias do Jornal do Sertão, vinculado ao Jornal de Alagoas. Escrever mais sobre o triângulo de abandono. Isso sim, vejo, haveria mais leitores. Ninguém lê mais jornais. Quase ninguém mais sabe o que é jornal impresso. O livro impresso tá na mesma vala onde o amor à leitura é desviado.”
Tlim!
“Mãe foca no pai: ‘...Festejar o genitor’ e, por sua vez, pai foca na imagem do ‘bezerro de ouro.’ E a criança? À margem. Resta-lhe tão-somente o arco na dor da sua tristeza. Eu não posso continuar com esse conto sobre a deformação pelo sofrimento. Eu vejo ‘...A boca em arco na tristeza’ que mostra que a tristeza não é apenas um sentimento, ela tem peso físico. Ela ‘curva’ a criança, moldando a sua postura e a sua expressão.”
Tlim!
“Não, não, não posso. Vou parar. Não posso representar uma infância que perde a leveza e a retidão pela ausência proposital de nutrição afetiva. Recuso-me a recriar mais um destino fatalista. Não posso enaltecer ‘Enquanto a vida vai lhe negando o amor’ o roubo à felicidade da criança.”
Tlim!
“Por que eu não termino de vez o mistério entre Júlia, o vaqueiro e Patrão? Fiz tudo de improviso por quê? Mudei a história tantas vezes, tantas vezes fui e voltei.”
Saiu Ele do escritório. Retornou em seguida. Não sabia onde ficou o seu cachimbo. As unhas foram à testa. Procurou o cachimbo nas gavetas.
“Eu o deixei aqui. Ou não?”
Coçava Ele a testa.
“Fiz bem o meu papel? Acho que não.”
Na última gaveta, jogado entre papéis, cochilava o cachimbo.
“Acho que vou voltar ao jornalismo.”
Voltou a abrir e a fechar gavetas.
“E a caixa de fósforos, meu Deus!”
Levantou-se. Sentou-se. Não a encontrava.
“Tudo mais fácil agora. Afinal, o segredo da fonte era o perfeito antídoto à kryptonita, talvez o único.”
As mãos entre os livros, na estante. As mãos entre os livros, na mesa.
“E a caixa?”
Tateava entre os papéis avulsos.
“Naquele tempo, não, naquele tempo, tudo parecia uma janela emperrada por galhos de árvore. Hoje, o jornalismo era mamão no mel. Amanhã, voltarei ao jornalismo. Tô decidido. Amanhã. Mas, talvez, eu voltasse à história do vaqueiro e encerrasse de vez tudo isso. Não deixaria o vaqueiro no meio do pasto.”
Foi um alívio ao ver a caixa de fósforos ao lado da máquina de escrever.
“Que faço pra concluir essa narrativa, vaqueiro?” 
Tecotelecoteco!
O frevo acalmou-se, silenciou, desapareceu.
Na rua, como se o medo lhe espreitasse, vaqueiro pulou com o sumiço de Júlia substituída por um vulto.
– Quem é você?
– Eu sou a sua mãe Sophia.
Na casa do vaqueiro.
– Que volume é esse em seu bolso?
O vaqueiro pôs a mão e percebeu o revólver que Júlia lhe entregou, lá, no início. No outro bolso, as balas pesavam.
– Por que tá fechando as janelas, meu filho?
– Porque tem gente me procurando.
Vaqueiro à procura de um esconderijo:
– Não fale nada. Diga que não me viu.
Vaqueiro da cor de uma vela.
– Vi pessoas estranhas na rua. Uma pessoa não saía da esquina. Noite e dia, por aí, aqui perto de casa, lá na esquina.
Patrão aproximou-se deles. Sophia buscou abrigo.
O vaqueiro pareceu em um labirinto: não sabia aonde ir.
– Vaqueiro, eu quero o meu quadro de volta, vaqueiro. Você sabe quanto custa aquele quadro? O quadro vale mais do que essa casa! disse Patrão. Um valor que pode mudar todos os meus investimentos.
O vaqueiro parecia ter chumbo nas pernas. Ficou impedido de fugir.
– O que eu devo fazer? insistiu Patrão. Os dois têm duas opções: devolver o quadro à parede ou uma temporada na cadeia.
Sophia rogou ao vaqueiro:
– Filho, eu quero que sejas feliz. Mas quero antes que faça o que é certo.
– Eu quero fazer o que é certo.
Patrão sorriu:
– Então, vamos começar. Você tem muito a aprender.
Sophia colocou-se entre Patrão e vaqueiro:
– Hoje, você não vai machucar ninguém.
– Você é idiota, Sophia. Você sempre foi.
O vaqueiro foi envolvido por uma onda de revolta e medo. Ele sabia que tinha que mudar a situação doméstica. A fisionomia, porém, demonstrava não saber por onde começar. Sentou-se no chão. Esfregava, repetidas vezes, a mão no estômago, era como se uma mistura de emoções lhe tomasse de assalto. De súbito, ele levantou-se e pareceu excitado. Passou a mão na cicatriz, na testa.
– Era uma fortuna a tela das cabeças cortadas. Acabei de saber, na praça, que o teu filho procurava comprador pra tela das cabeças cortadas. Era verdade? Vocês não mintam. Eu quero a verdade. E se essa for a verdade, eu mato vocês hoje.
Patão a arrancar o cinturão, que tinha devolvido ao cós.
– Vaqueiro, seu fela da...! ergueu o braço Patrão com o objeto do castigo.
A cara do vaqueiro queimou com a imagem do cinturão no ar, e o corpo foi banhado de instantâneo suor.
– O senhor fica aqui de conversinha com essa senhora.
– Essa senhora é minha mãe.
– Seu vagabundo respondão!
– Ele é seu filho, Patrão.
– Não lhe perguntei nada, mulher. Vaqueiro fica aqui enquanto as vacas morrem de fome. Levou o sal? Levou nada! Foi consertar a cerca? Consertou nada!
– Não bata nele!
– Fasta, fasta, fasta!
– Por amor de Deus, não espanque mais esse menino!
– Sai da frente.
Patrão não parava de berrar:
– Sai, mulher. Come do meu pão, leva do meu cinturão. Sai, mulher.
– Não saio.
– Lembra-se da última vez? Vou tirar uma tira de couro do teu lombo também.
– Não vai.
– Ficou macho, o machinho?
– Não vai bater mais nela.
– Não?
– Nunca mais vai levantar a mão nessa casa contra ninguém, seu bruto.
– NÃO?
Ela correu. Ficou atrás do vaqueiro.
O braço, ligeiro e pesado, agitava no ar, a fivela batia nos móveis.
– Seu inútil.
– Para!
– Seu estúpido, preguiçoso!
– Para com isso, Patrão.
– Teu filho é um incompetente, vagabundo. Não vai ser nada na vida. Veja os filhos do nosso compadre, mulher, já são patrões de si mesmos. Não protege mais essa casca de gente. Vem cá, vaqueiro. Não foge, vaqueiro.
– Ele tem nome.
– Vaqueiro.
– Areté para, para Areté. O nome dele é Areté... igual ao seu, o nome dele é Areté.
– Primeiro, vai ser em você, mulher. Depois, mulher, eu me acerto com o teu filho.
– Eu também tenho nome.
Pai, mãe e filho molhados de suor.
– Temos um pacto, meu amigo. Não conheço ninguém, nessa cidade, com a idade dele, que não é patrão de si mesmo. Seu incompetente do diabo!
– Não corre atrás dele.
– Para, para de se esconder debaixo da saia dela. Hoje, é esse o modelo de negócio.
Intimidava Patrão. Berrava a plenos pulmões.
– Isso nem sabe o que é modelo de negócio. Ou é patrão de si mesmo ou não sobrevive. Não tem cabelo na cara e quer destoar sob o meu teto.
– Não, Patrão! Não, Areté!
– A Fazenda Casa Velha caindo aos pedaços e esse vagabundo em casa. A casa velha? A casa velha já foi a casa grande do avô do meu avô. E o senhor com o carro que me pertencia, vaqueiro. Acha que esqueci? Anotei no calendário o dia. Quer vê-lo? Tá aqui no meu bolso. 26 de julho, na festa de Santana. E vai pagar cada tintim.
O silêncio cortado por gritos que se iniciaram na cozinha e tomaram toda a casa, toda a rua, todo o bairro, toda a cidade, todo o estado, todo o país.
A agonia de repetidos golpes no corpo não conseguia fazê-los esquivar-se. As pernas dela fraquejaram.
A fita de sangue correu no rosto. A fivela do cinturão atingiu Sophia. Numa ação rápida, vaqueiro enterrou as mãos nos bolsos. Solta, fugiu a primeira bala, seguida por outras que comiam o mundo em estalos de espoleta, na queima da pólvora. Vaqueiro puxava o cão, apertava o gatilho, mesmo sem bala na agulha.
As dúvidas terminaram. Patrão não pertencia mais a ele mesmo.
Era 26 de julho: Festa de Santana.
Os projéteis cilíndrico-ogivais foram expelidos do tambor na arma na mão do vaqueiro em frações de segundos. Chegaram os cilíndrico-ogivais inteiros no tórax de Patrão que cambaleou e caiu.
A folhinha marcava 26 de julho: Festa de Santana. A luz rasgou o escuro na madrugada de festa, levou a vida de Patrão. Se foi. Deixou a tela das cabeças cortadas nos degraus da Igrejinha do Monumento.
Sophia livre dos gritos de Patrão. A prepotência caiu com ele e formou no chão um líquido tinto espesso e sem cheiro. O relógio, que marcava o tempo na igreja, perdeu os ponteiros. Caiu Patrão com o peso dos ponteiros. O tempo nunca mais foi. Congelado, Patrão parecia dormir sobre o sangue espesso.
O grito de Areté foi demorado. Foi difícil imaginar que uma arma pequena e fria pudesse fazer tantos buracos. Miúdos buracos de minhoca transformados em túneis submarinos cujas baleias-cachalotes não entenderam. Patrão nunca mais poderia abrir um livro, os livros ficariam parados no tempo. "Tom Sawyer" não o alcançaria mais, não o alcançaria mais "Moby Dick" ou "Quincas Borba" – porque Patrão perdeu, com os projéteis cilíndrico-ogivais dentro do corpo, o movimento, o animus. Patrão não falaria mais de moinhos, nem de experiências barbarizantes, como se vivesse na ilha, isolado da civilização. Dormiam dentro dele os projéteis cilíndrico-ogivais. 
A caminho da festa de lançamento do livro, Ele andava na calçada, depois da última chuva. As poças que ficaram no asfalto refletiam a lua que brincava entre os blocos dos prédios comerciais.
Por um instante, Ele imaginou-se no dia em que entrou pela primeira vez no prédio do Jornal do Sertão. Foi sua autonomia e criação a primeira equipe do JS. Fotógrafo, o aluguel dos dois pisos, telex, telefones, repórteres, redator, setor comercial, vendedores de jornais. Todas as tardes, saía o malote do JS para ser impresso onde se imprimia o Jornal de Alagoas. A primeira edição foi às ruas em um domingo de outubro. “Quem segurava o tempo, já estávamos em março?”
Os passos preenchiam a calçada, e Ele não tinha pressa, como sempre. As luzes cobriram a rua larga, quase sem movimento, verde-chá, amarelo-lua a iluminá-la.
Durante os autógrafos, Ele pôs a tiracolo o bisneto de chapéu de vaqueiro e xoboi. O tempo marcou carreira na maratona das horas.
Disse Ele aos presentes:
– A cessão de direitos autorais não tardaria a chegar.
A seção de mistério preenchia todos os espaços.
Na sessão de autógrafos, Ele comentou:
– Mais cedo, determinismo, livre-arbítrio e...
A plateia ficou atenta com sujeito, verbo e complemento. E Ele dirigiu-se ao predicativo do sujeito:
– E essas palavras, que cobrem páginas, são expressões necessárias às substâncias.
Outra noite de autógrafos.
O sujeito ao lado do verbo, e este do predicado. Durante o lançamento do livro, Ele distribuiu com os convidados o marcador com os seguintes dizeres:
“Você pensa por palavras. Não as despreze, tampouco as reduza.”
– E o que, exatamente, são as substâncias? disse uma repórter. Mais uma pergunta, mais uma pergunta, por favor, mais uma pergunta. Vaqueiro absolvido, no tribunal do júri, por legítima defesa de terceiro. E me diga qual será a narrativa do próximo enredo. Tudo é uma questão de narrativa, não é?
Na semana seguinte, Ele começou outra história.
Tecotelecoteco, teteco! Tecotelecoteco, teteco!
“Acompanhei tudo o que aconteceu, no final do milênio passado. Isso não me faria esquecer, pois testemunhei o fim da subjetividade humana.”
Tlim!
Os mosquitos são os vampiros da noite.

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