CARNAVAL TODOS SÃO POSSIBILIDADE

Crônicas

Alberto Rostand Lanverly Presidente da Academia Alagoana de Letras

Finalmente, o Carnaval chega, desamarra a rotina, vira o leme dos dias e inunda as ruas com cores em febre, brilhos que piscam como estrelas cansadas de silêncio, batuques que fazem o coração aprender outro compasso. É uma explosão de alegria sem manual, convite coletivo ao disfarce e ao sonho.

Por alguns dias, cada um pode ser outro: marinheiro de mares imaginários, político sem promessas, rei sem trono, pirata de risos soltos, palhaço de alma leve ou até o enigmático Fantasma da Ópera, cantando o que o cotidiano costuma calar.

Repousando em meu isolamento na Barra de São Miguel, fico a pensar como seria difícil, para grande parte dos brasileiros, perder a oportunidade de esquecer suas tristezas e adiar problemas, pois o carnaval para muitos é como um sonho que anula as dificuldades e prorroga infortúnios, festival de máscaras e fantasias, onde ao longo da avenida o Mickey abraça os Irmãos Metralhas, enquanto o Lobo Mau em pele de cordeiro puxa o cordão dos Três Porquinhos.

E, se essa festa radiosa não acontecesse, só restaria meditar sobre a vida que nos cerca, na expectativa de encontrarmos forças e habilidades para descobrir o que está por detrás das máscaras usadas por nossos semelhantes.

Se no carnaval elas caem depois de um ou dois goles de cerveja, no cotidiano tal distinção exige um exercício permanente de percepção e sensibilidade.

Quando, anos atrás, a pandemia tomou conta do planeta, em março de 2020, fomos levados ao isolamento. O medo aportou em nossas vidas, e sorrisos foram apagados por pedaços de tecido colocados sobre boca e nariz, que passaram a ser instrumento de defesa de todos, junto com rígidas medidas de higiene.

Passamos a viver escondidos, mascarados, como foras da lei que usam esse artifício para cometer atos ilícitos, ou como mulheres que, por convicção religiosa, usam véu e deixam suas expressões menos visíveis. O avanço da pandemia, que sacramentou o uso dos protetores faciais, também influenciou para que as máscaras simbólicas de muitos viessem a cair.

Se, por um lado, tal artefato passou a ser elemento de solidariedade, protegendo o usuário e seu próximo, com o passar dos meses vimos várias personalidades verem suas máscaras desmoronarem, mostrando o seu verdadeiro eu: egoísmo, indiferença, ignorância, ganância. Em contraposição, deparamos também, vindo de quem menos esperávamos, com atitudes de solidariedade, gentileza e atenção.

Mas a vida é assim. Relembrei, outro dia, ao ler sobre as ruínas do Templo do Oráculo de Delfos, na Grécia, à época conhecido como o “umbigo do mundo”, ponto onde o humano e o divino se encontravam, duas inscrições que nunca esqueci: “Conhece-te a ti mesmo” e “Nada em excesso”.

Alguns milênios depois, tais recomendações são incrivelmente atuais. Na vida tribal que nos foi imposta, temos a oportunidade única de praticar ambas e enxergar que, na vida real, o carnaval não se limita aos quatro dias de folia.

Quando menos esperamos, nos topamos com o nosso “carnaval pessoal”, quando usamos máscaras para atuar no cotidiano, e, pior ainda, temos de enfrentar o “carnaval alheio”, que tem na vaidade, ganância, traição e hipocrisia seus mestres de cerimônia.

É impossível, mas que bom seria que as máscaras caíssem de uma vez e nos mostrassem quem somos de verdade. Só teríamos a ganhar, pois possuiríamos uma identidade única e ninguém poderia alegar outra coisa sobre nós.

No Carnaval, ninguém é apenas quem é. Todos são possibilidade.

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