Delay vivia nas sombras. Quase não se ouvia a voz de Delay.
Zumbido próximo. Era espiritual. Som das asas. O sinal de acasalamento. A rapidez cada vez mais acelerada. Em busca de comida. Longo zumbido.
Sob a árvore de falsa sombra e de falsos frutos:
– O mundo sabia desde o início. Se quisesse conhecer a vida adulta era só dar-lhe poderes. A vida criança? Liberdade. E ao mundo? Sossego.
A cada canto grandes olhos cuja visão alcançava a equipe diretiva, nunca escapou a turma da faxina. Estes temiam o sol e os espelhos. Sempre às escondidas. Eram impotentes se lhes perguntassem sobre os seus pés, e se pavoneavam escalar o Everest a cada novo ano. Em cada corredor de paredes dobráveis de néon, os grandes olhos e a boca despejaram toneladas e toneladas sem nenhum limite.
Serpente a cada canto ameaçava o fim do paraíso. Pronta. Atenta. E antes mesmo da traição a Júlio César, adiante traiu Iscariotes, traiu Calabar. E em cada parede dobrável de néon na velha escola havia uma língua ferina à espreita. Era o ódio desatado criador de raízes, que criou cabelo. Nenhuma solidariedade na árvore onde vieram galhos, folhas, espinhos sempre os mais traiçoeiros.
No pátio da Escola FazRegra, sob a árvore de falsa sombra e de falsos frutos:
– Deve ser uma coisa terrível para quem quer ter poder e perdê-lo.
– O acerto só vem depois de muitos erros.
Em pequenos grupos, remanescentes funcionários conversam no pátio da escola sob a árvore de falsa sombra e de falsos frutos:
– De que se tratava essa moléstia? Ouvi falar, e não sabia que ela era o que era. Vinha pela planta do pé e avançava até a virilha. Quando foi que você percebeu ter começado isso? Ouvi falar ou li em alguma tela que essa coisa era a coisa mais perigosa do mundo. Isso aí surgiu na escola?
Em outro grupo na escola sob a árvore de falsa sombra e de falsos frutos:
– Nas férias, eu quero, finalmente, visitar meus pais em São Paulo.
– Era longe... E você me falou que a casa dos seus pais ficava a dez horas da capital. Eles ainda estavam vivos? Que coisa interessante. E eles escaparam da doença que começava pela sola dos pés. Que diabos de sorte! O comentário é que se livra quem fica longe das telas. Mas não tenho como correr delas. Vivo por isso, você sabe, é o trabalho; ele exige isso de você. Não exige? Ele nos faz dormir e acordar agarrado nas telas.
Em um grupinho mais afastado sob a mesma velha árvore de falsa sombra e falsos frutos:
– Não era morango? Era a festa das uvas. Sempre desconfiei. E o horror que tudo isso provocava nas pessoas, não era desse mundo. Viu o resultado das provas. Que coisa maluca, gente! Espere. Deixa falar. Foi assim. Viram o tombo?
Sob a árvore de falsa sombra e de falsos frutos, onde se podia ver todas as partes da Escola FazRegra:
– Misericórdia, Senhor! Sai daí, Ceuto. Sai daí, menino! Ela lhe morde, Ceutinho. Ele te belisca. Tu vais ser derrubado, criatura. Saaaaaaaaai daí, diabo!
– Chama a imprensa.
– Ela foi banida.
– Gente, tira a Democracia dali.
– Ela tá apanhando.
– Tu morres, menino. Ceutinho. Meu Deus! Chamem o Vocativo, por amor de Deus! Deixa essa briga, bexiga. Alguém, por favor, socorro o Ceutinho. Vai, Eraudo, tirar o Ceutinho dali. Diabo! Alguém ajuda a essa criatura, por amor à escola. Vai acontecer uma tragédia. Isso é uma tragédia. A tragédia tá próxima a acontecer. Será que vocês não veem que isso vai terminar em tragédia? Veja, pessoal, a tragédia tá se formando. Gente, não permita que isso aconteça. Deus do céu!
– Não leva Ele à briga.
– Sai, sai daí, meu filho. Que tristeza ver Ceutinho nessa confusão. Corre, Eraudo. Tu vais ser arranhado, menino. Ceutinho. Pobre do Ceutinho. Ó, tristeza! Não posso ver Ceutinho nessa bagaça. Não tenho coração pra isso. Ó céus! Que bagaceira do inferno.
Era um dia de sol na escola, como há muito não havia.
– Não, não, não! Coronelzinho não reuniu jagunços pra atacar Ceuto. Os capangas cercaram Ceuto. Ninguém vê isso? Socorra Ceuto dos cangaceiros do coronelzinho, gente do céu!
Sob a velha árvore de falsa sombra e de falsos frutos.
Todos saíram das salas de aula. Espalhou-se o vozerio. Os destinos dos alunos traçados na ponta cega da agulha.
Corria a luz do sol. Ela rasgou a calçada, a parede, a porta, a janela, jogou-se na sala, na carteira. O cérebro iluminado, e a mesma parte do prazer e da dor juntos. A luz espelhava a fisionomia do espaço. Caiu um pingo de luz no quadro. E a pedagogia gritava e ria. Pedagogia perdeu a voz, ficou afônica e foi levada pela fúria da corrente que fazia as vozes dos alunos feito a água de violento rio.
Não Há Outra Pedagogia Exemplar argumentava aos gritos:
– Tendências Liberais! pausa. Tendências Liberais estão presentes?
– Presentes.
– Tradicional?
– Presente.
Continuou a chamada Não Há Outra Pedagogia exemplar:
– Tecnicista?
– Presente, profe.
– Não gosto que me chame de profe! Detesto esses diminutivos. Coisinha boba. Tendências Progressistas. Tendências Progressistas! Afinal, Tendências Progressistas veio, Tendências Progressistas tá na sala?
– Não, sora.
– Nem Libertadora?
– Não, sora.
– Nem Libertária?
– Não, sora.
– E Crítico-Social dos Conteúdos veio?
– Não, sora.
– Na aula de hoje... Senão correr e amarrar os alunos aos pés das mesas. Eu não vou precisar fazer isso de novo, vou?
Nas cadeiras, os alunos inclinam-se.
– Vou?
Os alunos balançavam-se na cadeira, e quase caíam, mas as carteiras os impediam quando eles se seguravam antes de cair.
– Vou precisar chamar a disciplina automativa, vou? Olha, ela foi feita pra obedecer ao comando geral. O comando geral era programado pra ditar normas.
Os alunos esperneiam. Berram. A ferocidade cria asas. Não sabem ainda os alunos que a pedagogia regente já os domina. Corre o sol, sobe na abóbada, ganha o centro do céu. Os adestrados sob os gritos e os castigos de quem os ensina. Só resta a eles, na tela rápida e fria, a revivência dos dias felizes; e todos buscam revivê-los em dopamina. Mas tudo o que sobe desce. No refeitório, veio-lhes a fome e foi pisada rigorosamente, desperdiçada no alimento cujos alunos brincavam de arremessar pães, frutas, grãos, legumes, farinhas, carnes, ovos. E o senso comum ocupou corações e mentes, e a velha desinformação o lugar da informação, automação os bloqueou com imagens coloridas em movimento e sons alucinógenos. E os alunos já não riam, presos aos pés das carteiras, nas salas. Vieram meses letivos, os devoradores de deveres de casa, as avaliações. Ir e vir à FazRegra só mais uma rotina. O lápis, a caneta e o pincel encaliçam os dedos de alunos, que se beliscam e esmurram as paredes, que escrevem em cadernos de arame enormes palavras enormes, as fórmulas enormes, números enormes. Os alunos ameaçam partir correntes, a pedagogia os impede e grita, comprova não ter pago disciplina de domínio de sala, apta a pôr alunos presos à carteira. Segue, corre a réstia de sol na carteira riscada, foge da sala, atravessa janela, porta, ganha a rua, bicicletas, motos, os carros. A pedagogia regente não tem pressa por saber que o amanhã traria outra manhã, e o trabalho na escola se iniciaria; primeiro, por uma pálida luz, um risco e, depois, pelas mãos nas paredes, pelas mãos nas vidraças; por fim, os gritos, escoriações. Quietos, logo contaminados se tornariam irrequietos, violentos. Tudo voltaria a ser o que foi.
– Que destino, questiona a pedagogia, vem à escola no papel de pássaro, sai dela feito gente?
Os comunicados docentes fervilhavam nos grupos escolares:
“O Roberto tava sentado, escrevendo o dever de casa, veio o Julião, gritou dentro do ouvido dele; um grito fino, alto e demorado. O Roberto levantou-se da cadeira, arremessou o caderno na parede, errou o alvo. Riu o Julião, correu atrás dele com a cadeira de ferro erguida acima da cabeça. Alguém poderia vir aqui na sala? É urgente. Eles vão se matar.”
Com o fim de que a verdade saída da boca do mentiroso é uma grosseira mentira mesmo quando verdade, as escolas ainda não haviam se recuperado da febre que nivelou as criaturas a partir da criação. Dizem que, nessa hora, na porta do céu, mortos chegam sem barulho, todos constritos e piedosos, com as mãos postas e a cabeça baixa, os pés sobre nuvens de algodão. E dizem também que, nesse diapasão, se encontra nas portas do inferno empurra-empurra e gritos só aumentam, brigas, disputas sangrentas nas portas largas, multidão troca insultos e se acotovelam, há quem reviste os novos inquilinos antes de entrar. Essa febre irrecuperável trouxe à escola os mais inusitados comportamentos entre os quais se destaca ser governado pelos que fogem da normalidade.
– Eu não acredito em nada do que disse, nem nada disso que agora li.
– Então diga aí o verbo elucubrar.
– Isso é identitarismo.
– Nããããão...!
– Isso é levar a identidade acima de tudo e de todos.
– Imagina!
– Isso tem método. Não vou nessa.
– Diga aí o verbo elucubrar, diga. Ou vai ficar, aí, pensando que é rico?
– Em qual tempo verbal?
Ato contínuo:
“Na sala de aula, a Lúcia e a Aparecida tão trocando tapas e arranhões.”
Simultaneamente era digitado:
“Eles voltaram do recreio e transformaram a sala de aula num campo de guerra. Socoooooorro!”
“Alguém da orientação, por amor de Deus, venha imediatamente à sala.”
“Os alunos não desaceleram nunca. Tão sempre frenéticos e aos gritos.”
Durante a semana, fervilhavam:
“Esses alunos usavam chapéu de couro, tantas cartucheiras entrançadas. Caminhavam lentos no xique-xique, catingueira, barriguda, aroeira. Bromélias gritavam na aula, corriam atrás de Juremas. Alecrim-Pimenta gritava e ria, fazia algazarras, provocava, ameaçava terminar o mundo com um sopro.”
“A vivência deles entrincheirada. Como consegue esse povo vender tanto cansaço!”
“Eles acabam de atropelar o verso. A estrofe foi destruída. Destroçada a rima. A oração perdeu a fé com o pé quebrado. Como pode haver colheita?”
85. CINCO MINUTOS. NÃO TINHA NADA A VER?
A polícia está dentro da casa com O-Pai-de-Ceuto e Linda. Linda identifica um dos agentes com um quê de cabelo pintado. Este desenha o local com olhos pequenos, e o outro, com a esferográfica à boca, às vezes bate com ela em uma das lentes dos óculos. A boca cheia de perguntas sobre a morte. As moscas à mesa do café, sobre o pão, margarina, queijo, a caixa de leite suada, o presunto. O-Pai-de-Ceuto aponta.
– Como foi que aconteceu?
O-Pai-de-Ceuto inicia, tranquilo, o depoimento.
– Um bê com a, bá; um bê com o, bó; um bê com u, bu.
O policial inquiridor foi à parede da cozinha ver o Sagrado Coração de Jesus. E sobre a geladeira viu o pinguim. Viu um calendário marcar o ano velho.
– Inefável se encontrava doente, policial. Doente, doente mesmo. E sabe de quê? Senhor policial, senhores policiais, não posso contar sem não receber uma pancada aqui dentro do peito. Inefável foi contaminado pela epidemia de regime extraordinário de progressão parcial. Acredite por essa luz que ilumina a cozinha. Há meses e meses esperava consulta, que não veio. Confesso. Não achei tão necessário assim, policial, procurar médico, porque as dores que ele sentia parou de senti-la. Ele melhorava uns dias, outros ficava pior. Julguei mal. Julguei que fossem coisas da economia, da entidade, do mercado. Compreenda. Compreende? Os senhores compreendem. E o resultado os senhores podem constatar. Uma tia sofre. Sofre muito. Meu único sobrinho. Essa minha mulher teve nove filhos, graças a Deus. E o senhor é O-Pai-de-Ceuto? Sou. Ele está? Não, não, senhor. Meu Ceuto tá no trabalho. Meu Ceuto é professor. A família, senhores policiais investigadores, nunca mais se recupera da pindaíba. Policiais, quando aconteceu o suicídio, policiais, a mulher não viu nada. Estendia roupas em nosso ipê. Pode ir lá fora. Lá atrás. Ficou paralisada. Não se recuperou. Uma lástima. Mandei chamar ambulância. Não sei. Foi tudo tão rápido. E a arma? E o quê? A arma. Ficou na mesa como os senhores podem ver. Um três-oitão? Um 38, sim, senhor. Naquela época, quando as armas de fogo foram liberadas, ele não largava o 38, que vivia enterrado no rego, senhores policiais, do jeitinho que aparece em filme na TV. Sabe como é? Assim ó. Não, não, não. É. Não. É. Não, senhor; eles estavam trabalhando quando aconteceu. Sim, senhor. É fácil provar. Podem ouvir a história da minha senhora Linda, a Dona Linda. Vou chamá-la. Ela saiu pra chorar, porque a pobrezinha tem vergonha de verter água na frente da lei, a Dona Justa, compreende. Os senhores compreendem. Eu posso chamá-la? Ela está indisposta. Conto com a colaboração dos senhores. Vão levar o corpo ao necrotério? Não façam isso. É praxe? Onde Inefável vai ficar? Estará em boas mãos. Eu sei. Vão fazer autópsia? Por óbvio. É praxe da polícia. Façam. Queria vesti-lo com uma roupa melhor. É meu único sobrinho. Amei esse menino desde o dia em que o vi. Ele era desse pequetitinho assim. E os senhores aceitam um café? Acabei de passar. Essas moscas não nos dão trégua. Sai daqui, mosca! O corpo? É. Deve ser. Pode ser por causa do corpo. Não posso olhar esse corpo. Passa um filme. Os senhores compreendem. “Nights on Broadway” na Xaxanã FM. Não há sinais de loucura na família, não, senhores. Os antidepressivos são meus. Recebi do médico receita, quando as vendas caíram e fiquei deprimido e sem dinheiro pra luz, água, gás. Crises nervosas são aceitáveis. Não posso dizer com absoluta certeza a causa dessa morte, desse suicídio, quis dizer. E depois todos os meninos, aqui em casa, foram estudiosos, muito estudiosos. Saíram à mãe. Compreendam. É uma pessoa para a qual eu não encontro adjetivo ou até mesmo predicado. Compreendam. Ela? Foi professora, e além de outras coisas. Português. Língua Portuguesa. Se, a minha senhora, chegasse em uma sala de aula, fosse a sala de aula que fosse, do prezinho até mesmo pós-graduação ó! Como se dedicava à análise gramatical, morfológica, linguística, senhores da lei. Hoje? Raramente saía de casa. Vivia de fazer pastéis e outras coisinhas miúdas. Também trabalho. Eu? Vendo anúncios pra jornais. Moro há mais ou menos 30 anos nesta casa. Ela foi do meu sogro. Finado, sim. Sou casado. Pai de família. Quem construiu esta casa foi meu sogro, o falecido. Um homem conhecidíssimo em Xaxanã. Não em toda a ilha. Aqui. Conhecido no bairro. Não em todo o bairro. Aqui. Conhecido, assim, na rua. Não em toda a rua. Conhecido em algumas por quê? Por que o quê? Meu finado sogro. Todo mundo quase o conheceu. Se um dos senhores quiser desligar o rádio, desligue. O rádio fica, na cozinha, ligado dia e noite pra distrair. Ela? Trabalha em casa. Foi. Eu disse. Faz pastéis e essas e aquelas. Gosta de ouvir rádio. Ligada na Xaxanã. Também gosto. Sirvam-se dalguma coisa, policiais. Comam mais ricota, moço. No quintal, Linda escuta a conversa da cozinha. Linda ouvia por trás da porta e sabia que a qualquer momento seria presa, sairia de casa algemada. Rememora a história combinada com o marido O-Pai-de-Ceuto. Ambos devem contar a mesma história. Ponto a ponto sem esquecer uma vírgula. Não pode haver deslize nem ponto e vírgula. E nenhum travessão ou reticência. Linda policiava-se. Linda não podia usar uma vírgula mesmo se quisesse separar o sujeito do predicado, mesmo se ela fosse tentada a separar o verbo do complemento, mesmo se fosse levada a separar o nome do adjunto adnominal ou do complemento nominal. Então Linda segurava a língua. A língua coçava na cavidade da Linda. Linda resistia. Linda prendia a língua o quanto podia. Linda sofria com a língua presa. Linda evitava errar com o uso da vírgula, na luta da língua, entre orações coordenadas sem conjunção oposta ou explicativa. Linda, Linda, Linda! Linda brigava com a língua, corria e pulava, não podia usar a vírgula antes do e aditivo. Como Linda sofria com a língua e com a vírgula. Linda lutava. Linda suava. Linda por pouco perdia. Linda era impedida em usar a vírgula em separações que não seguissem a sintaxe em casos como antes de mas, quando mas era apenas uma adição. Linda valente, Linda corajosa. Linda seguia o que O-Pai-de-Ceuto havia lhe dito sobre a vírgula. E ela por um quase desistia. Usar a vírgula em enumerações simples com e no final, e mesmo antes de conjunçõess como que ou se que iniciassem algumas dessas orações substantivas ou adjetivas restritivas. Ufa! Linda tinha que botar a polícia no bolso. Vírgula não era uma pausa que lhe permitisse respirar, Linda repetia. Não, não era, não. Vírgula, Linda, lembre-se, era, segundo O-Pai-de-Ceuto, marcação sintática. Siga o ritmo, Linda. Primeiro, Linda, sujeito. Entendeu, Linda? Vai. Vai, minha Linda. Lindinha. Lindona. Linda, depois, Linda, verbo. Lembre-se dele, tá, Linda. Por fim, meu amor, os complementos. Linda presa à língua. E não poderia Linda tropeçar na vírgula diante da polícia. Vírgula era tão difícil de usá-la. Se eles perceberem contradições, tudo estará perdido. Ponto por ponto senão é cadeia. Linda se esforça em busca das palavras combinadas com O-Pai-de-Ceuto. Não pode falhar. Vírgula por vírgula. Escuta O-Pai-de-Ceuto falar. As palavras se confundem, misturam-se. Xaxanã FM fala mais do que O-Pai-de-Ceuto. Como saber o que estão dizendo? Xaxanã não lhe permite. Na cozinha, O-Pai-de-Ceuto sentado com a cabeça sepultada nas mãos. Antes, senhores, um trabalhador podia construir a própria casa. Não era um joão-de-barro, mas tinha recursos para construir a própria habitação. E hoje, policiais? Sem dinheiro. Noites e noites e noites no serão, na cobertura doutros colegas pra aumentar um pouco seus proventos. Chega o final do mês. A folha é aquela miséria, o holerite magro igual vara de virar tripa. Isso nem sempre foi. Meu falecido pai recebeu salário do governo desde o Sr. Getúlio. Não era de unha, não, senhor. Papai, em Xaxanã, viveu bem. Mundo de mais de oito milhões de quilômetros quadrados. Isso sem falar nos empréstimos que o funcionário público faz pra se manter na corda bamba. E embaixo da corda o que lhe espera são espadas samurais. Vem tudo descontado na folha, não vem? Vem. Sabia. Venda de anúncios pra jornais também tá uma... Com perdão da palavra. Meia pedra, meio tijolo. Fazer o quê? Eu sei. Um sobrinho morto. Onde a gente vai buscar dinheiro pra enterrá-lo. Só se... Não sei. Prefeitura? Fazer o quê! Vou chamar a minha Linda pros senhores lhe perguntarem o que desejar. Debaixo do ipê, Linda ao ouvir as vozes, súbito, fez o pano de louça ir direto ao rosto. Desengonçada, à procura de uma posição que convencesse o seu pesar. Trabalhas feito uma... Com perdão da má palavra. A cada ano Linda me dá um filho. Se soubesse não teria... Linda linda de morrer. Não ganhas nem pro cafezinho, Linda. Linda, Linda era cheinha de pretendentes. E deixou tudo ir de ralo abaixo. Olha só as pernas de Linda. As pernas cheias de varizes; umas varizes grossas, mais grossas que os dedos. Diâmetro? Quero ver. Essas varizes têm 33 de circunferência: idade do mais velho. Quase não consegues caminhar, Linda. Tenta, querida, tenta. A polícia na tua cola. Fingida. Vais mentir? Não, Linda. Levanta, Linda. Levanta, mulher. Nunca quis a maçã de Eva, senhores policiais. E nunca quis festejar o túmulo de Lázaro, senhores. O-Pai-de-Ceuto sempre teve boa saliva com aquela lábia do dragão de komodo. Todos na flauta. Desempregado e sem dinheiro. Gastei todas as cordas da voz, Linda, com aqueles dois policiais. Mas como insistem! Eu sei, eu sei. Perdão, ó senhores, me perdoem. Eu sei, eu sei. É o trabalho da polícia. Diante do Coração de Jesus, eu digo aos senhores a mais pura verdade. Linda com o pano de louça apertado entre os dedos gordos. Vou à delegacia? Espera, aí, Linda. Ó deixa, Linda, deixa eles decidirem. Vou, senhores policiais?
86. INOCÊNCIA: NÃO QUER DIZER
Inefável morto na mesa da cozinha. Inefável apodrecia. Linda debaixo do ipê. Inefável, eu disse a eles, Linda, quando morou em nossa casa, ficava saía da cama quando bem lhe aprouvesse. Ficava na cama até meio-dia. Esfriava na mesa o café coberto por moscas. As moscas tomavam o café da manhã em seu lugar, policial. Não sei como aconteceu. Sou inocente. Não vi nada. Fico fazendo meus pastéis. O-Pai-de-Ceuto não disse? Vou à delegacia, presto depoimento, uso a vírgula no lugar da vírgula e o ponto, se for preciso. Sei dizer que amanheci indisposta, pensei na vida, o que fazer ou deixar. O policial não dava um prego numa barra de sabão, Linda. Quando a polícia chegar e ver o corpo de Inefável na mesa da cozinha, imóvel, coberto de mosca, ela vai embrulhá-lo e levar o que restou dele. Inefável nunca prestou. Eu sei, eu sei. Você foi quem praticamente o criou. Eu sei. Ele tinha você como mãe. Eu sei disso também. Ele gostava de mim, gostava de você. Eu sei. A louça passava o dia inteirinho na mesa. Nunca me ajudou na cozinha, senhor policial. A comida fiz só, sozinha, senhores. E não tolero malandra. Trapaças não tolero. Trapaceiros comigo não. Eu e meu marido soubemos governar a casa. Sou do trabalho. Se não trabalho, adoeço. Acredita? Sim, sim, sim, sim. Sim, senhor. Sim, senhores. Tá rindo de quê? Não ria; é sério. Há sempre trabalho. Trabalho nunca falta pra quem quer trabalhar. Não trabalha o malandro. Nunca dei desgosto nem sofri desgosto. Em casa, ninguém nunca, juro pelo Sagrado Coração, ficou destrabalhar. Essa vida prega peça. O sobrinho Inefável, senhores policiais, entrou na cozinha com um revólver. Não sei. Acho. Tenho certeza. Era revólver. Eu conheço. Não sei de onde. Com aquele revólver veio, veio, veio e tirou a própria vida na frente da tia. E O-Pai-de-Ceuto deu pulo pra trás, quase caiu. Se caísse, teria morrido. Batia com a cabeça na quina da cristaleira e seria um baque, uma entrega. Não morreu. Destino. Destino ou livre-arbítrio? Determinismo talvez. Sei que teria ficado viúva, teria ficado. Não sei. Ainda não sei como O-Pai-de-Ceuto suportou tamanho baque. Vocês da polícia lidam com isso. Vejo no SBT e Record. Como esperar que um menino de quase 16 fosse fazer isso de manhã cedo na mesa do café? Ele tinha esse corpão, mas não passava de um meninão. Jamais fritou um ovo: não sabia. Filho, como vai ser? Não saber estrelar ovo? O-Pai-de-Ceuto questionava. Amoroso. O-Pai-de-Ceuto sempre foi manteiga. Um doce. Ia alto o dia em Xaxanã. Mesmo debaixo do ipê o sol incomodava. O calor derretia. Nos fios de náilon a roupa estorricava. O-Pai-de-Ceuto limpava gaiolas. Linda não parava de falar. Tinha medo, muito medo de ir presa. O fenômeno das estações ocorria em Xaxanã todos no mesmo dia. Só restara se precipitar chuva vinda não se sabia de onde para completar o frio da manhã de dezembro. Abriu o sol maçarico bico 12. Derretia o juízo. Mosca em toda a parte. Inefável acordava e ia direto aos espelhos; passava a manhã diante deles. Inefável ganhou muito dinheiro. Mal completou 16 e já era rico. Ele tinha só notas graúdas. Suponham, senhores policiais, que essa maquiagem lhe tenha roubado o tino? Ao contrário. Não sei quem vai herdar a fortuna dele. Aqui, senhores, ninguém quer ficar com nada. A vaidade da criatura lhe trouxe sorte na vida. Foi depois do prêmio que recebeu. É. Ele comprou a Loja Fotocopiadora e pôs a trabalhar o primo Ceuto. Maltratava o primo. Dormir? Não. Dormia tarde, acordava tarde. Sem ser responsável. Nós lhe demos educação. Desde o berço. Um irresponsável! Foi assim até na morte. Inefável tinha que saber cozinhar, lavar, passar, costurar. Ficar horas no espelho se admirando? Vestia uma roupa, tirava, vestia outra. Escova o cabelo, assanha, escovava. Metia a escova nos dentes até vê-los sangrarem? Nunca fez isso por nenhum dinheiro. Com gestos. Fazia gestos ao espelho. Quer saber mais? Prossigam na investigação, policiais. Escovar os dentes era sacrifício. Não sei como tinha coragem de rir com aqueles dentes amarelos. Ele comia feito uma capivara e lutava com a balança. Ó meu menino...! Por que fez isso com você?
87. ERA ISSO AÍ
Na delegacia, Estou respondendo ao inquérito fora da presença de um advogado, Sou o irmão mais velho, Dispensei um advogado, porque em casa ninguém tem culpa, O pai, a mãe no Hospital da Misericórdia, Infelizmente, os dois, Dona Linda sofreu mais do que a Isaura, Não tem? Não é fácil assistir ao que assistiu, Depoimentos cheios de contradições, O policial aboletado ao trono, calado, fareja novas contradições, Se antes vieram dos pais, agora poderiam vir do filho ou do espírito, Dizem que eu puxei a mãe Linda, Irmão fragmentário quis ludibriar, Como a polícia sabe, O depoimento do falecido, Talvez, doutores, se a gente tivesse desconfiado disso ou daquilo, Deveras, Porventura alguém saberá o dia, Não, Acaso enlouqueceria, Mais ou menos posso dizer, Talvez seis, Não tem, Elegante desde o princípio, Longe de mim, Adoeci, Criador, O mal por si, É mentira, O mal continua mal, Éramos onze, Quis o maravilhoso que fôssemos – não tem? – reduzidos, Éramos quase um time, O doutor é, Eu sou, Deveras, Em que divisão o Flamengo, doutor, Idade 33 completos, Profissão, Segurança no Majestade desde os 13, 12, 11, já não sei, Isso, Ilhéu, Nascido na ilha de Xaxanã, Xaxanãzinho como foi o pai e o avô, Sou, Isso é pressionante, Eu tenho certeza bsoluta, Não há dinheiro pra isso, Engraçado, Pressionante, E o doutor acredita em boitatá, Pressionante, E sobre bruxaria, Pressionante, Era isso aí
88. O COMPLEXO DE MIDAS
Noticiava toda a imprensa. E foi assim que se espalhou a fama de Linda. O-Pai-de-Ceuto nos jornais. Cada detalhe sórdido os jornais mostravam. A casa em pouco tempo se tornou O Lugar. O trânsito foi desviado por solicitação dos moradores. A igreja interferiu e o governo prometia apresentar os culpados nas próximas semanas. E esse foi o período no qual mais se venderam xampus e cremes dentais, sabonetes e tintura para cabelo, sapatos e roupas, carros e apartamentos, gel para beleza e bolsas, bronzeadores e escovas de cabelo sob o patrocínio de novidades sobre O Lugar. Xampus e cremes dentais, sabonetes e tintura para cabelos, empréstimos bancários e cartões de crédito, sapatos e roupas, carros e apartamentos, máquinas fotográficas, livros, viagens turísticas e cortinas, televisores e DVDs. Cobrava-se pedágio para se ter acesso. As lojas triplicaram os lucros. Bonés, camisetas, batons, calcinhas, pulseiras, chaveiros, anéis, calças jeans, carteiras, cintos, sandálias, cremes, óculos, relógios, lenços, acessórios para cabelos, pingentes, cadernos, agendas, canetas, lapiseiras. Metade da frota de carros da cidade com adesivo AMO O LUGAR.
89. VOLTA AO MUNDO
– Qual é a sua ocupação?
– Segurança no Majestade.
– Segurança?
– Sim, senhor.
– E o seu pai?
– O pai vende anúncio pra jornal.
– E a sua mãe?
– A mãe vende coxinha.
– E quem atirou?
– Foi o próprio Inefável, sim, senhor.
– O senhor reconhece o peso da declaração?
– Atirou, sim, senhor.
– Seu pai ou um de vocês?
– Escutei um tiro, sim, senhor.
– Quem atirou?
– Inefável.
– Foi suicídio?
– Foi. Foi suicídio, sim, senhor.
– Inefável tinha motivo pra cometer suicídio?
90. O CASO
Quantos não preferem a morte... Nunca leu isso?
91. JORNAIS DE XAXANÃ
A polícia desejava escrever o derradeiro parágrafo da novela O Caso.
92. NA DELEGACIA
Na véspera da morte de Inefável.
(...)
– Não, não. Chega por hoje! disse Eraudo e fechou o calhamaço.
Ceuto e Eraudo, naquela noite, saíram tarde da Escola FazREgra.
– A noite tinha a pele nua.
– Isso lembra um dos poemas de Hafez.
– É?
– Hafez de Chiraz.
A dramaticidade na Escola FazRegra era conhecida na rede. O excesso de ornamentação afetava a rua e o bairro. A cidade de Xaxanã dizia-se uma ilha pelos contrastes entre o espírito e a matéria que emanavam da Escola FazRegra semana após semana. A alcunha que a escola recebeu foi Chiaroscuro. E talvez por causa da automação geral, ampla e irrestrita, disse Eraudo a Ceuto. A escola cheia de linhas curvas presas a fé em busca da razão, comentou Ceuto, Eraudo concordava com o paradoxo preso à faixada e nas salas de aula.
– Quanto rebuscamento!
– Quanto rebuscamento... – eles falavam, no ponto, enquanto esperavam o ônibus. O metrô atrasado. As chuvas ameaçavam deslocar a ilha à coordenada desconhecida e ignorada; torná-la um ponto perdido no vasto oceano; as pontes que ligavam Xaxanã ao continente apresentavam rachaduras.
– Elas não aguentariam!
– Elas não aguentariam... – disse Ceuto ao acender outro cigarro.
A complexidade no trânsito de Xaxanã deixava a ilha acordada noite e dia. A linguística na ilha era o que havia de mais pitoresco e isto era demais, segundo a opinião dos ilhéus e dos visitantes e dos novos habitantes, que chegavam das partes mais estranhas e desconhecidas do Brasil. A América do Sul apaixonou-se por Xaxanã. O mundo tinha interesse em, antes de morrer numa explosão de gás e poeira, pôr os pés na ilha de Xaxanã.
– Que clima adorável!
– Que clima adorável... – os olhos brilhavam ao comentar e acender outro cigarro. Xaxanã era dualismo e teatralidade, exagero e contraste, ornamentação e abundância.
– Porque não prejudica o que abunda!
– Porque não prejudica o que abunda...
– Veja o mangue!
– Veja o mangue...
– Não mangue do mangue!
– Não mangue do mangue... – disse com as mãos nos bolsos, apesar do mês de dezembro em sua primeira quinzena, o frio incomodava àquela hora da noite. A lua corria entre o claro e o escuro.
– A grandiosidade de Xaxanã sempre foi tão impressionante!
– a grandiosidade de Xaxanã sempre foi tão impressionante... – disse com olhar sobre a fluidez das luzes nos arranha-céus.
– E todas as lagoas, dentro de Xaxanã, em alerta!
– E todas as lagoas, dentro de Xaxanã, em alerta... – disse ao olhar o ir e vir do movimento na avenida molhada da última chuva. O céu estava limpo agora no vaivém de carros e gente. As lojas abertas com as luzes natalinas sinuosas e cheias de volumes para provocar impactos e dinamismo nos consumidores ao se lembrarem da infância e ter saudades, desejo em atravessar o túnel do tempo e viajar no transporte memorialista ao passado. Empanturrar-se de brinquedos, alegria e guloseimas.
Ceuto convidou Eraudo a um vinho antes do ônibus. Eraudo emocionou-se ao receber o convite de Ceuto, e disse-lhe que o espírito natalino fazia-o não querer lembrar-se de todas as maldades sofridas na Escola FazRegra. E Ceuto percebeu que Eraudo fazia referência às atitudes de Delay. Ceuto preferiu não comentar todas as crueldades praticadas por Delay, apenas ouvir o desabafo de Eraudo. Não fazia muito tempo, Ceuto encontrou Eraudo em um dos viadutos da cidade; ele, parado, olhava o intenso movimento lá embaixo no asfalto rachado numa avenida pouco iluminada. Foi Ceuto que evitou Eraudo de pular no abismo, cair da Ponte dos Arcos. Isto fê-lo lembrar daquela vez em que Eraudo, com uma faca, no Dia dos Professores, cortava carne e passava a faca no pulso.
– Esse lugar é um espetáculo visual!
– Esse lugar é um espetáculo visual... – disse ao folhear um tratado sobre Gongorismo. A rebuscada faixada dos prédios e a lua numa poça d’água. Só um jogo de ideias.
E o zumbido se foi na Escola FazRegra. Era a fêmea do mosquito que se esgueirava pelos cantos, contornava a cabeça, os olhos, os ouvidos, o nariz com o seu zumbido.
Eles seguiam nos corredores de paredes de néon dobráveis. Ceuto disse a Eraudo, depois de ver um caramujo na parede:
– Cérebros-geleias na Escola FazRegra não havia na época da Senhora Ó.
CÉREBROS-GELEIAS
ContosMarcello Ricardo Almeida 15/12/2025 - 09h 02min
Comentários