Sementes Literárias florescem em Poço das Trincheiras

Outras Peças Literárias

Lauysa Soares (*)

Laysa Soares

Talvez este seja um dos textos mais difíceis que já escrevi. Difícil porque nasce dividido: metade agradecimento, metade despedida. Difícil porque carrega o peso suave e ao mesmo tempo intenso de dois anos vividos com uma turma que se tornou casa, chão e memória.

Quando olho para trás e lembro quem éramos lá em fevereiro de 2024, eu vejo crianças ainda ensaiando sons, tateando sílabas, buscando o caminho das palavras.

Hoje, dezembro de 2025, eu vejo leitores inteiros. Não apenas leitores de textos, mas leitores de mundo. Leitores de si mesmos, do outro, da vida que pulsa em cada canto do sertão. E é impossível não reconhecer: isso é graça. É Deus caminhando de mansinho dentro da sala, guiando meus passos e soprando sentido no meu ensinar. Eu aprendi enquanto ensinava. Eu cresci enquanto via cada um deles crescer. Eu me descobri professora… e escritora. E ainda que nenhum desses caminhos seja fácil, vale cada madrugada, cada página, cada desafio quando percebo que minha palavra transformou vidas e que minhas sementes encontram solo fértil nos corações pequenos que me foram confiados.

Agradeço a Deus por me permitir viver isso, e agradeço à minha escola, que sempre me apoiou.
Aos meus professores de ontem, que plantaram em mim a mesma semente que hoje tento plantar nos meus alunos.

Aos vereadores desta casa, meu agradecimento mais sincero e carregado de verdade. Esta casa, que não é de vocês, mas do povo, se torna ainda mais viva quando abre espaço para aquilo que realmente transforma uma cidade: educação, cultura e infância. E eu preciso que cada um de vocês leve estas palavras como compromisso, não apenas como elogio: “Onde nasce uma criança leitora, floresce uma cidade inteira.” Não é só poesia; é direção. É profecia, porque quando uma criança lê, ela expande o mundo que carrega dentro do peito. Ela constrói possibilidades, aprende a pensar, ganha coragem para sonhar e força para existir. Ela cresce por dentro, antes mesmo de crescer por fora. E quando uma criança se transforma… a cidade inteira se transforma junto. Por isso, meu muito obrigada a vocês, vereadores, por entenderem a necessidade de apoiarem ações como esta, que fortalecem o futuro de Poço. Obrigada por estarem presentes, por enxergarem valor no que não dá voto rápido, mas dá dignidade duradoura. É preciso acreditar, acreditar na educação como caminho, permitir que a cultura floresça, por compreender que investir na infância é plantar futuro no terreno mais fértil que existe: o coração de uma criança. Que vocês levem consigo essa verdade simples e poderosa: Quando uma criança abre um livro, é a cidade inteira que se abre junto. Quando nasce um leitor, nasce esperança. E onde nasce uma criança leitora, floresce uma cidade inteira. Obrigada por ajudarem este florescer acontecer.

E aqui preciso respirar fundo para dizer algo que pesa: eu sou a primeira escritora mulher de Poço das Trincheiras a publicar um livro e levá-lo para a Bienal Internacional do Livro de Alagoas. E, mesmo que eu não tenha caminhado sozinha, porque Deus, minha família, meu esposo e muitos amigos me sustentaram, o caminho foi, por vezes, solitário. Por isso deixo um pedido: não deixem que essas crianças caminhem sozinhas. Não deixem que o talento delas se perca no esquecimento. Que os escritos delas ultrapassem os muros da escola, os limites do município, as fronteiras do estado , que alcancem o mundo.

A literatura é viva. E elas também são. Agradeço à Escola Diógenes Medeiros Wanbderley. Aos professores que um dia me incentivaram como aluna e hoje caminham ao meu lado como colegas. À minha madrinha, à Sarinha, à Aleandra, minha eterna gratidão.À Rozelma… minha companheira de jornada desde o ano passado, o trovão que abre portas, literalmente quando precisa e ilumina caminhos com sua coragem. Foi uma bênção tê-la comigo nesses dois anos.

À Tânia… um abraço de pessoa, um coração que acolhe, uma inspiração para todos os pocenses na educação. Tânia atravessa paredes, transborda a Secretaria, e chega ao coração de cada criança que a conhece. Minha gratidão por tudo que ela representa.

E agora, um agradecimento que precisa ser dito devagar, com o coração aberto: Aos pais. Obrigada por confiarem em mim o que vocês têm de mais sagrado. Obrigada por cada manhã apressada, cada caderno enviado, cada abraço, cada partilha, cada cuidado. A infância dos seus filhos passou pelas minhas mãos, e isso é uma responsabilidade que aperta e honra ao mesmo tempo. Se hoje eles apresentam seus textos, seus sonhos e suas vozes, é porque vocês sustentaram esse chão comigo. Nenhum professor educa sozinho e eu encontrei em vocês parceria, carinho e presença. Obrigada por acreditarem no meu trabalho, por caminharem ao lado da educação, e por me deixarem fazer parte da história da família de vocês. Eu jamais vou esquecer.

E por fim — e não é o fim — eu agradeço a vocês, meus meninos. Vocês me reafirmaram, todos os dias, que ainda é possível ser uma educadora que transforma. Que ainda é possível levar amor para dentro da sala de aula e ver o amor voltar multiplicado. Vocês não são meus filhos, mas tenham certeza: foram tratados como se fossem. Estiveram nas minhas orações, nos meus cuidados, nas minhas preocupações e nos meus sonhos. Obrigada por me ensinarem tanto. Obrigada por serem inspiração. Obrigada por serem o futuro desta cidade. Vocês são sementes prontas para germinar.

E a história — a de vocês, a nossa — está só começando.

Discurso proferido pela autora, Laysa Soares, no dia 02 de dezembro de 2025, na Câmara Municipal de Poço das Trincheiras, no lançamento dos livros do Projeto Sementes Literárias.

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