Eraudo foi tomar água de coco no velho xopim à beira-mar. E chegou com tornados. Novembro ventoso, e as alamedas estavam envergadas de vergonha.
Eraudo parecia ser o amigo invisível de Ceuto, verificava o sistema, meio tontas as câmeras e o programa de identificação facial. Talvez Eraudo fosse tão só uma criação de Ceuto, insistia o sistema telemático instalado na FazRegra. E o sistema de câmeras seguia Eraude e Ceuto, mas, por algum motivo, alcançava um sem identificar o outro. As causas recaíam nos atrasos e erros de informação, na latência na web. As câmeras estavam próximas de revelar que se tratava dum amigo oculto. Era mesmo um amigo secreto de Ceuto este Eraudo?
O sistema investigava os protagonistas. As identidades de Ceuto e Eraudo pareciam não ser duas, mas, sim, uma, caso se comprovasse que um era amigo invisível do outro. A investigação avançava, e surgia a possibilidade deles serem o alter ego de Diegese.
Ademais, estava atrasada, como esteve ontem e anteontem. Ademais era a irmã da educadora Diegese, que se afastou da sala de aula após o laudo da perícia com o diagnóstico de Síndrome do Esgotamento Profissional. Na semana passada, Ademais não chegou um dia no horário. Automação via Ademais com olhos de curiosidade e repreensão severa.
Por que a escola é sempre um redemoinho?
A automação prometia resolver a incógnita. As ruas, àquela hora do dia, eram repetidas em pratos de teatro, feijão e arroz.
Catarse encontrou-se com Páfoz. Estavam atrasados. Tinham perdido o horário e o transporte. Ruas sempre cheias, trânsito sempre parado, e a gente sempre reclamava, e a mobilidade sempre um incômodo. Os ciclistas disputam a rua apertadas com folgados carroceiros em carroças de tração animal; ônibus, caminhões, carros de passeio, motociclistas aloprados.
– Feliz de quem vence todas as etapas e é um sobrevivente.
Todas as manhãs, com chuva, sol, frio, vento, Catarse e Páfoz seguiam o ritmo do trabalho na Escola FazRegra. Catarse, a recém-contratada, só falava de tragédias.
– A vida de Catarse era uma tragédia, pessoal!
Cercada por dificuldades motoras, Catarse chegava à escola com elevado custo físico-emocional. Catarse nunca quis ser excluída do corpo social. Lutava. Páfoz a conheceu no ponto de ônibus; falou sobre os sofrimentos de se viver e foi aceito por Catarse, que descobriu que o destino de Páfoz era o mesmo que o seu.
– Trabalhamos na mesma escola, então!
– Trabalhamos na mesma escola então.
No trajeto do primeiro dia, que era o último trimestre letivo, Páfoz falou e Catarse ouviu sobre a paixão vivida pelo herói trágico.
– E essa coisa da jornada do herói?
– Tudo balela pra vender jornal.
– O senhor tem certeza?
– A senhora não sabia?
– Juro que não.
– Olha, que os juros tão escorchantes.
– Ouço falar.
– E só os justos vão pro céu.
– E o senhor acredita?
– Até ontem, não acreditava.
– Não?
– Hoje, passei a acreditar.
– Foi?
– Sabe como é.
– Sei.
– Então.
– Então!
– Tudo é abusivo ultimamente.
– É, eu sei.
– E a senhora o que infere da vida?
– Não me faça essa pergunta. Mal nos conhecemos.
– Concordo. A senhora queira perdoar esse desaforo.
– Tudo é tão distorcido. O senhor entende.
– Entender, entender, não entendo; mas juro me esforçar.
– Jura?
– Juro.
– Obrigada.
Surgiu, aí, a grande, gloriosa e valorosa amizade entre Catarse e Páfoz. Ele tinha nela o seu objeto de pesquisa em despertar alguma compaixão repleta de terror. Ela tinha por ele despertar a purificação; acalentava o sonho em fazer dele um lugar de purgação das suas emoções mais primitivas.
Na escola, Catarse e Páfoz olhavam aqueles alunos correrem e suarem, gritarem e machucarem, a imagem da piedade e do medo. Um medo ancestral abitava o semblante daqueles alunos. Ninguém conseguia aquietar-se. Enxames não poderiam ser mais barulhentos e ameaçadores.
– Sinto um alívio moral tão grande na presença do senhor.
– É?
– Consigo refletir sobre tudo em minha vida.
– Consegue mesmo?
– Um alívio espiritual enorme. O senhor não faz ideia.
– É mesmo?
Ambos foram engolidos pelo torvelinho, na entrada da escola.
O bairro Estagirita era longe. “Ó gente! Diga porquê fazer uma escola num bairro tão longe?” Ademais fazia a pergunta desde a inauguração da FazRegra.
Ademais passava diante da igreja e fazia o sinal da cruz. Pedia sorte em mais um dia de aula, porque sabia que lhe esperava o Inferno de Dante. Corria. Via Práxis, sentado na praça, descascando laranja. Próximo à Escola FazRegra, via Poíesis vendendo jogo do bicho.
Ceuto e Eraudo desciam a rua.
– Aqueles dois sempre de mãos dadas!
Ademais sonhava em ser diretora da Escola FazRegra, mas isto foi antes da SEMED automizar a administração. E o passo seguinte seria substituir alunos e professores; primeiro estes, depois aqueles. E ainda não sabia como substituir os alunos, talvez com homeschooling. E aos poucos, os professores substituídos netnograficamente; e os motores de busca os substituem sem remorsos; o início de tudo seria a palavra-chave abracadabra, isto se antes um potente vírus não lhe desse as cartas. Tudo automatizado: livro-ponto, livro-ata, planejamento de aula; era a via da escola na Era da Visualização liderada pela subjetividade netnográfica.
Às vezes, disse, enxergar uma parede não se resume em percebê-la. Mas apenas querer ver consegue desfazer a quarta parede. A escola ainda mantinha essa quarta parede.
– Nada acontecia sem uma razão suficiente, professor?
– Tenho dito! e sorriu com um sorrilargo sorriso.
Houve uma época em que o cotidiano escolar era analógico e não digital.
– Comungo com o respeito, mas... e as ideias cartesianas?
– Prefiro a força viva! e sorriu com um sorrilargo sorriso.
Um tempo na escola em que o aluno olhava a parede e via nela o relógio.
– Devemos depositar a fé no empirismo do relógio biológico?
– Você nunca soube que não se pode depositar confiança em tábula rasa? zangou-se, e apagou o sorrilargo sorriso. No quadro pintado à mão, que ornava a parede da sala-mor, a imagem parecia opor-se a um princípio único ao lado do relógio na parede; tudo parecia governado por ele, e a sua voz monocórdica com tique-taques, conforme atesta a experiência dos frequentadores naquela sala de móveis de lata cheios de escaninhos. Uma geladeira que funcionava nos dias pares, cadeiras de plástico com as pernas bambas, uma mesa cansada e muitos papéis, xícaras sujas de café cuja borra definia o destino docente nem sempre decente, pacotes com bolachas que se desfazem em farelos faziam o ambiente mimetizar o taque e o tique do temporizador, que não era nunca desligado.
Tudo transcorria no melhor dos mundos, de acordo com as palavras do professor Leibniz. No âmbito da FazRegra, todo o furor absolutista saía a campo sob a saraivada dos iluministas com candeeiros, lampiões, luzernas, lanternas, velas, lamparinas e fósforos acesos, na segunda quinzena deste novembro de pleno estio. Os furacões rondavam à escola com a bocarra cujo sopro de ar balançava as estruturas pedagógicas e alucinava toda a didática.
A automação mantinha o ritmo e tudo era monitorado em pormenores. Na Escola FazRegra surgiu o movimento L'école, c'est moi nas XIV salas de aula cujo lema impôs a vontade absoluta dos alunos com prevalência sobre tudo e sobre todos, independente de liberté, d’égalité et de fraternité. Salvo exceções, os sábios docentes efetivos, pós-L’école, c'est moi, refugiaram-se em atestados e outros – os que resistiam ao ano letivo – chicoteavam com firmeza e dedicação às próprias costas. As vagas dos efetivos afastados foram – como haveria de ser – ocupadas por docentes substitutos, que iam e vinham, por ser constitucional o seu direito, aonde ia e de onde viessem.
Atrasado, Ceuto disparou corredor afora. O sistema interno de câmeras batia com o indicador na tampa abaulada do relógio de parede.
– Os alunos não queriam nada com a história do Brasil.
Os minutos avançavam, avançavam os passos de Ceuto à sala de aula. Acelerado, acelerado, acelerado. Alcançou a porta da sala.
Nem todos haviam chegado. A turma transformada em anarquia.
– Tire o dedo daí! gritava um.
– Bote na mãe! berrava outro.
Ceuto abriu o notebook sem notar o que dizia:
“Se eles pesquisassem... Não sabem nem o que é... Tem tudo aqui.” E foi pesquisar sobre escansão. E, antes de fechar a máquina do tempo, uma corrente de ar ascendente surgiu e girou no interior da máquina. E Ceuto foi sugado pelo servidor com o que parecia ser a força de um furacão.
Não era uma sensação ruim? Ceuto navegava no ar feito uma folha seca. Sugado cada vez mais, ele mergulhava no desconhecimento de suas pesquisas.
Aquela solicitação sobre escansão brilhava em pequenos pontos de luz, que percorriam fios imaginários numa velocidade de furacão. Apagou-se a sala de aula. Silenciou a desordem das vozes que anarquizavam o ambiente. Ceuto viajou em busca da escansão.
E conteúdos solicitados por Ceuto começaram a chegar na iluminada tela do notebook. Ele entrava por uma porta, saía por outra. Via imagens e vídeos. E a comunicação era instantânea. Ao digitar, a máquina corrigia erros de ortografia e avançava com sugestões às próximas palavras que o levava mais longe, cada vez mais longe com as suas pesquisas a respeito de escansão.
Ao voltar à realidade, a aula tinha acabado. A escola estava vazia. Foi um profundo mergulho dentro do nada. Tive a sensação de que deslizei por camadas diferentes. Passei por hospedagem de conteúdo, processamento de solicitações e nadei em dados e comunicação. Atravessei servidores web, e-mail, arquivos e jogos, banco de dados. Visitei o sistema operacional. Caminhei em nuvens.
Ceuto estava de volta à sala de aula. Exausto. Ele viu as demandas que competiam com o encurtamento dos prazos. Olhou o relógio. A consciência batia com o indicador na tampa abaulada do relógio de parede.
– Tenho que ser rápido! carregado de papéis, acelerou o passo corredor afora. Preciso chegar à sala, antes que aquilo se transforme em anarquia.
Mais tarde, na sala-mor, a automação havia sido instalada. Pessoas foram substituídas por dispositivos eletrônicos, que geriam a escola. Ceuto cochilava e Eraudo comia pão com Mariola.
– Quais são as novidades?
– Falasse você, Eraudo.
– Eu?
– Você, sim.
– Não sei novidade nenhuma!
Todos, na sala-mor, caíram em profundo sono.
No automatizado solilóquio da sala surgiu do ecossistema telemático um ente identificado quão espécime AhBelha.
– Afinal, isso existe mesmo?
– Afinal, isso existe mesmo!
– Afinal, isso existe mesmo...
O AhBelha começou a falar em uma voz misteriosa e sussurrante:
– Os segredos da escola estão escondidos em plena luz.
No portão da Escola FazRegra, os guardas conversavam – sem identificar a antropologia do tema – sobre disputas que dividiam o bairro entre prosperidade e domínio:
– E não é a mesma coisa, Alfonzim?
– A mesma coisa é um caminhão de laranjas! disse Noi, um irmão de Moi, que praticava docência na Escola FazRegra por mero diletantismo.
Um docente atravessou o portão num bate-papo com uma docente:
– O que faz aqui?
– Não sabia?
– Não.
– A escola é meu objeto de pesquisa.
– Não sabia.
– Agora ficou sabendo.
– E como é isso?
Mais tarde.
– Nunca vi tanto desperdício! disse Alfonzim ao guarda do turno seguinte.
– Isso tem método! disse Moi, que saía, naquele instante, da escola e ouvi a conversa entre os guardas.
– No refeitório, eles fazem guerra com pães.
– Atiram pão um no outro?
– E guerra de frutas também.
Uma funcionária da faxina se aproximou.
– Seu Alfonzim, o senhor tem nome de rei.
– Não fala isso, Maria.
– Meu sonho, Seu Alfonzim, era ter recebido da mamãe o nome de Bala.
– Bala, Dona Maria?!
– Maria Bala.
– Ah! sorriu o outro guarda. Entendi bala e não Bala,
– Os alunos deixam a sala de aula com lixo até os olhos, Seu Alfonzim. Não é pouco, Seu Alfonzim. E as carteiras uma bagunça. E arremessaram, pelas janelas, as cadeiras lá fora.
Outra manhã.
– Bom dia, Alfonzim.
– Seu Moi, aquilo que o senhor falou, Seu Moi, eu comentei lá em casa, e não entendi.
– O que, Alfonzim?
– O aprofundamento da desigualdade.
Em outro dia da semana.
– E o que era isso, Seu Alfonzim?
– Era isso mesmo, Maria.
– Não acreditava, Seu Alfonzim. Morria e não sabia.
– O aluno deixou de respeitar a escola, não foi?
– Foi.
– O aluno praticava, impunemente, todo tipo de rebeldia, não praticava?
– Praticava, Seu Alfonzim. E por quê?
– Entendeu?
– Entendi.
No final do expediente:
– ¡Hola! ¿Qué tal, Alfonzim...?
– Gracias. Estoy bien, disse, com um largo sorriso, o guarda. Pero prefiero hablar en tu idioma, maestro Moi.
Na manhã seguinte:
– A chuva voltou, Seu Alfonzim?
– É o que dizem, Dona Maria.
Na entrada da escola. Os alunos impediam a passagem dos docentes. O vozerio abafava qualquer bom dia que se pudesse desejar. No portão, Alfonzim dava lições de sotaques e pregava contra o xenofobismo. O sol despejava-se na força do derretimento de calotas polares.
– Bom dia! desejou Ártico.
– Bom dia! respondeu-lhe Antártida, que veio à escola num vestido cheio de girassóis.
Passaram pelo portão da escola Noi e Moi.
– Acordei suado e com medo!
– Ainda dorme na cama com mamãe?
– Sempre tive medo de escuro.
Nos corredores:
– Tô a ponto de desistir de ler os epigramas que me obrigou a ler. Quero devolver agora mesmo todo este calhamaço…
– Não, não, não!
– A escola inteira te chama de chato. Não sabia? Ali vem o chato, quando você se aproxima. Sempre mandando alguém ler alguma coisa. Ninguém aguenta essa porra, cara! Tive pesadelos com esses malditos epigramas. E me vi em um mundo paralelo. Às vezes tenho dificuldade…
– Dificuldade...?
– E confundo a realidade com a fantasia.
Na sala-mor, todos em sono profundo. O ecossistema telemático agia por conta. Ceuto e Eraudo tinham que descobrir o caminho da verdade antes que chegasse à tarde a mentira, que chegasse à noite a desordem, que chegassem a lua e as estrelas no laboratório de Ciências e usassem os tubos de ensaio sem a devida vênia, como de costume.
– AhBelha falhou?
– Impossível! disse Eraudo.
AhBelha era a própria subjetividade netnográfica, que encerrava o modelo da escola que se conhece. "Procurem no lugar onde a sabedoria é esquecida!", disse o Programa AhBelha, não com voz metálica, com voz intensa e misteriosa. "Lá encontrarão a chave para entender."
Ceuto e Eraudo se entreolharam, intrigados.
– Não sabe que o programa tá a serviço da subjetividade netnográfica?
– Vamos seguir essa pista.
Eles começam a procurar pela escola. Procuraram por qualquer coisa que fosse relacionada à sabedoria esquecida. Subiram, desceram, tornaram a subir, foram de sala em sala, de porta em porta. Havia caixas em uma das salas.
– Vamos abri-las?
– Não sei.
– Como não sei!
– Não posso perder o emprego. Tô falido. Cheio de contas. E os cartões perderam o limite. Aluguel atrasado. Vão cortar luz e água. Ultimamente, eu só tenho acesso por Wi-Fi. Não vou arriscar.
– Covarde!
– Não me chame de covarde.
– Medroso!
– Ó! Não me chame de medroso.
– Me desculpe, Eraudo.
– Não posso ficar desempregado.
– Você quer desistir?
– Quero.
– Depois que chegamos até aqui?
– Sim.
– Não temos o direito de desistir.
– Tô saindo.
– Não saia. Veja o que encontrei nessaura caixa.
O título era invertido.
– Lápis de Papel?
– É. Parece ser o título.
– E a autoria?
– Apagada.
– Traga mais próximo à janela.
Eraudo ameaçou empurrar Ceuto janela abaixo. Jogá-lo sobre os entulhos da nova reforma, na Escola FazRegra. Desistiu no instante em que Ceuto disse:
– Tem uma página dobrada. Veja, Eraudo. Tá marcada a frase com caneta luminosa.
– E o que diz? Traga essa maldita frase à luz.
As páginas seguintes eram repletas de anotações sobre a subjetividade netnográfica, que substituiria os alunos e por conseguinte os professores, e estes já não eram identificados pela licenciatura, e a pós-graduação já não se aceitava na pontuação e no aumento de salário.
– As coisas ficaram estranhas, não acha Ceuto?
– Vamos desistir de tudo isso.
– Nunca!
– Não quero mais mexer com isso.
– Quem tá sendo covarde?
– Não me ofenda, Eraudo! ameaçou com os punhos cerrados.
Caiu do teto uma poeira estranha, depois do sopro de Ceuto sobre o livro que Eraudo tinha nas mãos. Em torno deles apareceu uma força misteriosa com uma luz que lembrava néon. O próximo texto falava sobre o exercício pedagógico do apagamento da memória com a reescrita dos fatos, substituídos por opiniões. A misteriosa força de que falava o texto era sobre à obsessão por avaliações e notas como propósito na criação da barreira que impeça o avanço da curiosidade e da aprendizagem.
Ceuto e Eraudo deixaram a sala. Não perceberam que a força misteriosa os seguia. O livro foi trazido sob a camiseta de Ceuto. Eraudo olhava para trás, e chegou a comentar que alguma coisa os acompanhava escada abaixo. Em um corredor cuja luminária não se acendia por sensor de movimento como se acendeu antes.
– Não achava esquisito, Eraudo?
– Venho te falando desde lá!
Na parede foi recém-escrito “Qualquer coisa que não possa ser medida é irrelevante” e a tinta escorria; as letras, na parede, brilhavam intermitentemente e, intermitentemente, se apagavam e se acendiam intermitentes e, intermitentes, se apagavam. A frase controlava a realidade da escola sob os olhos de Ceuto e Eraudo.
– Por que não questiona essa frase na próxima reunião pegajosa?
– Questione você.
– Não tenha medo de questionar.
– Não se trata disso.
– E de que se trata?
– Quem pagará minhas contas?
– E onde se encontra a descoberta e o crescimento?
– Não sei nada sobre isso.
– Não é esse o lema da Escola FazRegra?
– E você acredita nisso.
– Acredito.
– Isso é só uma frase escrita na parede da frente. A escola é memorizar e repetir.
– E os projetos?
– Que projetos!
– Os projetos.
– Esqueça isso! Quer engordar a estatística dos desalentados?
– Vamos sugerir novos documentos que organizem o processo.
– Que processo?
– Definiremos o que, como aprender, quando ensinar.
– E o salário?
– Novas metodologias.
– A fome fala mais alto. Não sabia? E só importa o salário; pagar as contas atrasadas é o que importa.
– E aquele programa de mentoria?
– Lixo.
– E tornar a escola um modelo...
– Que modelo?
– Me deixe falar um minuto.
– Deixo. Fale.
– Um modelo de criatividade.
– Criatividade?
– E inovação.
– Como!
– Não era isso o que planejávamos na UniFastapovo?
– Aquilo é passado.
– Atrair pesquisadores de todo o mundo à Escola FazRegra.
– Passado.
– Compartilhar experiências, novas ideias...
– Passado!
– E o livro?
– Lixo.
– Lixo?
– Esse mundo não comporta mais livro.
– Lixo?!
– Foi tudo perda de tempo.
– Perda de tempo?
– Nuvem em lugar de livro.
– E a educação transformadora?
– Os alunos não precisam disso, eles têm a subjetividade netnográfica na tela manual. É só democratizar a subjetividade netsensora e eles se mantêm em silêncio.
– E as abordagens revolucionárias que discutíamos na UniFastapovo?
– Arroubos de juventude.
– E o sonho de que, um dia, eles criariam prêmios com os nossos nomes?
– Acabou.
– Não queríamos prestígio?
– Tome um cafezinho, que passa.
– Não seríamos uma lenda?
– Era tudo sonho. Acordei.
Na sala de aula, por onde Ceuto e Eraudo passavam, Noi falava alto como se obrigassem trabalhadores a concluírem as pirâmides. Fazia grandiloquente gesto, caminhava na sala de um lado a outro.
Noi, irmão de Moi, um desses contratado em caráter emergencial, abriu a gaveta da mesa de trabalho em sala de aula e, inopinadamente, a fechou, ele disse na sala-mor, ao encontrar excremento humano fresco.
– Bem que desconfiei da quantidade de moscas!
– Alguns, que tomavam café, interromperam de maneira abrupta o gole quente.
– Por que abrupta? disse um.
– Por causa da sua descoberta inopinadamente!
Vencidas as discussões entre os docentes Ceuto e Eraudo, aquele disse a este:
– Abandonou de vez os epigramas?
– Taí, amigo, prefiro voltar aos epigramas! abriu a mochila que trazia nas costas e sacou o calhamaço.
– Onde parou?
– Aqui, Ceuto.
52. (?)
O que conta são as esperanças e as frustrações e, se o corpo está meio cheio ou meio vazio, dependerá da sede de quem se encontra diante dum corpo.
MariaBala, enfurnada no sótão, cheia de adjetivos e advérbios, porque talvez gostasse de ser prolixa. Eloquência era um prato que MariaBala o devorava quente para sentir bandeirolas tremularem no céu da boca. Ela devorava tudo com predicados e sujeitos. Entretida com as atividades que Seu FazRegra lhe confiou, MariaBala, diante daquele mundo de velharias, tinha as tripas geladas.
Para Seu FazRegra, MariaBala era tão-somente uma menina dessas que se tirava da sarjeta, quando Glória, a sua mãe, cochilasse.
Nos primeiros dias, no sótão, da cozinha gritavam 470 vezes o nome MariaBala para que ela descesse e viesse tomar o café da manhã. Gritavam chamando MariaBala para almoçar. MariaBala estimulada por um título ou outro, um autor novo, uma atriz, um ator, um romancista, um cantor, um disco, um filme. Se eles insistiam gritando o seu nome para vir comer, MariaBala queria antes terminar o que pegou. Ou seja:
53. OS... NWTZHYS?! UMA CONVERSA COM O FETO SEM AFETO
– Quanta verdade você tem?
– De verdade, de verdade, tenho de quantia 39, 40, 50, 51% de verdade no máximo. Ás vezes, nem tanta verdade assim, porque a minha verdade não é limpa, é uma verdade suja, Essa verdade é insuficiente, Por que, Pois não completa a verdade com que se faz a verdade, E a verdade se faz com quanta verdade, A verdade só se faz com toda a verdade, Quem é você, Eu sou a criança que você carrega dentro de si, Não reconheceria a sua voz, Nem poderia reconhecer, Não sei, Eu sei, essa é a primeira vez que falo com você, E me fala logo sobre verdade, E qual verdade você quer que eu fale, Aliás, poderão dizer que de onde eu venho não posso trazer o que digo, Mas, já houve prova de que isso não é verdade, Seja mais clara, Clara, Aqui neste tal escuro, Por um buraco apertado, Eu não, Tão apertado, Por aí muitos já passaram, já passaram os seus irmãos, Encontrarei a verdade que procuro, Ou encontrará escuridão, A mesma escuridão me espera.
54. PRESO AO PRINCÍPIO
Numa manhã translúcida em que Kokorot acordara pelas astúcias do seu meio-irmão, ele, além de outros da sua laia, desabalaram a perseguir a Jovem Totem, que estava nua qual a Vênus de Düsseldorf.
Jovem Totem, no ponto extremo onde rua e mato se repartiam, sorriu de maneira lânguida e preguiçosa. Kokorot seguiu Jovem Totem no bosque escuro.
No interior da mata, Kokorot e os seus amigos deitaram Jovem Totem na pedra grande, nua, as pernas de Jovem Totem em M e os braços de Jovem em T. Jovem Totem era só. Preso ao princípio, Kokorot e o seu meio-irmão (invendor de mamíferos irracionais, ao contrário de Kokorot que possuía a forja de criar e descriar mamíferos racionais) brincavam no Paraíso da Infância Infernal, quando Kokorot propôs ser o criador de um ente e dar-lhe o nome de O-Pai-de-Ceuto, cujo significado era o de fazer dele o que lhe aprouvesse e, depois, culparia a imprensa em campanha difamatória para amordaçá-la. Talvez até cenas de ais. Kokorot e o meio-irmão estavam eufóricos naquela manhã de novembro. Os dois concordaram imprimir em O-Pai-de-Ceuto hábitos estranhos e deram-lhe Linda, além de 15 filhos em torno de uma mesa com migalhas de pães dormidos e sem toalha, uma mesa com canecas sem pires e manchas de café derramadas.
– Eu participarei, o meio-irmão de Kokorot sentenciou, nessa sua criação se me couber o direito de infectá-la com o feio e o triste.
Gritou Kokorot:
– Faremos várias criaturas presas dentro dele!
Kokorot perguntou ao meio-irmão se estava aprovando o que ele criou. O meio-irmão, rindo, lhe respondeu que a hiena é mamífera, assim seria O-Pai-de-Ceuto.
55. O PROJÉTIL
Uma barata branca ricocheteou nas paredes da cozinha.
Lento, O-Pai-de-Ceuto erguera a xícara. Ele, que era o Vendedor Cara de Pau, deixou de ser crível por ciúme de si mesmo. Sorveu café, e o pão dormido foi mergulhado naquela xícara, e ele levou o pão molhado à boca, correu o café pelo canto esquerdo da boca, pelo canto direito, e o alimento foi sugado com a sofreguidão de um desentupidor de pia. O-Pai-de-Ceuto, pai de 15 filhos, o velho, desempregado e sem dinheiro, levou outro pão dormido à xícara e dela à boca, que sugava e sugava e sugava, depois chupava com a língua os restos entre os cacos de dentes. Sem dentes na frente, o velho perdia os de trás. O rádio falava mentiras, a TV, sob uma toalha de banho, hospedava o jarro de flores de plástico usadas como vaso sanitário de moscas. O mundo passa através de duas janelas da casa, numa rua cheia de barracas nas calçadas. E, dentro de casa, debaixo da mesa sobre a qual O-Pai-de-Ceuto (que mantinha a grafia do nome assim), três pulguentos esperavam as migalhas do café da manhã. A cozinha, habitada mais por moscas do que pelos moradores da casa, era a mesma há mais de meio século. A-Mãe-de-Ceuto reclamou num doloroso e demorado gemido. O nome de batismo, e certificado em cartório, LindaLinda Lindalva Alvalva, mas ela preferia ser chamada A-Mãe-de-Ceuto, porque odiava ser chamada de Linda.
Na casa dos pais de Ceuto, tudo se mantinha no mesmo lugar. O Sagrado Coração de Jesus. A gordura. A poeira. Quadros sem valor grudados às paredes. Os móveis ensebados, piongos. Filhos em torno da mesa ressuscitavam antigas discussões.
Os filhos do casal, pequenos e cansados; exceto Ceuto, que saía de casa de madrugada. Ceuto acordava às 3:30 diariamente; levantava-se, pés no chão, banheiro, água fria no rosto, esvaziava bexiga, mãos sob a torneira da pia, água corria da torneira do filtro e enchia o copo de vidro, a faca de mesa cortava o limão, que era espremido na água do copo, o líquido garganta abaixo. Não era a apneia, nem insônia, nem estresse ou distúrbio do sono, era a hora de sair de casa, trabalhar na Loja Fotocopiadora Inefável e, à noite, frequentar as aulas na UniFastapovo. A loja era de Inefável, sobrinho de LindaLinda Lindalva Alvalva.
– Larga isso, Linda! disse O-Pai-de-Ceuto.
– Preciso limpar esse sangue.
– Vem terminar o café.
– Inefável encontrou o que procurava.
– Chame a polícia.
– Antes, vou limpar tudo.
– Foi só mais um suicídio.
– Foi.
Naquela tarde, na rua cheia de barracas nas calçadas e de sacos de lixo doméstico espalhados ao longo da via, Inefável, sobrinho de LindaLinda, veio à casa dos tios cobrar-lhes o aluguel atrasado havia três meses. E discutiu. Puxou a arma. E disparou. Esvaziou o revólver. E um projétil ricocheteou, quando a bala atingiu uma superfície e mudou de direção, e continuou o seu movimento, voltou e acertou à cabeça de Inefával. Inefável caiu. O sangue dele correu no chão da cozinha.
– Inefável tirou a vida! disse O-Pai-de-Ceuto. Inefável tá morto! tombou do olho esquerdo uma lágrima. Foi o destino de Inefável! murmurou ao sugar o café do pão dormido.
– Esse meu sobrinho vivia por aí... lambendo as feridas... Não sabia onde guardar tanto dinheiro. Nunca conheci alguém com tantos imóveis.
– Chegou aqui te chamando de piranha vagabunda.
– Ele devia dar-se por satisfeito ao ser único herdeiro de Ítaca.
– Sempre teve vida fácil.
– Meteu Ítaca numa ilha no meio do nada.
– Ninguém ia lá.
– Ninguém.
– Ítaca queria fugir de casa.
– Ítaca não fugiu do hospital?
– Fugiu.
– Eles queriam submetê-la à hemodiálise.
– Que vergonha!
– Sempre fui professora. Desisti depois que começaram as agressões a professores. Taí, a rua cheia de barracas com famílias.
– Foi o que levou o anarcocapitalismo com aquelas ideias de mercado de liberdade onde cada qual que se cuide.
– Nunca fui tão desrespeitada, nem à época de sala de aula, como acabei de ser pelo finado Inefável.
– Será que Inefável morreu?
– Não fecha os olhos.
– Mexe nele, mexe.
– Não se mexe.
– Oxi!
– Vixi!
– Misericórdia!
– Corre, Linda! Faz alguma coisa.
– É o que faço com o escovão.
Manhã psicológica. Cada manhã com o seu caráter peculiar. E os ônibus gemiam. Os enxames de carros gemiam em direção à cidade Bernúncia, a Saci, em direção à cidade Boitatá, fugir da BR, em direção à Xaxanã. Cupinzeiros nas calçadas, nas lojas, bares, lotéricas. Nas sinaleiras, jornaleiros ofereciam Jornal Xaxanã, Grito Bernúncia. O-Pai-de-Ceuto decidira, na primeira metade de 2006, não mais trabalhar com vendas; não quis mais viver como vendedor de anúncios. As coxinhas encomendadas à Linda, os pastéis e outros lanches vendidos nos bares da QuebraQuebra eram poucos. O-Pai-de-Ceuto, cansado da vida, portas na cara, ficaria em casa. Optou por viver da boa vontade de Inefável. Viveria da mesa ao sofá e deste àquela onde lhe esperava pão dormido e café; conversaria com passarinhos, caminharia na rua, levaria a vida com delírios, mentiras e frustrações. Com Linda desde... Já não se lembrava mais.
– Papai morreu dias depois do enterro do primo Inefável. Linguística tava lá. Linguística segurou à minha mão. Apertou a minha mão com toda a sua força. Como Linguística era forte! Nunca mais vi Linguística. Dormi algumas vezes com Linguística de conchinha. Por uma eternidade, Linguística e eu dividimos a cama. Por que não fiquei com Linguística? Papai era um ressentido. Por que não tive filhos com Linguística? Mamãe, pobre mamãe, morreu semanas depois da morte de papai. Eu poderia ser avô dos netos de Linguística. O que fiz de minha vida, meu Deus!
O ruído recorrente passava por baixo da porta.
– Um dia, quase não aurora, sonhou que era um avatar. Um avatar de quem? Um avatar, ora! Uma divindade materializada. Não sabia? Refugiava-se no quarto onde chorava. Ia à janela onde via passarem os tipos textuais; Injunção passava com as suas receitas culinárias, os seus manuais de instrução, as suas aulas de remédio, olhava as placas de sinalização sem entender as regras do jogo. Logo, eu via descer a rua Dona NarrTiva, que adorava contar contos, narrar romances alheios, perguntar sobre o próximo capítulo da novela; uma senhora repleta de lendas e mitos; a notícia costumava seguí-la. Seu Descritivo trabalhava na rádio local, um tipo dado a retratos falados, notícias, biografias e não fofocas. Não era isso Descritivo? Se bem que a fofoca também fazia parte do seu cardápio. Ele começou com anúncios de imóveis, que era um dos sonhos do papai. Ficava no quarto e ouvia todas as brigas. Os gritos eram constantes. O quebra-quebra, aiaiais! Uiuiuis! E não faça isso comigo, não! Depois, voltavam às boas. Era como se não tivesse passado um tornado. Essa tarde não choveu. Só ameaçou. Lá vai o vendedor de livros. O Senhor Expositivo exercia uma profissão com os toque-toques contados; ele é um tipo textual carregado de enciclopédias, verbetes de dicionários. Como consegue lembrar-se de tantas palavras, tantos significados, saber coisas que até elas duvidam. Conheci o senhor, Senhor Expositivo, durante uma entrevista. Ou foi em um seminário? Sei que o senhor expunha um artigo científico. Aquele sujeito, eu nunca o vi por aqui. Ah, sei! É o tal das opiniões, o Dissertativo-Argumentativo. Ele apareceu, aqui na vizinhança, com temas de redação, mostrou os editoriais que escrevia no período em que foi repórter em Xaxanã. Queria poder sonhar de novo que eu não era eu, que eu era um avatar.
(...)
Eraudo, que fugia do olhar de Ceuto, aos poucos fechou o calhamaço de epigramas e, rapidamente, os devolveu à mochila que tinha sempre às costas. Eraudo cansou-se dos epigramas aos quais foi submetido por Ceuto.
Na sala-mor, Eraudo deixou a xícara de café fazer uma nódoa nas folhas brancas. Ceuto sequer percebeu; quando percebesse, disse Eraudo ao docente Moi, ele iria reagir. Não reagiu.
– Ceuto não era o mesmo, era outro mesmo! disse Moi.
Rito Pretérito sequer olhava na cara de quem circundava a mesa na sala-mor. Rito Perpétuo parecia odiar o mundo. Andava naqueles corredores e nas salas de aula da Escola FazRegra como se sentisse nojo de tudo.
– A vida nem sempre era feita de nojos, Rito Perpétuo.
Na Escola FazRegra, em lugar da aula humana, a aula telemática, que é mais precisa, que é mais rápida, que é mais eficiente, que é menos dispendiosa, que é menos cansativa, que é menos difícil. Esta verdade foi proclamada sobre os telhados da Escola FazRegra, na voz de Rito Pretérito, que fazia oposição a Ceuto e a Eraudo.
Os filhos de Polifemo, disse Rito Pretérito, em toda praça se veem. Esses filhos da... – como Rito não ouvia ninguém – ...Sorte, vivem de lucros com essas visualizações maravilhosas do capitalismo de plataforma.
Ceuto e Eraudo não tomaram partido.
Rito Pretérito remava à direita, Ceuto e Eraudo à escola.
Os alunos eram cruéis uns com os outros.
– Onde iam buscar tanta crueldade? disse Dona Crueza, que cuidava dos banheiros. Olhe o que eles fizeram nas paredes!
– Oxi!
– Entupiram as patentes.
– Escreveram coisas terríveis nas portas.
– Quebraram pias e arremessaram pedaços de granitos neles mesmos.
– Era de suas naturezas?
– Dois desmaiaram...
– ...E foram levados às pressas à UBS, socorrido numa maca.
– Que mancada!
– As câmeras tavam desligadas?
Na FazRegra, no início do expediente.
– Ó céus! $acrifiquei a vida com a profissão. Não tive amores duradouros, só vivi futilidades, breves alegrias tolas. Ó vida! Torrei a juventude com estudos! E o que eu ganhei?
Mais tarde.
– Suas aulas foram iniciadas por Gênesis ou Apocalipse?
– E isso importa?
Mais cedo.
– Tem uma aí, na porta da escola, acompanhada por um oficial de justiça, um agente do Conselho Tutelar e um policial civil.
– E?
– Procura alguém que se recusa a reconhecer a paternidade.
Na sala-mor.
– Vocês acompanharam o que rola por aí?
– O Que Rola Por Aí é a disciplina que ensino, no Ensino Médio, na outra escola, em lugar de Filosofia, Sociologia, Geografia e História.
– Temos que retornar à sala de aula.
– Vá com Deus!
Outro dia.
– Você não vai querer mais?
– Só peço que depois lave, seque e guarde meu prato e meus talheres.
– Hoje, saí de casa, e até essa hora, acredita, não comi nada.
Fim do expediente.
Na última aula do dia, os alunos guardaram o material e fizeram pressão para deixar a sala de aula. Eraudo segura a porta fechada com o pé direito. Os alunos gritam e ameaçam com as câmeras apontadas na cara de Eraudo.
– Olha só: o sol, o sal, o suor.
Alguns minutos antes, Eraudo representava, no quadro, graficamente, os fatos que obedeciam à cronologia da novela Escola FazRegra. A primeira, única e eterna angústia, disse, era saber se conseguiria ou não deixar uma marca, por menor que fosse, uma marquinha minúscula qualquer em algum lugar, deixá-la como registro de que esteve aqui entre essas paredes.
Alunos riram de Eraudo. Eles o ameaçavam com o tecnodeterminismo do qual se dispunham 24:00. Eraudo quis afastar-se do tecnodeterminismo ao se dizer injustamente ameaçado. Os alunos investiram com a única força motriz que alegavam promover o avanço da sociedade a começar pela educação básica. Por fim, o sistema de automação da escola liberou os alunos das salas, portões abertos sob a vigilância da guarda. As aulas, naquele dia, terminaram. E o que viria no próximo dia de aula? disse Eraudo.
NA AUTOMAÇÃO – QUE FALAVA SÓ – CEUTO COCHILAVA, E ERAUDO COMIA PÃO COM MARIOLA
ContosMarcello Ricardo Almeida 16/11/2025 - 19h 17min
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