Ultimamente, os sapos arrefecem. E, de fato, a noite derrete o sol.
Quarta-feira de Cinzas era o ocaso do Carnaval. Becos escuros cuspiam foliões rasgados, mordidos pela alegria e surdos de frevos. Éramos linguagens, meras linguagens; umas figuras, bem dizer.
Posso inferir um conto? Conte.
Me permitia mais uma pergunta? Obrigado. A pergunta? Sim. Diga. Ainda há joio? Tô cheio de nostalgias. E por que tu perguntas a ti mesmo o que te faz perguntar?
Você vai ter coragem em seguir nessa mesma rua, e pior, a essa hora da madrugada? Você volte, Você. Deixe amanhecer. Sabiá-laranjeira nem anunciou a aurora. Você ficou calado. Você foi descendo os degraus com toc-toc seco nas pedras da rua.
O céu cobre-se de estrelas cadentes. A ciência discorda de estrelas que caem do céu. Mas quem leva a sério as ciências, hoje em dia!
O Sr. Plutocrático encheu as burras de dinheiro mostrando álbuns de casa em casa. Como alguém conseguia encher as burras de dinheiro com coisas tão idiotas! O Sr. Plutocrático conseguiu. Exibia aquelas imagens ridículas de coisas engraçadas, de gente conhecida, de gente desconhecida – como um circo! – e o povo pagava por isso. Este Sr. Plutocrático sabia como encher burras e burras de dinheiro. Inacreditável o Sr. Plutocrático!
Estava eu, na varanda de meu avô; lia o jornal. Nas colunas, ia a lugares distantes nos quais os estampidos de guerras levavam a arribação além-mar, quando vi o sol riscar no chão a sombra do dono do barzinho aqui em frente. Ele trazia nas mãos – chuá-chuá...! tlec-tlec...! – o molho de chaves, que – tlim-tlim! – tilintava igual aos arreios, quando meu avô e meu pai chegavam da roça.
O Sr. Plutocrático se foi com as burras cheias de dinheiro.
E o que restavam? Resíduos. Eu sou eternamente nacional. Só os jornais podiam atravessar o tempo. As eternidades não cabem nas cascas das minhas unhas dos pés. Por que tudo é tão prosaico? Eu tô aqui só pra lidar com os fatos cotidianos de minha velhice. Lendo o jornal toda manhã e observando o mundo. Tudo é tão imediato no olhar da catenga sobre o muro. Se tivesse um lápis agora, passaria o resto da manhã corrigindo os erros nas páginas do jornal. A soberania é mesmo a soberana.
Você fazia de fato relação com suas próprias relações, Você. Como você consegue?
No bar, Antítese chegou acompanhada por Antônimo, que tinha brincado Carnaval. Hipérbole chegou depois, logo após o bêbado Exagero; abancaram-se. As paredes, o piso, as janelas no fundão, o balcão, as prateleiras, as mesas, as cadeiras, as garrafas, a máquina registradora, o próprio bar foi tomando cara de gente.
Anáfora e Repetição passavam na calçada. Tudo passa, tudo morre, tudo renasce, tudo briga, tudo fala, tudo arenga, tudo quer... Elas desceram o beco nesta cantilena. Tudo digo, tudo quero, tudo faço... As vozes de ambas sumiram no buraco sem fundo do tudo.
A doença é a única inimiga da saúde! atestou Antítese numa crise de uma tosse crônica. Concordou Antônimo com a mesa cheia de cascos de cerveja. Hipérbole olhou o Panema, através do janelão verde nos fundos do bar, um risco d'água escuro lá embaixo, e fez comentários maldosos sobre a imundície.
Santana parecia seca e morta, naquela Quarta-feira de Cinzas. Morri de tanta cachaça! arrotou Exagero demoradamente como se chorasse. Não se faz mais Carnaval como se fazia Carnaval com olhos de ximbra.
Metonímia passou: toc-toc! os passos dela, na calçada de pedras, eram como se avisasse tragédias, mortes terríveis, gritos expulsos das casas. No bar, os frequentadores assíduos reconheciam aquele toc-toc de Metonímia, dela e da sua mãe, a dona Troca, desde os primeiros toc-tocs. Uma fuleragem! reclamou Exagero.
Bêbado nojento! disse o dono do bar com um trapo sujo atirado às costas.
Mas tenho dinheiro! respondeu-lhe Exagero entre os dentes entregues à podridão. Tenho dinheiro, e nunca lhe comprei fiado.
Hipérbato, num canto de parede, com o sinal da cruz na testa, riscado pela digital do padre mergulhada em um pote de cinzas da queima de palha de ouricuri, escrevia sonetos de amor à Inversão. Escreveu, nos primeiros versos, “Passei hoje por momentos alucinados, meu amor. Sigo hoje apaixonado feito um abridor de garrafas. Nada mais importante, depois que penhorei minha viola. Um amor que sequer sabe o que quer, um amor desprovido de consciência, um amor que desconhece a luta, no prato, de um garfo, uma faca e uma colher...
“...Os olhos alcançam o silêncio
“E os passos vão ao seu encontro
“Feito o vento que sopra sobre o espanto
“No vaivém do tempo que os passos alcançam
“E essa hora da manhã de sol
“O olhar tudo abraça com o laço da esperança
“Os zumbidos voam quais gaivotas tontas
“Ávidas gaivotas no silêncio planam
“Sobre as ondas os peixes em cardume avançam
“Ganham o espaço e no mergulho dançam
“Bailam os peixes ágeis, relâmpagos
“Sob a visão de fome que as gaivotas em seus sonhos sonham
“Os peixes em seu mundo aquático
“As gaivotas em seus voos de sonhos.”
Personificação jogava cartas com um jarro de flores sobre uma mesa do bar. Um cigarro apagado se equilibrava na orelha esquerda, outro na direita, um aceso no canto da boca. Personificação jogava cartas com um jarro humanizado e cheio de conselhos. As flores dançavam tango em lugar de frevo. O rádio, no bar, tocava o Frevo do Reencontro.
A maior praça de Santana ficou deserta.
Graduação entrou no bar batendo as botas. Sabe quem acaba de bater-as-botas? Eufemística. O bar ficou pasmo. Toda a cidade conhece a Eufemística. Faleceu Eufemística? o bar incrédulo. Como assim! O bar ficou ensimesmado dentro do espanto inútil de lugares nos quais só as músicas populares urbanas alcançavam. Corria, gritei, fiz protesto...! disse Graduação. E nada vai mudar, e nada quis que mudasse, e nada acreditei que ficaria diferente. Sequência entrou de supetão na conversa:
– Quem foi?
– Eufemística. Soube?
– Não soube.
– Como não!
– Não, não soube.
– Não em uma cidade dessa onde tudo se sabia.
– Quem morreu?
– Eufemística.
– Nããããoooo!
– Sim. Acabou de morrer. Eu mesmo acendi a vela.
Depois de uma eternidade.
– Eu queria compor um samba à memória da Eufemística. Fiz um romance social com ela.
Tudo permaneceu em absoluto silêncio de catenga em cima do muro; ela com a boca aberta de jacaré, e demonstrava não conseguir fechá-la. Os povos originários desceram o rio. Depois daquela serra está o quilombo. Hoje, o padre tem trabalho, tem dinheiro com os casamentos. Ontem, os cartórios não funcionaram.
Metáfora dobrou-se numa gargalhada. O dono do bar estava acostumado. Metáfora e Conotativo apostaram moedas em um joguinho de bozó. Ele é minha salvação! disse Metáfora. Em casa, minha deusa é um anjo de luz; e, na rua, o anjo de luz usa o cartão sem dó nem piedade. Sou mesmo um pobre de Cristo!
Elipse aproximou-se do balcão. Bote uma! bateu com a mão espalmada. Bote outra! Omissão chegou de repente no bar e segurou firme pelo colarinho de Elipse. Vamos embora! Omissão arrastou Elipse, que trocava pernas; e saiu do bar; ela era um verdadeiro alambique.
Pleonasmo soltava pipa. Aproveitava a mudança de vento e a gravidade. O sol da manhã em Santana é o maior do mundo. Redundância vendia rapadura, na feira. Pleonasmo e Redundância eram irmãos gêmeos sem pais, sem amigos, sem ninguém. Desceu pra baixo? perguntou Redundância a Pleonasmo, este, deduzo, não respondeu aquele.
Ironia contava lorotas. Levava a vida a falar as coisas sempre ao contrário. Ninguém gostava de Ironia, em Santana, exceto o dono do bar, que largava o serviço, os clientes, o pano sujo jogado às costas, o balcão imundo fedendo a cachaça, corria até a porta do estabelecimento e passava a mão no cabelo, no bigode, a camisa aberta no peito, passava a mão nos braços, na boca, os dedos nas sobrancelhas, admirava a passagem meteórica de Ironia. Eufemismo surgia de repente.
Eufemismo era o único que compreendia os sentimentos do dono do bar por Ironia. Suaviza a situação. Venha, amigo; vamos; voltemos ao balcão; sirva-me um vinho... Etc.
No quarto das bebidas, a placa PROIBIDA A ENTRADA. Das 10h às 16h, o dono do bar não parava de contar dinheiro. Quando o sol se puser, disse Ironia, convidarei o dono do bar pra uma conversa entre mim e ele. Ela lhe disse mesmo isso, Eufemismo? a euforia tomou conta do dono do bar. Se não disse, eu aposto duzentos gramas de... Não, não, eu acredito! atalhou o dono do bar. E se você quiser, eu... Não, não, eu quero!
Onomatopeia passava gritando na frente do bar. Parecia um carro sem freio. Nesta época, os carros de boi foram abolidos em Santana, abolidos todos os carroceiros e os meninos que traziam as feiras das donas de casa em carros de madeira.
Polissíndeto repetia que o sonho dele era ser dono de farmácia, de ponta a ponta em Santana; deduzia que o comércio do futuro seria a farmácia. Acredito, disse, que nada será menos lastimoso economicamente do que as farmácias.
Saíram da nova igreja Polissíndeto e Conjunções e Mais e Mas e Porém e Contudo e Entretanto e Todavia discutindo o jogo entre Ipanema e Ipiranga.
Assíndeto discordava das atitudes do árbitro, que ficava parado no campo sem grama e sem entusiasmo. Você não viu, Você, o que fez aquele perna-de-pau? Não, não vi. Você, você era mesmo um verdadeiro sujeito sem conjunções! disse. O dono do bar concordou com as avaliações de Assíndeto.
O Sr. Plutocrático voltou com as burras cheias de dinheiro.
Folheei a seção Crítica à Opinião dos articulistas. O dedo, em cada título, corria nas colunas feito um corpo sob um cobertor infestado por sarna. Ataque dos ácaros. A Espetacular Volta dos Desencontrados. A Liberdade era Poder ou Justiça? Aonde ia o indicador, os olhos chegavam a um novo fim de mundo. Nas páginas, palavras brigavam feio contra a semântica, sons contra a harmonia, as construções e os pensamentos contra a sintaxe. Voltei à capa; reli a manchete...
FIGURAS
ContosPor Marcello Ricardo Almeida 20/07/2025 - 20h 50min
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