FICÇÃO OU NÃO?

Crônicas

Por Lúcia Nobre

A família está sentada na sala, sem móveis, sem televisão, toma chá de cidreira que colheu no quintal do vizinho. Ainda tem um vizinho que tem um quintal verde. Fala do passado recente. Não faz muito tempo, investiu tudo na educação dos filhos. Como a maioria dos pais, funcionários públicos, municipal, estadual, federal; empresários, pequenos ou maiores; profissionais liberais, médicos, dentistas, advogados; outros profissionais trabalhadores, conscientes que podiam e deviam oferecer condições à família. Assim cumpriram. Sem perceber, foram financiando os estudos, os gastos necessários ou não, dos filhos. A situação foi se complicando.

Os gastos aumentavam. Os cursos caríssimos, cartões de crédito super lotados, dívidas aumentando. Os pais valeram-se dos empréstimos com juros altos. A corda apertou. A família vendeu o carro, a casa, o apartamento, televisão, computador, móveis. Ainda restam a mesa e as cadeiras. Estão tomando chá de cidreira, enquanto houver o vizinho com jardim verde. Tentaram esconder dos filhos, da família, dos amigos. Procuraram ajuda da família. Todos estavam na mesma situação. Descobriram que todos, amigos, conhecidos, ou mesmo aqueles que estão conhecendo por acaso, na fila do banco ou na farmácia, estão passando por situação semelhante. Todos quiseram investir nos filhos. Mas, o investimento é muito caro. O custo da graduação já é muito alto, a pós-graduação, na maioria das vezes, torna-se impossível.

Os representantes da política do País dizem que ele é o mais rico do mundo. Ficam felizes com o desespero das famílias que trabalham e querem o melhor para os filhos. Vingam-se do trabalhador que conquistou o seu espaço com estudo e trabalho. Cada vez mais, o imposto leva a metade do seu salário. Eles, os da política, desvalorizam os professores, por isso, a educação acabou. Desprezam o policial, e estamos acompanhados, lado a lado, do bandido. As famílias estão se destruindo. Caetano Veloso cantou mais ou menos assim: sei que um dia vou morrer de doença, bala ou vício. Agora as famílias destroem-se em todos os sentidos. Falidas, sem créditos, sem esperanças. Pensam: o que fizemos de errado? Estudamos muito, trabalhamos dobrado, nossos filhos fizeram o mesmo. Temos o governo da tapeação. O governo mostra na televisão que a educação está subindo de degrau. Exibe modelos de uma educação ilusória, com a intenção de enganar. A saúde está controlada. A moradia tem para todos. O cinismo paira no feio rosto dos mentirosos do País.

A família continua a tomar chá de cidreira, enquanto houver um quintal verde para o vizinho. Ainda está sentada nas cadeiras à mesa. Únicos móveis da casa. Ninguém quer comprá-los. O governo continua dizendo que tudo está ótimo. Os que não trabalham o louvam. Os trabalhadores cumprem seus deveres. Pagam impostos, juros, taxas e mais taxas. A família não pode mais investir nos filhos. A mulher que trabalha em um laboratório de uma casa de saúde da cidade falou que está quatro meses sem receber o salário. Tem dois filhos jovens estudando universidade. Para pagar a mensalidade da faculdade dos filhos, tirou um empréstimo com juros altos. Para pagar o empréstimo, vendeu o carro. Não tem mais o que vender, mora em apartamento alugado. Está tudo bem? As mães e os pais estão desesperados. Suspender o estudo dos filhos? Diriam outros pais: mandem eles trabalhar. Trabalhar como? Os filhos estão preparados para o mercado de trabalho? Os donos das empresas não sabem o que fazer. As empresas estão falidas. Não suportam os mais fortes concorrentes. Os impostos destruíram todo patrimônio sem piedade. Os donos das empresas venderam seus imóveis para pagar impostos. Como pagar funcionários? E a família continua tomando chá de cidreira do quintal do vizinho, enquanto, houver o quintal verde do vizinho. Está sentada nas cadeiras ao redor da mesa, enquanto, não aparece alguém para levar os móveis que restam na casa da família.

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