FAÇA-SE!

Contos

Por Goretti Brandão

Os ventos tardaram, mas quando vieram no final da tarde, uivavam feito lobos. Grossas nuvens formaram uma cortina sobre o céu e as sombras afugentaram a cor das coisas. Primeiro, os fortes clarões. Depois, o estrondar dos trovões estilhaçando o tempo. A paisagem ruiu e as casinhas da Maniçoba vistas de longe pareciam tortos rabiscos. No varal os panos tremiam de medo e, escapando dos prendedores, fugiram quintal adentro.

Violeta precipitou-se, nervosa, parou o que estava fazendo e assistiu, entre medrosa e admirada, o mover-se do vendaval. Sozinha, naquele momento, socorreu-se com a ajuda do poeta. ´´ Que dura orquestra, que furor insano`` - ´´misericórdia, se eu não tivesse reforçado minhas grades, iam-se embora as minhas trepadeiras``, falou a si mesma. Pensou, tentando medir o infinito, as perguntas - tantas -, sem respostas e na poesia como um alívio imediato. Sentiu-se, assim como se diz, refugiada. Abrigou-se na palavra, e daí no verso e adiante no Verbo. Confiante, pediu permissão a Deus para pronunciar, não em tom de ordem porque seria um desaforo, o imperativo criador: Faça-se!. O que tivesse que ser completado, o que faltasse àquele dia de tempestade e a ela. Enquanto pensava, vieram os pingos d´água e o cheirinho de terra molhada. No chão da varanda, haviam-se aquietado as folhas secas que antes saracoleavam ao vento. 

Violeta acomodou-se. Voltou a sentar-se no banco e entregou-se ao ofício. Vez por outra olhava a chuva de pouco porte para tanto anúncio. Distraía-se, e olhava o céu úmido, enegrecido, a esconder as estrelas. O seu quintal ficara sisudo. Corria o silêncio a fechar todos os barulhos. Violeta concluía-se. Terminava-se mais um dia.

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