SANTANA DO IPANEMA (Uma história quase mentirosa)

Crônicas

José Albérico Farias Alécio

Ou quem sabe... A primeira transposição da história.

Sabiam que o querido Rio Ipanema só passou a fazer parte da paisagem da nossa cidade de alguns anos pra cá?

É isso. Ou vamos preserva-lo, ou ficaremos sem ele outra vez.

Nossa história, assim como quase todas as histórias, sempre procura puxar para o lado romântico; e principalmente o lado heróico.
Quem hoje nesse país, que tenha atingido ao menos o segundo ano do antigo primário não lembra daquele vibrante “Terra a vista”?
E melhor. O emocionante “Independência ou Morte”...

Claro que hoje em dia ninguém acredita mais nisso. As últimas coisas que os brasileiros acreditaram foi na Seleção e no pré-sal, né mesmo?

Mas, diante dessa realidade, está na hora de contar nossa verdadeira história.
O primeiro nome da nossa querida cidade foi “Poço de baixo”.

Isso mesmo... Naquela época, era mais ou menos 1768 ou 1813 não posso afirmar com certeza porque minha memória anda mais curta que perna de anão.

Mas, embasado em relatos e documentos, aqui não existia o Rio Ipanema, e o primeiro habitante da nossa querida Santana foi um cidadão conhecido por Peixotinho que foi deixado aqui pela caravana do Marechal Rondon.
Esse Peixotinho depois de longas pesquisas, o historiador João do Mato descobriu que se tratava do tetravô de um santanense muito querido nosso.

Peixotinho foi o maior desbravador desse nosso pedaço. Um verdadeiro herói. Passou dezoito anos e seis meses só coçando a virilha e tomando rom montilla com coca cola.
Mas como todos sabemos, coceirinha também enche o saco né?

Foi aí ele resolveu que deveria fazer alguma coisa para o desenvolvimento da região. Bateu um telegrama pro Marechal Rondon e em comum acordo foi criada aqui em Poço de baixo a primeira sede do Diretório Nordestino dos Ébrios Românticos (DNER).

O tempo foi passando, e mais ou menos em 1834 ou 1840, não posso afirmar com certeza porque minha memória anda mais curta que passeio de roda gigante em última noite de festa.
Só sei quase onze anos depois sem nada funcionar direito, Peixotinho passa um telegrama pro Marechal Rondon.

- Pô Marechal, tá vendo que esse negócio de telégrafo num tá dando certo. Por que tu não cria logo o e-mail?

- Ô Peixotinho, tais agoniado é? Diz aí o que tá faltando...

Foi aí que o Peixotinho pegou o Marechal na palavra.

- Marechal, pra minha terra desenvolver eu preciso de uma obra grandiosa.

- O que por exemplo Peixotinho?

- Uma ponte, Marechal.

Marechal Rondon como tinha plena confiança no Peixotinho e sabia que jamais ele iria superfaturar a obra, deu carta branca para o inicio dos trabalhos.

Peixotinho que alem da sua vontade ainda contava com a facilidade do telegrafo, não foi difícil encontrar lá pras bandas da serra da Caiçara, um rapazinho recém-casado de nome Manoel, carinhosamente chamado de Maneco.
Juntando a garra do Peixotinho com a inteligência do Maneco, em dois meses a planta estava no papel e com mais oito meses estava concluída as obras da ponte da barragem.
Só tava faltando agora chamar o Marechal pra inauguração.

Quando foi mais ou menos em março de 1845 ou 1874 não posso afirmar com certeza porque minha memória anda mais curta do que minissaia de rapariga.

Só sei que por coincidência ou não a inauguração foi marcada para o dia 1º de abril daquele ano.

Dia da grande festa tava lá toda população de Poço de baixo.

Isso mesmo, tava lá todos os quatro habitantes da cidade.

Tava o Rondon que tinha sido nomeado cidadão honorário, tava Peixotinho, o idealizador, tava Maneco, o executor, e lá no fundo tava o quarto habitante que era um veínho do bigodão comendo uma cocada e com uma corneta na mão dizendo que era o maestro da banda marcial.
Na hora de cortar a fita, perfilou o Marechal dando continência, Peixotinho com a tesoura na mão, Maneco com a faixa de boas vindas e o véio cocada com a corneta no beiço pronto pra assoprar.

Foi aí que o Marechal num sopapo virou pro anfitrião e falou:

- Ô Peixotinho, tu tá doido é? Como é que você gasta uma dinheirama dessa pra construir uma ponte num lugar que nem rio tem?

Peixotinho nem tinha pensado nisso, mas também nem se avexou. Deu uma carreira, foi lá nos correios bateu um telegrafo pra Poço de cima e falou com um tal de Coronel Medeirim.

O Coronel pra não desapontar o Marechal deu um jeitinho de desviar o Rio Ipanema que antes passava por detrás da serra da camonga para passar por debaixo da ponte de Peixotinho.

Depois dessa transposição, o resta da história todos já conhece. Poço de baixo passou a se chamar Santana do Ipanema, começou a receber novos habitantes, inclusive um danado dum negão lá das bandas da Mata Grande. Ô Nêgo moleque aquele, mas fez muito por Santana. Construiu a ponte do Padre, construiu a Igrejinha de Senhora Assunção, construiu a Micro-ondas, construiu a Igreja da Matriz, construiu a Praça do Monumento, construiu a Caixa d’água, tudo isso só prá depois o bisneto dele tá aqui fazendo música arretada pra gente.
Santana do Ipanema, mais ou menos junho de 2015.
(Não posso afirmar com certeza porque minha memória anda mais curta que meu salário).

Comentários