VALORES INVERTIDOS

Crônicas

José Bento de Melo Filho

Ontem encontrei um velho amigo que também estava no mesmo restaurante que eu. Perguntei se não almoçava fora como antes, já que havia muito tempo sem nos encontrarmos. Respondeu que a cada dia estava menos social, pois ambientes com muita gente o deixavam mal. Então voltei a indagá-lo, perguntando o que o tinha deixado assim? Respondeu-me que o mundo o decepcionava e que o contato com as pessoas o deixava ainda mais desacreditado. Explicou-me que a “Lei de Gerson” estava mais presente que nunca, inclusive em pessoas que jamais ele esperava que fossem agir tentando levar vantagem em tudo. Logo, seria mais prático evitar ao máximo conversas, já que elas não lhe fariam bem.

Eu, que também já havia tido um comportamento semelhante ao seu, e pelos mesmos motivos, relatei-lhe que usava meu carro como um túnel, ligando-me de casa ao trabalho, onde passei a ter um mundo meu, desde um boa música até a seleção das pessoas para conversar. Porém, percebi algum tempo depois, a necessidade de ter contatos com pessoas comuns do nosso dia a dia. Pensei e repensei, onde e como. E descobri, não havia nada melhor que um bom jogo de futebol. Ali todos são iguais: do servente de pedreiro ao médico, todos estão no mesmo nível de discussão, não importa a classe social. É um lugar perfeito para se tirar o estresse e se abastecer com as conversas do cotidiano, daquelas que todo mundo conta e participa rindo por serem engraçadas. Contudo, hoje passei a repensar o que eu havia dito ontem. Primeiro quero esclarecer que jogo futebol todos os sábados pela manhã, e uma das condições ao participante é ter mais de trinta e cinco anos. Ali ninguém é criança, todos têm um velho e comprido histórico de vida, não cabendo mais errar por coisas mesquinhas. Eu, por ser dono do campo, tenho tentado mudar - sem muito êxito - algumas regras. Como uma bola que saiu e o árbitro não percebeu. Eu tenho tido conversas, tenho implorado aos próprios jogadores que sejam honestos e façam essa correção, sem tirar proveito do erro da arbitragem. Porém, não tenho conseguido! Infelizmente as pessoas não aceitam agir assim e contra-argumentam. Justificando que, se o árbitro não marcou, então não é; ou, se ele marcou, é. Quem já ouviu dizer que os valores andam invertidos? Pois é! O futebol, que eu achei que fosse a melhor atividade para me recolocar na sociedade, trazendo junto o exercício físico e descanso mental, na verdade tem me causado desapontamento, tristeza e estresse, porque não entendo como pessoas em tal idade continuam mentindo para tirar proveito até em jogo de futebol.

Nesse mesmo dia, ao sair do meu jogo de futebol, fui assistir ao time do meu filho de dez anos jogar. Era um campeonato de futsal, que já estava na fase de mata-mata. Entrei no ginásio e sentei sozinho. Lá do outro lado, estavam as pessoas da mesa, do banco de reserva e a maior parte da torcida presente. Deixei o jogo começar para poder fazer uma análise das possibilidades de classificação, pois o adversário jogava pelo empate. Gostei dos dois times, bem arrumadinhos. O de Monteirópolis, tomando a iniciativa do jogo, até por ser tecnicamente melhor. Já o de Areias, mostrava que possuía a força através do seu contra-ataque. Com o camisa de número sete, seu melhor jogador. Comecei a desconfiar da arbitragem, entretanto, não quis acreditar na possibilidade tendenciosa da mesma, e fiquei de orelha em pé. Mas, logo tirei as minhas conclusões: eles estavam puxando o jogo para o time de Santana. Pedi licença a um amigo que acabara de chegar e estava sentado ao meu lado e fui falar com o treinador da equipe de Monteirópolis. Alertei-o sobre a arbitragem, que iria complicar o jogo. Ele me respondeu, que também já havia feito a mesma leitura. Voltei para o meu lugar, dessa vez sozinho, comecei a me indignar, desejei ir embora, mas, seria covardia da minha parte deixar aquelas crianças sendo enganadas sem ninguém para defendê-las. E o pior, com um ginásio todo torcendo contra. Resolvi ficar. O time de Monteirópolis voltou para o segundo tempo bem melhor e logo abriu o placar. Tudo parecia questão de tempo, até porque o desespero do adversário o desorganizou. As chances do gol iam aumentando à medida que a ansiedade do adversário também aumentava. Focalizei e fiquei de olho na arbitragem, pois sabia que eles iriam fazer o possível e o impossível para classificar a equipe de Santana. Quem me conhece sabe que não aceito falcatruas, ganhe quem for o melhor, ainda mais com crianças, já que o bom exemplo tem que ficar, marcar. Para que elas cresçam sabendo que, para vencer na vida, não é preciso cultivar o ilícito. Não deu outra: em um lance que poderia ser mais um gol para o time de Monteirópolis, o árbitro parou a jogada marcando perigo de gol. Ninguém entendeu por que ele não dera lei da vantagem. E quando o nosso último zagueiro saiu para bater a falta acreditando que fosse a seu favor, ficou surpreso. Ele a inverteu facilitando assim para o time de Areias Brancas, que só fez tocar a bola para o atacante que estava sozinho, ele e o goleiro. Gol! Fiquei louco, inconformado, não acreditava no que eu estava vendo. Entretanto, era verdade! Vergonhoso! Não o resultado em si - Amanhã tudo voltaria ao normal – mas, o comportamento da arbitragem e de parte da torcida que gritava sem se importar com a forma como essa vitória estava sendo conquistada. Perdi a cabeça, xinguei a arbitragem e voltei muito mal para casa. Que dia! O futebol, que seria para acabar com meu estresse, é que vem me estressando. Não pode! Acho que eu estou errado. Não vale a pena ser assim, a gente sofre demais, lutando pelo correto. É uma briga desigual, as pessoas não desejam um mundo justo e melhor para todos. Elas querem tirar proveito de tudo e de todos. Fiquei lembrando do meu amigo lá do restaurante. O qual o aconselhei a acreditar na sociedade, e que, começasse a mudar de opinião. No entanto, em horas assim como essa, tudo volta à estaca zero. Claro, não desisto, meu perfil não é de se acomodar, mesmo em situações aparentemente simples, sem muito valor. Mas quando temos o vício de cobrar que as coisas sejam justas, não podemos medir o tamanho delas e sua importância. É como diz o ditado popular: “Quem é honesto é honesto, não importando o tostão ou o milhão”.

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