VIDA BOA – ELE MERECE

Crônicas

Por Luiz Antônio de Farias, capiá

“Existem homens que lutam um dia e são bons; existem outros que lutam muitos dias e são melhores; existem os que lutam muitos anos e são muito bons. Mas existem aqueles que lutam a vida inteira: estes são imprescindíveis.”
Lembro esta citação, de Bertold Brecht, para fazer uma correlação com um cidadão (na mais sublime acepção da palavra), que conheço exatamente há sessenta e cinco anos. Refiro-me ao amigo de longas datas Bartolomeu Barros.
Fui trazido do Riacho Grande para minha querida Santana do Ipanema,por meu inesquecível pai, Zeca Ricardo, para ficar na casa do meu avô Mizael, com a finalidade de estudar o curso primário no meu velho casarão Grupo Escolar Padre Francisco Correia. Isto aconteceu em janeiro de 1950, quando eu contava com um pouco mais de seis anos. Maria – mulher do meu avô do segundo casamento – era costureira, de excelente qualidade, preferida pela elite santanense da época, na confecçãodas suas indumentárias. Os aviamentos necessários para o preparo das roupas eram adquiridos na Casa O Ferrageiro, de Manoel Nepomuceno – seu Nezinho – e este escriba era o portador indicado para as compras. O gerente da loja era o Bartolomeu, um jovem de dezenove anos, que muito cedo já sabia onde queria chegar.
Com a morte de seu Nezinho a administração do estabelecimento passou a ser exercida – para consolidar o desejo do antigo proprietário – por Bartolomeu e por Jugurta Nepomuceno, este sobrinho do falecido. Esta parceria foi eivada de reconhecido sucesso, que perdura até os dias de hoje. Com certeza os pósteros darão continuidade a esse empreendimento vitorioso.
Hoje eu tenho a ideia de que a Casa O Ferrageiro,de então, havia avançado no tempo, porque já mantinha um sistema de cupão entregue aos clientes, que acumulava pontos a exemplo do que ocorre atualmente com os cartões de crédito.
Enumerar as qualidades de Bartolomeu, seria como “chover no molhado”, porque ele é realmente o “homem dos sete instrumentos”. Além de todas as reconhecidas benfeitorias realizadas ao longo da vida,ele agora nos surpreende com a faceta de escrever o livro “Vida Boa”. Certamente não vai ficar somente nesse. Outros virão, porque o tema por ele desenvolvido, sobre figuras que fizeram a história da terra de Senhora Santana, é muito fértil. No seu trabalho literário ele resgatou a memória de personalidades que, de uma forma geral, andavam meio esquecidas. Manoel Nepomuceno, Seu Rocha, Euclides Ricardo (meu tio-avô), Pedro Baia, o gênio Ermídio Firmo, apenas para citar os mais antigos.
Mudando um pouco o rumo da prosa, enquanto muitos santanenses se orgulham pela quantidade de conterrâneos que colocam nossa história no papel, outros (uma minoria, graças a Deus) maldosamente acham que “hoje em Santana todo mundo quer ser escritor”. Na minha mais humilde concepção, entendo que escrever um livro é como cultivar uma roça de lavoura: com as graças de Deus existem a terra, a chuva e o chão. Só depende da coragem do agricultor para se valer dos equipamentos ao seu dispor e colocar em prática o objetivo pretendido. Nesse aspecto Santana é pródiga. Os preguiçosos que não tem disposição de pegar na enxada (ou no lápis) ficam dizendo que “as uvas estão verdes”. Recordando o inesquecível e irreverente Ibrahim Sued, “os cães ladram e a caravana passa”.
Vale a pena, também, ressaltar Monteiro Lobato : “o mundo é feito de homens e livros”.

Praia de Maragogi, janeiro/2015

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