A singeleza dessa mulher transcendia a tudo nesse mundo. Metade de suas raízes ascendentes provinha do vizinho estado de Pernambuco. E a outra de Alagoas. Era filha de um próspero comerciante de Santana do Ipanema, no início do século passado. Sua residência teve lugar na avenida Cel. Lucena por um bom tempo.
Na composição de sua árvore genealógica estava incluída entre três irmãos, dos quais uma mulher de prenome igual ao seu. Provavelmente, recebido por devoção à nossa Mãe maior no instante do banho na pia batismal.
A educação escolar adquirida poderia até não ter sido a ideal, entretanto, para os padrões da época refletia tudo aquilo representado entre os limites do necessário e o da referência dominante nos tempos antigos, em meio às dificuldades interioranas. Por isso, como quase nada era exigido, pouco podia ser dado.
Na esteira educacional do âmbito familiar, capitaneada por sua mãe, certamente foi contemplada com o de melhor que poderia ser ofertado. Seu pai falecera aos 33 anos, idade talvez considerada jovem para a época.
Teve infância e juventude ladeadas de sua irmã homônima e das várias amigas residentes no entorno de sua casa. Ótimo seria se pudéssemos ao menos nominar algumas delas. Não me lembro de ter ouvido dela pelo menos um nome. Muito tempo já passou. Infelizmente, isso constitui agora um universo de possibilidades impossíveis.
Decerto, ficamos a imaginar a simplicidade dessa bonita jovem, em plena flor da idade, educada, calma ao falar, reservada, entre outros atributos, abrilhantando com a sua presença as festas da padroeira no mês de julho e das tradicionais de fim de ano na praça da matriz, acompanhada a distância, com certeza, por sua mãe.
Não sabemos, mas até podemos supor que nas ocasiões supracitadas tivesse ela encontrado oportunidade de namoro com o jovem mancebo do Sítio Gravatá. Coisas de moçoilas típicas de sua idade, que culminaria logo após em matrimônio, vindo a residir em sítio distante 12 quilômetros da cidade. Dessa união vieram 10 “frutos de grandeza e quilate incomparáveis”; eram exatamente estas as palavras dela para qualificá-los.
Mesmo diante das reconhecidas dificuldades inerentes à vida rural, durante o tempo que por lá permaneceu, em torno de 18 anos, dedicou-se totalmente a todos os seus filhos, sem distinção nenhuma. Nunca se curvou diante de situação adversa. Sobrepôs a todas elas enfrentadas no caminho percorrido, sem nada reclamar. E não foram poucas. Simplesmente, tirava de letra. Para nós, a sua santificação começou a partir de sua chegada ao Sítio Gravatá. E por sinal tratava-se de uma pessoa extremamente religiosa. Foi doutora, mestre, educadora, psicóloga, da melhor forma possível, sem frequentar nenhuma faculdade.
Incentivada por sua mãe e um dos seus irmãos voltou a morar na cidade (desta feita na Rua Nova), com o fito de melhorar a sua qualidade de vida e de seus descendentes. Desse ponto de partida acelerou os passos com vistas ao futuro deles. Apesar de limitados estudos, era uma visionária e sabia a importância da educação e da formação como cidadãos para o amanhã. Falando com seus botões, dizia-se muito orgulhosa e grata a Deus em saber que todos os seus filhos conquistaram, através dos próprios esforços, os objetivos desejados.
Essa mulher podia até possuir alguns defeitos, mas achá-los era tarefa considerada quase impossível. Como filho, não vi um sequer. Dava-lhe como características uma enorme quantidade de adjetivos. Arrisco-me a mencionar vários, tais como: inteligente, bondosa, atenciosa, agradável, amável, dedicada, etc. Além de tudo foi uma grande guerreira. “Dizem que a mulher é um sexo frágil, mas que mentira absurda…” Quando Erasmo Carlos compôs essa canção não imaginava que estava tão certo.
Há poucos anos a municipalidade santanense, em justa homenagem, batizou rua com o seu nome.
Não consigo esquecer de quando, eventualmente, eu chegava em casa pela madrugada nos fins de semana, sem fazer barulho para não acordá-la; e lá estava ela, bem tranquila em seu leito, ainda acordada, ouvindo rádio bem baixinho, e a primeira pergunta que me fazia era por que não tinha voltado com o irmão mais novo. Coisas de mãe.
A prole deixada por ela, após cumprir de forma brilhante a sua missão, está constituída hoje, além dos 10 filhos, de 36 netos, 38 bisnetos e 4 trinetos.
Infelizmente, muito antes do combinado, foi convocada a compor a equipe dos justos em outra dimensão, aos 63 anos de vida terrena, deixando-nos com muita saudade até os dias de hoje. O nosso amor por ela é infinito.
Nossa mãe, a senhora também foi uma Amélia. Saudades da senhora, Dona Lila.
Maceió(AL) 08/12/2014
HOMENAGEM AOS 100 ANOS DE DONA LILA
CrônicasPor Aderval de Melo Carvalho 08/12/2014 - 22h 29min
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