Creio que todos nós já experimentamos, pelo menos uma vez na vida, um sentimento de vergonha por termos algo diferente dos outros. Geralmente isto acontece na infância, na fase escolar. Pode ter sido durante a chamada por ter um nome que julgava exótico. Ou, na hora de ir ao pátio cantar o hino nacional, por ser maior do que as outras crianças e por isso ter de ficar em último lugar na fila. Ou simplesmente por ter uma profusão de cachinhos na cabeça em contraste com os fios lisos tão valorizados neste nosso país tropical.
Sejam quais forem suas singularidades, mesmo que hoje você já tenha aprendido a aceitá-las e talvez até delas se orgulhe, certamente um dia elas já foram, e talvez de vez em quando ainda sejam, incômodas.
Este desconforto é típico de situações em que destoamos dos outros. Seu tamanho é tão grande que só pode ser comparado ao enorme alívio que sentimos quando percebemos que estamos em sintonia com a maioria.
O psiquiatra José Ângelo Gaiarsa repete em seus livros que todos nascemos gênios porém somos tornados medíocres pela educação que recebemos. Tal educação teria como objetivo tolher nossos movimentos e emoções, matar nossa espontaneidade e originalidade, tudo isto em prol da continuidade do modelo de sociedade em que vivemos. O que se pretende é formar homens normais. Gaiarsa prefere chamá-los, os indivíduos que compõem as estatísticas, de normopatas.
Os normopatas são moldados pelo antiquíssimo, porém muito atual, método da repetição. O indivíduo é bombardeado com a repetição de conceitos e frases feitas desde antes do nascimento, ainda na barriga da mãe, de forma que quando atingir a idade adulta _ alguns até bem antes disso, devido à consagrada eficiência do método_ seja capaz de aplicá-los de maneira satisfatória em todas as esferas de sua vida e de propagá-los, contribuindo assim para a modelagem de outros indivíduos e, consequentemente, para a coesão do todo social.
É através desta repetição que se legitima aquela que, segundo Gaiarsa, é a maior autoridade de nossa civilização: a voz do povo, também conhecida como a maioria.
Por sermos seres movidos também pelas emoções, é totalmente compreensível que queiramos evitar desconfortos e optemos, sempre que possível, por simplesmente seguir a turba. Porém, nossa condição humana é também indissociável da capacidade de raciocíonio. Desta fabulosa potencialidade que nos permite investigar, questionar, compreender, criticar, atribuir valor, relacionar, optar e, claro, assumir as consequências de tudo isto.
Na história da humanidade, abundam momentos em que o impasse, já vivido por todos nós, entre seguir a maioria e assumir suas convicções está presente. Em alguns deles, quando a maioria venceu, percebe-se que as consequências negativas tiveram dimensões assustadoras.
Nilson Machado, doutor em educação, cita como exemplo de vitória desastrosa da maioria a votação promovida por Napoleão na França para legitimar uma nova constituição que o transformaria em imperador todo-poderoso. Tal documento foi aprovado pela maioria esmagadora de três milhões de votantes contra apenas mil e quinhentos franceses que resistiram a votar conforme o burburinho burro das ruas.
Situação parecida foi protagonizada por Mussolini, ainda segundo Machado. Aproximadamente mil e duzentos professores universitários italianos assinaram embaixo de uma lista de orientações políticas do ditador fascista. Apenas doze docentes preferiram não assinar, mesmo conhecendo os riscos que corriam e sabendo que a lista seria aprovada a despeito da resistência deles. Episódios como este sugerem a palavra ‘covardia’ como rima para maioria.
Não pretendo que sejamos todos super-heróis. Sei que cada situação é única e apresenta sempre vários aspectos, muitos deles mensuráveis apenas quando estamos dentro dela. Tampouco ignoro que sozinho não se vive. Portanto, cada decisão precisa ser precedida de uma negociação em que os riscos, os prós e os contras de se ir com ou contra a maioria deverão ser levados em conta.
Mas para se negociar é fundamental saber com quem se está tratando. Convém, portanto, investigar quem é essa tal de maioria. Será que ela existe mesmo? Ou não passa de uma ilusão que inventamos para nos sentirmos menos sozinhos e mais seguros. Se assim for, ela não deixa de ter sua utilidade. Tal qual uma canção que entoamos quando sentimos medo de escuro. Porém se nos acomodarmos, corremos o risco de repetir eternamente a mesma cantiga. Se quisermos ver a luz do sol novamente, precisaremos de um coração valente o suficiente para tatear o escuro, buscar outras formas de enxergar e encontrar nosso caminho, por nós mesmos. Isto a maioria não pode nos oferecer, pois ela, como disse Otto von Bismarck, « tem muitos corações, mas lhe falta um coração ».
A MAIORIA
CrônicasRosa Cecília Wanderley Silva de Azevedo 27/11/2009 - 00h 58min
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