O CIRCO CHEGOU

Crônicas

Avelar Alécio

Costumeiramente a nossa cidade recebia circos de diversos tamanhos e categorias, desde aqueles grandes de lonas coloridas até os “tomara que não chova” que nem lona possuíam. Com lona ou sem lona a nós crianças pouco importava, não era um circo? Tinha palhaços? Tinha mágico? Tinha trapézio? Tinha “drama” ou teatro? Isto sim o que interessava-nos. E principalmente se tivesse palhaço! Interessante era o fato de que quanto mais pobre o circo, melhor eram os seus palhaços!
Chegava o circo a notícia ganhava a rua e lá íamos nós presenciar a montagem do mesmo, bisbilhotar sobre as atrações, o valor dos ingressos, os horários das matinês a fim de nos prepararmos para assistir aos seus espetáculos. As estratégias eram as mais variadas e criativas possíveis: como éramos crianças pobres sabíamos muito bem nos “virar” para conseguir os cruzeiros que nos garantiam a entrada: vendíamos jornal, revistas, garrafas, fazíamos algumas atividades extras junto à família e o certo que felizmente garantíamos a ida ao circo.
Lembro-me de um circo famoso, dentre os de médio porte, que era o “circo e teatro José Bezerra”. Este fez sucesso na região, tinha uma rumbeira, filha do dono do circo, de nome Iracema, que ameaçou casamentos e fez alguns aventureiros pularem a cerca da fidelidade conjugal e caírem em seus braços em calientes e efêmeros momentos de amor. Um famoso jurista da cidade fôra visto em uma dessas aventuras. Iracema endoidecia de paixão os homens da cidade!
A nós crianças interessavam naturalmente as outras atrações: palhaços, pipoca, trapézio, mágicas...o que Iracema fazia na cama ainda não era preocupação da criançada. Ouvíamos curiosos porque tínhamos ouvidos de ouvir, mas logo esquecíamos ou deixávamos arquivados em nossa mente infantil.
Gravamos alguns fatos pitorescos do cotidiano circense, dentre eles a forma característica de “enrolar” o público na espera do início do espetáculo...faltam somente cinco minutos para darmos início ao nosso espetáculo”...e haja tempo! “Senhoras e senhores não percam, hoje é o nosso último espetáculo”...passavam no mínimo mais uma semana!
Interessante é o fato de sempre nos interessar por circo. Gostávamos muito e sabíamos apreciar a arte circense! Chegávamos ao extremo de em nossa residência improvisarmos um pequenino circo e ao mesmo conseguíamos a atenção da criançada da rua. Lembro-me de muitos amigos que se constituíam em assíduos freqüentadores de nossos “espetáculos”. O hoje Padre Zé Neto e irmãos faziam parte dessa seleta platéia.
Santana recebeu também circos de grande porte. Depois com o advento da televisão e outros atrativos essas empresas circenses foram aparecendo com menor freqüência entre nós.

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