QUARTO ATO

Contos

Plácido Nunes


CENA ÚNICA

(para a minha amada mãe e William Shakespeare)


Corredor de uma prisão de segurança máxima. As celas são numeradas de 13 a 22. Onzes horas da noite. O prisioneiro 17 é conduzido para o seu novo habitat.




CELA 13 – E aí, meu brother, por que vieste parar aqui?

CELA 17 – Fui transferido para este mundo-cão! Disseram que eu era perigoso demais para estar em um presídio comum.

CELA 15 – E o que tu fizeste para ser considerado tão perigoso assim? (Ri debochadamente.)

CELA 22 – Eu estou aqui há cinco anos... Sou o Cão Chupando Manga! Matei uns dez... Gosto de matar quem não presta!

CELA 17 – Ainda não matei ninguém! Talvez é que tenham matado a minha alma. Por isso, estou neste inferno onde os demônios só têm vozes!

(Risos ecoam pelo corredor.)

CELA 14 – Então tu és um desses do Colarinho Branco? Um desses que rouba da gente e anda pela cidade desfilando de carrão, cheio de mulheres, uísque, caviar... Todo fodão!

CELA 18 – Conversa fiada! És quem, meu chapa? Bill Gates? Pato Donald? Não te conheço. Vivo no crime desde que tinha pêlo ralo no sovaco e no pau. Conheço todos os meus parceiros e nessa roda-viva não passas de um estranho!

CELA 17 – Sou um homem comum. O meu crime é ser comum!

(Risos incendeiam o corredor.)

CELA 13 – Eu também sou comum! Como,durmo, cago, nunca estudei, matei uns três, assaltei uns quatro bancos, sou um bandido comum. (Rindo) Vai-te foder!

CELA 14 – Cara, somos comuns! Não fiz nada de mais e estou condenado a quinze anos! Talvez não mais chegue a ver nascer uma rosa ou a ouvir o ruído do mar! És bicheiro? Matador de aluguel? Traficante? Dize-me!

CELA 21 – Presta atenção, meu chapa! Neste lugar, somos irmãos e é melhor tu soltares logo essa língua de mocinha santa senão estarás em maus lençóis!

CELA 16 – Bicho, na hora do banho de sol, tu saberás quem somos e tuas palavras soarão tão doces nessa hora que terás medo até de ti mesmo!

CELA 17 – Não tenho medo de nada! Perdi a inocência quando acreditei nos homens e em tudo que eles me diziam. Sou agora o reflexo do pensamento alheio e das ações repetidas desses mesmos homens. Durmo o sono das recordações violentas e em meus sonhos a vida é um desbotar de cores e um silêncio de desejos e intenções. Cada segundo que passa nada mais me acrescenta e, sim, retira do meu espírito a lucidez e a certeza de que a existência de Deus é desnecessária e ridícula!

(Silêncio no corredor durante cinco segundos.)

CELA 22 – Porra, filho de uma puta! Que droga de lero é esse? Estás pensando que aqui é o consultório de Freud? Aqui é o fim da linha! É o fim do gozo! Aqui é a descoberta da transa sem camisinha com a meretriz aidética!

CELA 15 – Camarada, se tu estiveres arrependido do que fizeste, até compreendo, mas agora que estás na lama, como um caranguejo, só poderás ir mais fundo ou andar para os lados. Entendeste?

CELA 18 – Ai, Senhor Piedoso! Sei quem és! (Para todos.) Amigos, esse aí é o Zé da Maria! Sim, é o Zé da Maria! Nunca ninguém encontrou o corpo dela! Nunca! Nunca!

CELA 16 – É! É esse cara sim! Saiu em muitos jornais! Que cara mais filho da mãe! Matou a pobre Maria. Teu covarde! Nós amávamos Maria! Seus dias estão traçados a partir de hoje!

CELA 17 – Não a matei! Juro que não a matei! Ela simplesmente sumiu. Pensei mesmo em matá-la, aquela cadela traidora, mas não a matei! (Para a CELA 16) A minha vida já está traçada há muito, meu amigo de desventuras! Eu nunca tive felicidades e quando pensei que os lábios da alegria iriam roçar os lábios da minha alma, vi-me preso a temores mais cheios de treva que a própria escuridão! Quando senti que o meu coração iria bater sem medo do porvir, vieram-me as pancadas mais ferozes e destruíram o que eu ainda tinha de belo e de jovem! Hoje, estão somente traçadas as angústias e a certeza de que amanhã não terei mais que saber quem me penso ou sinto!

CELA 14 – Também sou inocente! (Grita para todos.) Eu não matei Joana D`arc! Eu não matei Galileu! Eu não matei os judeus!
Eu só matei a Teresinha! Eu só matei a Madalena! Eu só matei a Carolina!

(Todos riem e um barulho ululante faz lembrar uma bolsa de valores)

CELA 17 – Parem todos de julgarem a mim! (Gritando.) Já me condenaram por um crime que não cometi! Bastam-me os temores! Bastam-me as dúvidas! Agora não sei mais quem sou!
(Voz nervosa, mas sem gritar.) Fico a ver os dias passarem e não tenho esperanças. Perdi o sentido do que é divino e justo. Pareço um pássaro engaiolado e que emudecera e ouve o seu canto em outros pássaros que cantam desafinados uma marcha fúnebre e cruel. Jamais me encontrarei e, nesse momento, a solidão é o meu maior tesouro. (Gritando.) Calem-se!

(Silêncio absoluto no corredor)

CELA 20 – Meu Deus! E se for verdade o que esse verme diz? E se estivermos enganados? E se a Justiça se atropelou e condenou esse vampiro cristão? E se Ela também nos condenou sem que merecêssemos?

CELA 21 – (Para a CELA 20.) Cala a tua boca, criatura das sombras e dos ralos podres e infames! Achas que, após teres estuprado vinte crianças e ter assassinado friamente os teus pais, tens ainda pensamento de que a tua culpa é um fio dental? Acreditas em tua inocência manchada de sangue e nojo? Cala-te! Não somos nada inocentes e ele não é nada do que diz!

CELA 13 – (Para a CELA 14.) Mais essa agora! Inocente? Coitada de Maria que não pôde ter um enterro decente e deve estar apodrecendo em algum matagal ou está sendo devorada por vermes numa dessas covas rasas!

CELA 14 – (Para a CELA 13.) Isso mesmo, meu irmão! Isso mesmo! Inocente? Parou aqui onde se encontram os anjos e vem com esse papo de que não tem culpa alguma! Arrependimento é para as almas limpas e não para as que estão nesse cubículo à espera da morte!

(Entram três guardas amplamente armados. Dirigem-se à CELA 17. Um dos guardas bate à porta e pede para que o prisioneiro se apresse, pois o carrasco já está ansioso por mais uma alma.)

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